quinta-feira, 28 de julho de 2011

O mal quer que o bem seja feito

Conta o poeta persa Rumi que Mo'avia, o primeiro califa da linhagem de Ommiad, que estava um dia dormindo em seu palácio, quando foi despertado por um estranho homem. 
- Quem é você? – perguntou.
- Sou Lúcifer – foi a resposta. 
- E o que deseja aqui?
- Já está na hora de sua prece, e você continua dormindo. 
Mo’avia ficou impressionado. Como é que o príncipe das trevas, aquele que deseja sempre a alma dos homens de pouca fé, estava procurando ajudá-lo a cumprir um dever religioso? 
Mas Lúcifer explicou:
- Lembre-se que eu fui criado como um anjo de luz. Apesar de tudo que aconteceu na minha existência, não posso esquecer minha origem. Um homem pode viajar para Roma ou Jerusalém, mas sempre carrega em seu coração os valores de sua pátria: o mesmo acontece comigo. Ainda amo o Criador, que me alimentou quando era jovem, e me ensinou a fazer o bem. Quando me revoltei contra Ele, não foi porque não o amasse – muito pelo contrário, eu o amava tanto que tive ciúme quando criou Adão.  Naquele momento, eu quis desafiar o Senhor, e isso me arruinou; mesmo assim, ainda me lembro das bênçãos que me foram dadas um dia, e talvez agindo bem eu possa retornar ao Paraíso. 
Mo'avia respondeu: 
- Não posso acreditar no que me diz. Você foi responsável pela destruição de muita gente na face da terra.
- Pois acredite - insistiu Lúcifer. – Só Deus pode construir e destruir, porque é Todo-Poderoso. Foi Ele, ao criar o homem, que colocou nos atributos da vida o desejo, a vingança, a compaixão e o medo. Portanto, quando olhar o mal à sua volta, não me culpe, porque eu sou apenas o espelho daquilo que acontece de ruim. 
Sabendo que alguma coisa estava errada, Mo’avia começou a rezar desesperadamente para que Deus o iluminasse. Passou a noite inteira conversando e discutindo com Lúcifer, e apesar dos argumentos brilhantes que ouvia, não se deixava convencer. 
Quando o dia já estava amanhecendo, Lúcifer finalmente cedeu, explicando:
- Está bem, você tem razão. Quando esta tarde cheguei para despertá-lo de modo a não perder a hora da prece, minha intenção não era aproximá-lo da Luz Divina.
“Eu sabia que, deixando de cumprir sua obrigação, você sentiria uma profunda tristeza, e durante os próximos dias iria rezar com o dobro de fé, pedindo perdão por ter esquecido o ritual correto. Aos olhos de Deus, cada uma destas rezas feitas com amor e arrependimento, valeriam o equivalente a duzentas orações feitas de maneira automática e ordinária. Você terminaria mais purificado e inspirado, Deus o amaria mais, e eu estaria mais longe de sua alma”.
Lúcifer desapareceu, e um anjo de luz entrou logo em seguida:
- Nunca se esqueça da lição de hoje – disse para Mo’avia. – Às vezes o mal se disfarça em emissário do bem, mas sua intenção escondida é provocar mais destruição. 
Naquele dia, e nos dias seguintes, Mo’avia orou com arrependimento, compaixão e fé. Suas preces foram ouvidas mil vezes por Deus. 
Reflexão:
Inspirada em Mahatma Gandhi:
“Um NÃO pronunciado com convicção profunda, é muito mais importante que um SIM dito para agradar, ser simpático, ou – o que é pior – evitar problemas que fazem parte do seu caminho, e precisam ser resolvidos”.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Como um dos livros mais importantes do mundo foi escrito

No 23ºano do reinado de Zhao, Lao Tsu percebeu que a guerra terminaria por destruir o lugar onde vivia. Como havia passado anos meditando sobre a essência da vida, tinha pleno conhecimento que, em certos momentos, é preciso ser prático.   
Resolveu tomar a  decisão  mais simples:  mudar-se.  
Pegou  os seus poucos  pertences,  e  seguiu  em direção  a  Han Keou; na porta de saída da cidade,  encontrou  um guarda.
- Onde está indo tão importante sábio? – perguntou o guarda.
- Para longe da guerra. 
- Não pode partir assim. Eu gostaria muito de saber o que foi que aprendeu em tantos anos de meditação. Só o deixarei partir se dividir comigo o que sabe. 
Apenas para se livrar do guarda, Lao  Tsu   escreveu ali mesmo um pequeno  livrinho,  cuja  única cópia lhe entregou. Depois, continuou sua viagem, e nunca mais se ouviu falar dele.
O texto de Lao Tsu foi copiado e recopiado, atravessou séculos, atravessou milênios, e chegou até o nosso tempo. Chama-se "Tao Te King",  está publicado em português por várias editoras, e é uma leitura imperdível. 
A seguir, alguns trechos:
Aquele que conhece os outros é sábio.
Aquele que conhece a si mesmo é iluminado.
Aquele que vence os outros é forte.
Aquele que vence a si mesmo é poderoso.
Aquele que conhece a alegria é rico.
Aquele que conserva seu caminho tem vontade.
Seja humilde, e permanecerás íntegro.
Curva-te, e permanecerás ereto.
Esvazia-te, e permanecerás repleto.
Gasta-te, e permanecerás novo.
O sábio não se exibe, e por isso brilha.
Ele não se faz notar, e por isso é notado.
Ele não se elogia, e por isso tem mérito.
E porque não está competindo, ninguém no mundo pode competir com ele.
Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente. 
Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao.
Mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas. 
O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Mais dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pode ler o Tao Te King. 
Dizem os sábios que na verdade este monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Da importância do diploma

O meu antigo moinho, na pequena aldeia dos Pirineus, tem uma fileira de árvores que o separa da fazenda ao lado. Outro dia, o vizinho apareceu: devia ter aproximadamente setenta anos. Volta e meia eu o via trabalhando com sua mulher na lavoura, e pensava que já era hora de descansarem.  
O vizinho, embora muito simpático, diz que as folhas secas de minhas árvores caíam em seu telhado, e que eu precisava cortá-las. 
Fiquei muito chocado: como é que uma pessoa que passou sua vida inteira em contacto com a natureza quer que eu destrua algo que custou tanto para crescer, simplesmente porque, em dez anos, isso pode causar um problema nas telhas? 
Convido-o para um café. Digo que me responsabilizo, que se algum dia estas folhas secas (que serão varridas pelo vento e pelo verão) provocarem qualquer dano, eu me encarrego de mandar construir um novo teto. O vizinho diz que isso não interessa: ele quer que corte as árvores. Eu me irrito um pouco: digo que prefiro comprar a fazenda dele. 
- Minha terra não está à venda - responde. 
- Mas com esse dinheiro você poderia comprar uma excelente casa na cidade, viver ali pelo resto de seus dias com sua mulher, sem enfrentar invernos rigorosos e colheitas perdidas.
- A fazenda não está à venda. Nasci, cresci aqui, e estou muito velho para mudar. 
Ele sugere que um perito da cidade venha, avalie o caso, e decida – assim nenhum de nós precisa se irritar com o outro. Afinal de contas, somos vizinhos. 
Quando sai, minha primeira reação é culpá-lo de insensibilidade e desrespeito com a Mãe Terra. Depois, fico intrigado: por que não aceitou vender a terra? E antes que o dia termine, entendo que sua vida tem apenas uma história, e meu vizinho não quer mudá-la. Ir para a cidade significa também mergulhar em um mundo desconhecido, com outros valores, que talvez se julgue muito velho para aprender. 
Acontece apenas com meu vizinho? Não. Acho que acontece com todo mundo, – às vezes estamos tão apegados à nossa maneira de vida, que recusamos uma grande oportunidade porque não sabemos como utilizá-la. No caso dele, sua fazenda e sua aldeia são os únicos lugares que conhece, e não vale a pena arriscar. No caso das pessoas que vivem na cidade, elas acreditam que é preciso ter um diploma de universidade, casar, ter filhos, fazer com que seu filho tenha também um diploma, e daí por diante. Ninguém se pergunta: “será que posso fazer algo diferente?” 
Lembro-me que meu barbeiro trabalhava dia e noite para que sua filha pudesse acabar o curso de sociologia. Ela conseguiu terminar a faculdade, e depois de bater em muitas portas, conseguiu trabalhar como secretária em uma firma de cimento. Mesmo assim, meu barbeiro dizia orgulhoso: “minha filha tem um diploma.”
A maioria de meus amigos, e dos filhos dos meus amigos, também tem um diploma. Isso não significa que conseguiram trabalhar no que desejavam – muito pelo contrário, entraram e saíram de uma universidade porque alguém, em uma época em que as universidades eram importantes, dizia que uma pessoa para subir na vida precisava ter um diploma. E assim o mundo deixou de ter excelentes jardineiros, padeiros, antiquários, escultores, escritores. Talvez seja a hora de rever um pouco isso: médicos, engenheiros, cientistas, advogados, precisam fazer um curso superior. 
Mas será que todo mundo precisa? Deixo que os versos de Robert Frost dêem a resposta:
“Diante de mim havia duas estradas
Eu escolhi a estrada menos percorrida 
E isso fez toda a diferença”.
P.S. – para terminar a história do vizinho: o perito veio e, para minha surpresa, mostrou uma lei francesa que obriga qualquer árvore a estar a um mínimo de três metros da propriedade alheia. As minhas estavam a dois metros, e terei que cortá-las. 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Da alma e do coração

Do excelente livro “Histórias da Alma, Histórias do Coração” (Christina Feldman e Jack Kornfield, Ed. Pioneira), tiramos algumas histórias para esta e outras colunas. Aqui vão algumas delas:

Estou de passagem
No século passado, um turista americano foi ao Cairo visitar o famoso rabino polonês Hafez Ayim. O turista ficou surpreso ao ver que o rabino morava num quarto simples, cheio de livros, onde as únicas peças de mobília eram uma mesa e um banco. 
- Rabi, onde estão seus móveis? – perguntou o turista. 
- E onde estão os seus? – retorquiu Hafez. 
- Os meus? Mas eu só estou aqui de passagem!
- Eu também – disse o rabino. 

Convencer os outros
Um profeta chegou certa vez a uma cidade para converter seus habitantes. 
A princípio, as pessoas ficaram entusiasmadas com o que ouviam. Mas -  pouco a pouco -  a rotina da vida espiritual era tão difícil, que homens e mulheres se afastaram, até que não ficou uma só alma para ouvi-lo. 
Um viajante, ao ver o profeta pregando sozinho, perguntou:
- Por que continuas exaltando as virtudes e condenando os vícios? Não vês que ninguém aqui te escuta?
- No começo, eu esperava transformar as pessoas – disse o profeta. – Se ainda hoje continuo pregando, é apenas para impedir que as pessoas me transformem. 

Depois da morte
O imperador mandou chamar o mestre zen Gudo à sua presença. 
- Gudo, ouvi falar que você é um homem que tudo compreende – disse o imperador. – Eu gostaria de saber o que acontece com o homem iluminado e com o pecador, depois que ambos morrem?
- Como vou saber? – respondeu Gudo. 
- Mas, afinal de contas, você não é um mestre iluminado?
- Sim, senhor. Mas não um mestre morto!

A reflexão
O padre Alan Jones diz que, para a construção de nossa alma, precisamos das Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo.
É necessário amar, porque somos amados por Deus. É necessária a consciência da morte, para entender bem a vida. É necessário lutar para crescer – sem deixar-se seduzir pelo poder que conseguimos com isto, pois sabemos que ele não vale nada. Finalmente, é necessário aceitar que nossa alma - embora seja eterna - está neste momento presa na teia do tempo, com suas oportunidades e limitações; assim, temos que agir como se o tempo existisse, fazer o possível para valorizar cada segundo.
Estas Quatro Forças não podem ser tratadas como problemas a serem resolvidos, porque são muito mais importantes que isto - e estão além de qualquer controle. Precisamos aceitá-las, e deixar que nos ensinem o que precisamos aprender.