quinta-feira, 21 de junho de 2012

Dos bastões e das regras


llNo outono de 2003, estava passeando no meio da noite pelo centro de Estocolmo, quando vi uma senhora que caminhava usando bastões de esqui. Minha primeira reação foi atribuir aquilo a alguma lesão que tivesse sofrido, mas notei que ela andava rápido, com movimentos ritmados, como se estivesse em plena neve – só que tudo que havia a nossa volta era o asfalto das ruas. A conclusão óbvia foi: “esta senhora é louca, como pode fingir que está esquiando em uma cidade?”
De volta ao hotel, comentei o fato com meu editor, e ele disse que louco era eu: o que eu vira era um tipo de exercício conhecido como “caminhada nórdica” (nordic walking). Segundo ele, além dos movimentos das pernas, os braços, os ombros, os músculos das costas são utilizados, permitindo um exercício muito mais completo. 
Minha intenção ao caminhar (que, junto com o tiro com arco e flecha, são meus passatempos favoritos), é poder refletir, pensar, olhar as maravilhas ao meu redor, conversar com minha mulher enquanto passeamos. Achei interessante o comentário de meu editor, mas não dei maior atenção ao fato. 
Certo dia estava em uma loja de esportes para comprar material para as flechas, quando notei novos bastões usados por montanhistas – leves, em alumínio, que podem ser abertos ou fechados, usando o sistema telescópico de um tripé fotográfico. Lembrei-me da tal “caminhada nórdica”: por que não experimentar? Comprei dois pares, para mim e para minha mulher. Regulamos os bastões para uma altura confortável, e no dia seguinte resolvemos utilizá-los. 
Foi uma descoberta fantástica! Subimos e descemos uma montanha, sentindo que na verdade todo o corpo se movimentava, o equilíbrio era melhor, o cansaço era menor. Andamos o dobro da distância que sempre cobrimos em uma hora. Lembrei-me de que certa vez tentara explorar um riacho seco, mas as dificuldades com as pedras em seu leito eram tão grandes, que desisti da ideia. Achei que com os bastões seria bem mais fácil; e estava certo. 
Minha mulher entrou na internet, e descobriu: queimava 46% mais calorias que uma caminhada normal. Ficou entusiasmadíssima, e a “caminhada nórdica” passou a fazer parte do nosso cotidiano. 
Certa tarde, para distrair-me, resolvi também entrar na internet e ver o que tinham sobre o assunto. Levei um susto: eram páginas e mais páginas, federações, grupos, discussões, modelos, e regras. 
Não sei o que me empurrou para abrir uma página sobre as regras. Enquanto lia, ia ficando horrorizado: eu estava fazendo tudo errado! Os meus bastões deviam ser regulados em uma altura maior, tinham que obedecer determinado ritmo, determinado ângulo de apoio, o movimento do ombro era complicado, existia uma maneira diferente de usar o cotovelo, tudo seguia preceitos rígidos, técnicos, exatos. 
Imprimi todas as páginas. No dia seguinte – e nos que se seguiram – tentei fazer exatamente aquilo que os especialistas mandavam. A caminhada começou a perder o interesse, eu já não via as maravilhas à minha volta, pouco conversava com minha mulher, não conseguia pensar em nada além das regras. No final de uma semana, me fiz uma pergunta: por que estou aprendendo tudo isso?
Meu objetivo não é fazer ginástica. Não creio que as pessoas, ao fazerem sua “caminhada nórdica” no início, estejam pensando em nada além do prazer de andar, aumentar o equilíbrio, e movimentar o corpo inteiro. Intuitivamente sabíamos qual era a altura ideal do bastão, como também intuitivamente podíamos deduzir que quanto mais perto eles estivessem do corpo, melhor e mais fácil o movimento. Mas agora, por causa das regras, eu tinha deixado de me concentrar nas coisas que gosto, e estava mais preocupado em perder calorias, mover os músculos, usar certa parte da coluna. 
Decidi esquecer tudo que tinha aprendido. Hoje em dia caminhamos com nossos dois bastões, desfrutando o mundo ao redor, sentindo a alegria de ver o corpo sendo exigido, movido, equilibrado. E se eu quiser fazer ginástica ao invés de uma “meditação em movimento” procurarei uma academia. No momento, estou satisfeito com minha “caminhada nórdica” relaxada, instintiva, mesmo que talvez eu não esteja perdendo 46% de calorias a mais. 
Não sei por que o ser humano tem esta mania de colocar regras em tudo. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Histórias de antepassados


llA arca
Depois de quarenta dias de dilúvio, Noé pôde sair da arca.  Desceu cheio de esperança, mas o que encontrou do lado de fora foi apenas a destruição e a morte.  
Noé clamou:
“Deus Todo Poderoso, se Tu conhecias o futuro, por que criastes o homem? Só para Ter o prazer de castigá-lo?”
Um perfume triplo subiu até os céus: o incenso, o aroma das lágrimas de Noé, e o perfume de suas ações.  Então Deus respondeu: 
“As preces de um homem justo sempre são ouvidas. Vou te dizer porque fiz isto: para que entendesses tua obra. Tu e teus descendentes estareis sempre reconstruindo um mundo que veio do nada – e desta maneira dividiremos o trabalho e as consequências. Agora somos todos responsáveis”.

llA riqueza
Zilu perguntou: “quando devo colocar em prática as coisas que aprendi?”
Confúcio respondeu: “ainda estou lhe ensinando. Por que esta impaciência de colocar algo em prática? Espere a hora certa”.
No momento seguinte, Gongchi perguntou: “quando devo colocar em prática as coisas que aprendi?”
“Imediatamente”, respondeu Confúcio.
“Mestre, o senhor não age com justiça”, reclamou Zilu.  “Congchi sabe tanto quanto eu, e o senhor não o proibiu de agir”.
“Um bom pai conhece a essência de seus filhos”, disse Confúcio. “Ele freia aquele que é ousado demais, e empurra o que não sabe andar com as próprias pernas”.

llO poder
Um rei querendo agradar seus súditos mais leais, anunciou que satisfaria o desejo de cada um. Alguns pediram honras, outros pediram poderes ou riquezas. Mas o mais sábio entre eles, disse: “quero conversar com o rei três vezes por dia”.
Desta maneira, ao invés de concentrar-se num capricho imediato, este súdito conseguiu abrir uma estrada sólida para que seus verdadeiros desejos fossem atendidos.

llO amor
Um peregrino chegou até a aldeia onde vivia Abu Yazid al-Bistrami.
“Ensine-me a maneira mais rápida de chegar até Deus”, pediu.
Al-Bistrami respondeu: “amá-lo com todas as tuas forças”.
“Isto eu já faço”.
“Então precisas ser amado pelos outros”.
“Mas por quê?” 
“Porque Deus olha o coração de todos os homens. Quando visitar o teu, certamente irá ver seu amor por Ele, e ficará contente. Entretanto, se Ele encontrar – também no coração de outras pessoas – o teu nome escrito com carinho, na certa irá prestar muito mais atenção em ti”.