sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A montanha mágica


llCreio que uma das mais belas regiões do mundo é o Languedoc, uma parte dos Pirineus que se encontra ao sudoeste da França. Já estive ali algumas vezes, e fico impressionado com seus vales, montanhas, vegetação, rios. Entretanto, como o ser humano é absolutamente imprevisível, foi justamente nesse lugar magnífico que nasceu a primeira grande “heresia” europeia: o catarismo. 
Muitos livros já foram escritos sobre o tema: entretanto, é possível resumir a filosofia cátara em uma simples frase: o Universo foi criado pelo demônio. Toda esta beleza aparente é uma obra diabólica. 
Segundo a enciclopédia, eles eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material. Por causa disso, tinham voto de castidade, não pretendiam procriar e dar mais adeptos ao diabo. Chamavam a si mesmos de “perfeitos”, e estavam dispostos ao martírio para provar a importância de sua crença. O final simbólico do movimento, que desencadeou as primeiras cruzadas que se tem notícia, deu-se no dia 15 de março de 1244 na fortaleza de Montségur: depois de um prolongado sítio, onde lhes foi oferecido à conversão ao catolicismo ou à morte, aproximadamente 250 “perfeitos”, homens, mulheres e crianças, desceram a montanha cantando e se atiraram às chamas da fogueira acesa especialmente para isso. 
Durante muito tempo me interessei pelo catarismo. Em 1989, conheci Brida O’Fern (mais tarde, personagem de um livro meu) que tinha sido cátara em uma encarnação passada. No início daquele mesmo ano havia conhecido Mônica Antunes, na época apenas minha amiga, e hoje minha amiga e agente. 
Como eu precisava, por razões espirituais, fazer o caminho cátaro (uma trilha que liga os castelos/fortalezas dos “perfeitos”) convidei-a para participar de um trecho do percurso. 
Mônica e eu chegamos aos pés da montanha de Montségur em uma tarde de agosto. Tínhamos planejado subi-la no dia seguinte, e depois do jantar fomos conversar no lugar onde a tal fogueira havia sido acesa, quase 800 anos antes (um insignificante monumento marca o local). O tempo estava fechado, nuvens tão baixas que não conseguíamos nem mesmo ver as ruínas no alto da gigantesca rocha. Apenas para provocar Mônica, disse que talvez fosse interessante subir naquela mesma noite. Ela disse que não, e eu fiquei aliviado: imagine se tivesse dito que sim? 
Neste momento, para um carro, da mesma marca e da mesma cor que o meu. Desce um irlandês, e pergunta – como se fôssemos da região – por onde se pode escalar a rocha. Sugiro que faça isso conosco no dia seguinte, mas ele está decidido a subir naquela mesma noite: pretende ver o nascer do sol lá em cima, diz que talvez tenha sido cátaro em uma vida passada. Será que poderíamos lhe emprestar uma lanterna?
E tudo parece se encaixar: Brida, a obrigação de fazer o caminho cátaro, a brincadeira minutos antes com Mônica, e agora aquele sujeito ali, com um carro igual ao meu. É um sinal. Vou até o hotel na aldeia onde estamos hospedados, e consigo uma lanterna – a única que existe. 
Mônica parece assustada, mas eu afirmo que devemos seguir adiante. Sinais são os sinais, digo. O recém-chegado pergunta onde está o caminho. Não importa, respondo, basta subir. O caminho é para cima. 
E durante um tempo que não consigo me lembrar, nós três escalamos à noite uma montanha que não conhecíamos, e que a névoa só permitia ver alguns palmos adiante. Finalmente, cruzamos as nuvens, o céu se enche de estrelas, a lua está cheia, e diante de nós, a porta da fortaleza de Montségur.
Entramos, contemplamos as ruínas. Eu olho a beleza do firmamento, me pergunto como chegamos ali sem qualquer acidente, mas acho melhor parar com perguntas e apenas admirar o milagre. Os cátaros contemplavam este mesmo céu, e mesmo assim achavam que todas estas estrelas eram obra do demônio. Jamais compreenderei os cátaros, embora respeite a integridade como se dedicavam à sua fé. 
Voltei a Montségur e subi a montanha outras vezes, mas nunca mais consegui encontrar o caminho que usamos naquela noite de agosto de 1989. 
Mistérios existem. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A natureza como fonte inspiradora


O grito no vale
llO homem resolveu partir em busca de Deus. E foi atrás dos mestres, que diziam conhecer profundamente as razões pelas quais o Universo havia sido criado, e prometiam explicar o que Deus queria da humanidade.
- Mas quem lhes ensinou isso? - perguntava aos mestres - Foi o próprio Deus?
Os mestres diziam muitas palavras bonitas, mas não conseguiam definir exatamente quem os ensinara tudo que pregavam aos quatro ventos. Portanto, depois de alguns dias de aprendizado aqui e acolá, o homem sempre seguia adiante. 
Em suas andanças, terminou conhecendo um vale, onde camponeses afirmavam que, em uma montanha próxima, Deus falava com quem se aproximasse. 
E o homem foi para a montanha. Esperou durante três dias, jejuando e rezando, mas Deus não se aproximou. No quarto dia, já desesperado, ele gritou:
- Onde estás?
O eco respondeu:
- Onde estás?
E, a partir daquele instante, o homem compreendeu que Deus fazia a mesma pergunta, e que também lhe buscava. 

A cultura e a contemplação 
A tradição sufi nos conta a história de um filósofo que cruzava um rio em um barco.  Durante a travessia, procurava mostrar sua sabedoria ao barqueiro.
- Você conhece os textos de Horbiger?  
- Não - respondeu o barqueiro. - Mas conheço o que a natureza me ensinou para desempenhar bem o meu trabalho. 
- Pois saiba que perdeu metade de sua vida! 
No meio do rio, o barco bateu numa pedra, e naufragou. O bar¬queiro nadava para uma das margens, quando viu o filósofo se afogando. 
- Não sei nadar! - gritou ele desesperado. - Eu lhe disse que havia perdido metade de sua vida por não conhecer Horbiger, e agora perco a minha vida inteira por não entender coisas tão simples como as correntezas de um rio!

O dia e a noite 
O mestre reuniu seus discípulos e perguntou como era possível saber a hora exata em que a noite terminava.
- Quando podemos ver o primeiro brilho do sol – responderam todos.
- Nada disso. A noite termina quando podemos olhar no rosto de nosso irmão e ver que ele é o nosso próximo. Quando podemos nos levantar da cama sem nenhum remorso do que fizemos no dia anterior. Quando podemos dizer a nós mesmos que, custe o que custar estaremos sempre agindo de acordo com a vontade de Deus.
- Enquanto não pudermos fazer isto, continuará sendo noite - mesmo que o sol esteja brilhando lá fora. 

Zhuan Ziu fala da natureza
Quando o inverno chega, as árvores devem suspirar de tristeza ao ver suas folhas caírem. 
Dizem: "jamais seremos como antes".
Claro.  Ou então, qual o sentido de renovar-se? As próximas folhas terão sua personalidade própria, pertencem a um novo verão que se aproxima, e que nunca poderá ser igual ao que passou. 
Viver é mudar – e as estações nos repetem esta mesma lição todos os anos. Mudar significa passar por um período de depressão: ainda não conhecemos o novo, e temos que esquecer tudo aquilo com o que estávamos habituados. Mas, se temos um pouco de paciência, a primavera termina chegando, e esquecemos o inverno de nossas desesperanças.
Mudança e renovação são leis da vida. É bom acostumar-se com elas, e não sofrer com coisas que só existem para nos trazer alegrias. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hagakure e o caminho do samurai


llYamamoto Tsunetomo (1659 – 1719), depois de servir durante muitos anos como samurai, resolveu narrar tudo aquilo que aprendeu para Tsuramoto Tashiro, um de seus discípulos. O resultado destas conversas transformou-se no livro “Hagakure”(Escondido atrás da folhagem), que conseguiu resistir à passagem do tempo, e ainda hoje é atual. 
Relendo o texto, me dei conta que grande parte dos ensinamentos ali contidos podem ser aplicados à nossa vida diária. Um samurai, como sabemos, era um guerreiro com um código de conduta (conhecido como bushido), baseado em três pontos importantes:
A] disciplina 
0B] ética
C] coragem 
Elementos esses que deviam estar presentes em cada uma das decisões que tomamos. Assim, ao procurar um sentido em nossa peregrinação sobre a face da Terra, entenderíamos que: 
A] só é possível atingir um sonho quando se tem a vontade necessária para tanto. Não basta entusiasmo, paixão, desejo – é preciso força e concentração também. 
B] quando vamos em busca de algo que tem um verdadeiro significado em nossa existência, não existe necessidade de ferir ou pisar as outras pessoas. Ao contrário, quanto mais respeitamos o caminho alheio, mais aliados encontramos em nosso caminho, e mais respeito teremos em troca. 
C] além da disciplina e da ética, é necessário entender que, apesar do medo, precisamos seguir adiante. Coragem não significa ausência de temores – mas a capacidade de não se deixar paralisar por eles. 
Como já disse em outras colunas, todos nós vamos morrer um dia. Ao tomarmos consciência disso, devíamos nos entregar com muito mais alegria à vida, fazendo coisas que sempre adiamos, respeitando os minutos preciosos que estão passando e não voltarão jamais, desvendando e descobrindo horizontes que podem ser interessantes ou decepcionantes, mas que merecem pelo menos um pouco de esforço de nossa parte.
É normal que procuremos evitar a morte. Não apenas é normal, como é a atitude mais saudável que podemos ter. Entretanto, é uma aberração negá-la, já que sua consciência nos dá muito mais coragem. Se eu fosse morrer hoje, o que gostaria de fazer que não fiz? Este é o meu pensamento todas as manhãs. Aprendi, no caminho de Santiago, que o Anjo da Morte é o meu melhor conselheiro. 
Yamamoto Tsunetomo diz em determinado momento a seu discípulo: “todos nós queremos viver, e isso é absolutamente natural. Entretanto, desde crianças, devíamos também aprender a escolher nossa melhor maneira de morrer. Se não fazemos isso, terminamos gastando nossos dias como um cão, apenas em busca de abrigo, comida, dando em troca uma lealdade cega ao seu dono, de modo a justificar o teto e a alimentação. Isso não basta para fazer com que nossas vidas tenham um sentido”.
Não adianta tentar criar um mundo aparentemente seguro, e nada melhor para explicar isso do que uma pequena história de John O’Hara:
Um homem vai ao mercado comprar frutas, quando vê sua Morte caminhando entre as pessoas. Desesperado, volta correndo, e pede ao patrão para dispensá-lo aquele dia, já que viu sua Morte de perto. 
O patrão deixa que retorne à sua aldeia, mas começa a pensar que talvez tudo aquilo seja uma mentira. Resolve ir até o mercado – e realmente vê a Morte do seu empregado sentada em um banco. Reclama:
- Mas o que você está fazendo aqui? Meu servo ficou surpreso ao encontrá-la, e por causa disso precisei dispensá-lo hoje do trabalho! 
- Eu também fiquei surpresa ao vê-lo aqui – responde a Morte. – Tenho um encontro marcado com ele às cinco horas desta tarde, em sua aldeia, e pelo visto ele irá escapar de mim. 
O patrão pensa em voltar correndo, chamar o empregado, mas já é tarde. 
O destino irá se cumprir exatamente como tinha sido escrito – sobretudo, porque o homem teve medo da Morte, e resolveu sair correndo.