quinta-feira, 26 de abril de 2012

As crises e as suas armadilhas – final


llNa semana passada, escrevi aqui sobre o que acontece quando subestimamos os sinais que os problemas nos dão antes de atingirem, com toda violência, o nosso quintal. Usei, como fio condutor, o livro “A Síndrome da Aquiles”, do jornalista Mario Rosa, mostrando que em uma situação crítica, a luta com o inimigo nem sempre pode se basear nos valores que estamos acostumados a cultivar. Hoje, termino este assunto, com a opinião de outros estudiosos (Helio Fred Garcia, Professor de Comunicação da Universidade de New York, e Daí Williams, do Eos Career Service, e um texto da University of South Austrália). Procurei usar os textos destes especialistas sob o ponto de vista da crise individual, embora a maior parte se refira a eventos políticos e econômicos.
Uma vez que a crise se instala, eis as piores maneiras de reagir:
A] Ignorar o problema. Maria sabe que João, seu marido, está prestes a ser despedido do trabalho, o que irá colocar em dificuldades a sobrevivência da família. Entretanto, como João não toca no assunto, ela finge que não se dá conta.
B] Negar o problema. João, por seu lado, acha que com os contatos que fez durante a vida, conseguirá uma nova oportunidade, e, portanto não vê que está em uma situação difícil. Esquece uma das leis mais duras da vida, já  enunciada por Jesus: “aos que pouco tem, o pouco que tem lhes será tirado”. No momento em que perder o emprego, todos estes contatos desaparecerão também, porque João nada mais terá a oferecer em troca.
C] Recusar-se a pedir ajuda. João e Maria passaram muitos anos juntos, e se conhecem muitíssimo bem. João está com a cabeça cheia de problemas, já que a crise absorve todas as energias do ser humano. Maria talvez pudesse auxiliá-lo – mas o orgulho não o deixa compartilhar suas dificuldades. O resultado é que, incapaz de pensar com lucidez, João afunda-se cada vez mais no oceano de suas dificuldades. 
D] Mentir ou dizer meias-verdades. Maria um dia toma coragem e, na hora de dormir, pergunta se algo está errado. João responde: “estou pensando em mudar de emprego”. Claro que, do ponto de vista jurídico, isso pode ser considerado verdade – João, como está prestes a ser despedido, vive realmente pensando em achar um novo emprego. Maria não diz mais nada. A pressão na cabeça de João aumenta, porque ele desconfia que sua mulher sabe alguma coisa, mas agora que já mentiu, não tem mais como usar a verdade como instrumento salvador. 
E] Culpar os outros. João sabe que é um homem de bem, que sempre foi honesto no trabalho, e procurou dar o melhor de si mesmo. Pensa que seu patrão é injusto, que não merece o que está acontecendo. O fato é que talvez o chefe esteja vivendo o mesmo drama, pois todos são guiados por entidades abstratas chamadas de “empresas”. Mesmo assim, diante do que considera um absurdo, ao invés de ficar com a cabeça fria para enfrentar o momento, ele acha que o mundo é feito de gente malvada e cruel. 
F] Superestimar a própria capacidade: João começa a dizer como tem talento, como é capaz de fazer isso e aquilo, e termina se convencendo que não está diante de uma crise, e sim diante de uma oportunidade nova. João tem muito talento, mas isso não basta, porque não está preparado para o golpe, que tira seu fôlego e seu entusiasmo. 
Uma vez que todos os passos errados foram dados, chega o dia e João é mandando embora. A partir daí, a família já está diante do abismo, por causa do precioso tempo perdido negando uma fatalidade. 
Então, o que fazer? Bem, eu já estive em muitas crises em minha vida, e penso que já cometi todos os erros acima descritos. Até que, talvez na pior de todas as minhas crises, apareceram amigos. Desde então, a primeira coisa que faço é, simplesmente, pedir ajuda. Claro que a decisão final será de minha total responsabilidade, mas ao invés de sempre ficar procurando bancar o forte, jamais me arrependi de ter me mostrado vulnerável à minha mulher e meus amigos. E quando comecei a agir assim, diminuí bastante minha capacidade de errar, embora ela continue ali, sempre esperando para dar o seu bote.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

As crises e as suas armadilhas – I

llComo todos sabemos, Aquiles era filho da união de um mortal com uma deusa. Como toda mãe sempre quer proteger o filho de todos os perigos, ela mergulhou-o em um rio cujas águas o fariam imortal, mas segurou-o pelo calcanhar, razão pela qual ele ficou vulnerável naquele ponto (há versões do mito onde o herói foi mergulhado em sangue de dragão, e uma folha estava grudada em seu calcanhar). Daí a expressão "calcanhar de Aquiles", mostrando que independente da força que possamos acreditar que temos, sempre existe uma maneira de nos atingir. Claro que o herói, neste caso, morre com uma flecha que atinge exatamente o seu ponto fraco. 
No ano de 2001 li  “A Síndrome de Aquiles”, do jornalista Mario Rosa.       O livro trata de algo mais atual que nunca: a crise. 
No texto, Rosa manda o alerta: “a crise dá sinais”. 
Desde que li esta frase, passei a notar que, antes que certas tempestades invadam o nosso quintal, elas enviam pequenas mensagens, que ignoramos por preguiça ou por achar que não mereciam nossa atenção. Justamente por causa disso, no momento que o vento começa a soprar com toda violência,  estamos absolutamente despreparados para os trovões que começam a pipocar por todos os lados, e só nos resta, como diz Rosa, procurar administrar da melhor maneira possível a devastação que se seguirá. Tomei a liberdade de usar o seu livro como guia para tentar traçar um mapa de nossas tempestades pessoais. 
Origem: a crise vem sempre do exterior, mesmo quando achamos que ela às vezes se manifesta apenas em nossas almas. Geralmente algo insignificante acontecido na infância, pode trazer grandes consequências na idade madura.
A crise chega para destruir: por mais que procuremos, romanticamente, associar a palavra “crise” à palavra “oportunidade” (como fazem os chineses), essa associação só é possível quando estamos preparados para o imprevisto. Como raramente é o caso, a crise se instala e começa a arrasar tudo à nossa volta. 
A verdade não ajuda: durante a publicação do meu livro, “O Zahir”, uma estilista russa disse, no jornal de maior circulação de Moscou,  que a história era baseada em nosso “caso amoroso” (a musa inspiradora era, na verdade, Christina Lamb, correspondente de guerra do jornal inglês Sunday Times). Fiz a bobagem de enviar uma carta desmentindo. Resultado prático: quem não tinha lido a matéria original, ficou sabendo por causa da carta. E logo começaram especulações a respeito de como os homens, quando encurralados, sempre alegam inocência. 
O problema, por menor que seja, pode criar uma crise gigante: no Brasil, um caso de suborno de um diretor de Correios, desenrolou uma série de denúncias que afetaram vários escalões do governo. Em um casamento, um simples atraso na volta do trabalho, pode ser a gota d’água de todo um processo reprimido, que depois fica difícil conter. 
Os fatos não contam, o que conta é como a opinião pública percebe os fatos: tenho uma amiga cujo pai odeia a mãe, vivem sempre passando dificuldades, todos em casa brigam como cão e gato – mas sempre em voz baixa. Enquanto a moça tiver ótimas notas na escola, enquanto os vizinhos não souberem de nada, enquanto a “opinião pública” não for esclarecida, a impressão será de que o mundo está sob controle. 
Tudo se transforma em munição devastadora: como a crise sempre implica em um diálogo de surdos, onde um não ouve o que o outro está dizendo, os argumentos se tornam inúteis. Se você disser “eu adoro laranjas”, a pessoa irá entender que você detesta batatas, e está insinuando que é infeliz porque justamente naquela noite lhe foi servido um prato de fritas no jantar. 
A crise sempre envolve um símbolo: pode ser uma instituição como o casamento, a carreira profissional, a empresa, a religião, o amor,  o código de conduta. 
Na semana que vem, termino este artigo, analisando as possíveis atitudes diante da tempestade que, Rosa menciona em seu livro, não é tão repentina assim.      Afinal de contas, também nossas almas têm um serviço de meteorologia, e basta não subestimar coisas aparentemente inofensivas para evitar uma montanha de desgastes pessoais e profissionais. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Joseph Campbell e a arte de viver

llDesde que li “O Poder do Mito”, na verdade uma longa entrevista com o jornalista Bill Moyers, passei a comprar e devorar todos os livros escritos por Joseph Campbell (1904 -1987). Lembro-me de ficar muito impressionado com uma de suas respostas: 
- Você sempre achou que... estava sendo guiado por mãos que não conseguia ver? – pergunta Moyers.
- Sempre – responde Campbell. -  Se você segue o seu sonho, se coloca em um caminho que foi feito sob medida para que possa desenvolver aquilo que sempre desejou fazer. A partir daí, começa a encontrar com gente que faz parte deste sonho, e as portas se abrem. 
E embora fascinado pelo autor, pouco sabia de sua vida, até que a jornalista  Ruth de Aquino me forneceu um interessante material a seu respeito, parte do qual reproduzo a seguir:  
“Quando você cursa uma faculdade, não faz aquilo que deseja, mas procura apenas saber o que é necessário para receber o diploma. E nem sempre esta é a melhor opção”. 
“No meu caso, recebi uma bolsa de estudos e fui cursar a Universidade de Paris. Ao chegar à Europa, descobri James Joyce, Picasso, Mondrian - toda aquela turma da arte moderna. Depois, fui até a Alemanha, comecei a estudar Sânscrito e me envolvi com o hinduísmo. Logo em seguida veio Jung; tudo estava se abrindo, por todos os lados”. 
Voltei à Universidade e disse: “Olha, não quero passar minha vida tentando aprender apenas aquilo que vocês querem me ensinar”. 
“Tinha feito todas as matérias necessárias para o título; só precisava redigir a maldita tese. Se não fizesse isso, não me deixariam prosseguir meus estudos e, portanto chegou a hora de dizer: vão para o inferno. 
“Mudei-me para o campo e passei cinco anos lendo. Nunca tirei meu título de doutorado. Aprendi a viver com o mínimo possível, isso me dava liberdade, e foi uma época maravilhosa”. 
“É preciso coragem para fazer aquilo que desejamos, já que as outras pessoas têm sempre um monte de planos para nós. Tendo consciência disso, decidi seguir o meu sonho: não sei como passei esses cinco anos, mas estava convencido de que ainda sobreviveria outros cinco, se fosse necessário”. 
“Lembro-me de uma ocasião em que tinha uma nota de um dólar na gaveta de uma cômoda, e eu sabia que enquanto ela estivesse ali, eu ainda contaria com meus recursos. Foi ótimo. Minha única responsabilidade era com minha própria vida e com minhas escolhas”. 
Na verdade, houve momentos em que pensei: “Caramba, gostaria que alguém me dissesse o que preciso fazer”. Ser livre implica escolher seu caminho, e cada passo pode alterar todo nosso destino – o que às vezes nos dá muito medo. Mas hoje, olhando para trás, vejo que os meus dias foram perfeitos: aquilo de que precisava apareceu justamente quando era necessário. Na época, tudo que eu precisava era ler durante cinco anos. Consegui, e isso foi fundamental para mim.
“Como diz Schopenhauer, quando você vê o que ultrapassou, tem a impressão de que seguiu um enredo já escrito. Entretanto, no momento da ação, parece que está perdido em uma tempestade: uma surpresa atrás da outra, e muitas vezes sem tempo para respirar – sendo obrigado a tomar decisões o tempo todo. Só mais tarde irá compreender que cada surpresa, cada decisão  fazia sentido”.
Joseph Campbell é mais uma prova de que, se estivermos seguindo nossos sonhos, as coisas virão no momento exato.  
Mesmo assim, nem sempre temos coragem de escolher nosso destino. Nestas horas, vale a pena lembrar uma frase que li em um bloco de anotações de um hotel em Londres: 
“A vida é aquilo que está acontecendo enquanto você está ocupado fazendo seus planos”. (John Lennon)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O cientista e o visionário

llOs dois são a mesma pessoa: Albert Einstein, capaz de enxergar muito além do seu tempo, desenvolver uma teoria que revolucionou o mundo e o pensamento filosófico. 
Por outro lado, era alguém que, mesmo sabendo que a maior parte dos fenômenos físicos pode ser explicada, entendeu que não podia compreender tudo. Deixou seu coração e sua mente abertos, reverenciando também as coisas que não podia colocar em equações matemáticas. Einstein não era um homem religioso no sentido tradicional, mas tinha um profundo respeito pela vida e pelo ser humano. No mundo de hoje, quando as pessoas têm explicações para tudo e ridicularizam qualquer tema que não se enquadre dentro do pequeno universo que criaram, vale a pena relembrar algumas das palavras do maior e mais importante cientista do século XX:
Nada acontece por acaso: “Deus não joga dados com o Universo”.
Os medíocres são sempre críticos: “Os espíritos generosos, porque buscam um caminho diferente e usam, com coragem e honestidade a inteligência, sempre encontraram uma oposição violenta das mentes medíocres. Mas, a imaginação é mais importante que a cultura, porque o homem que é apenas culto termina cheio de limites, enquanto a imaginação pode dar a volta ao mundo”.
Respeito ao mistério: “O sentimento mais importante e mais belo que o homem pode experimentar, é o seu respeito ao mistério; ele é a fonte de toda a arte e ciência. Quem não pode contemplar (o mundo) com espanto, está com seus olhos fechados”.
Ciência e religião: “Eu afirmo que a religiosidade cósmica é a mais forte e a mais poderosa de todas as ferramentas de pesquisa científica. Ciência sem religião é incompleta. A religião sem ciência é cega. Todas as religiões, artes, ou ciências, são frutos da mesma árvore,  cuja única aspiração é fazer a vida do homem mais digna: ou seja, permitir que o indivíduo se eleve além da simples existência física, e seja livre”.
 Deixe espaço ao improviso: “Se as leis da matemática querem ser à base da realidade, então elas não podem ser fixas. Se as leis da matemática são fixas, então elas não têm base na realidade. Se eu soubesse exatamente onde quero chegar, não poderia chamar isso de “pesquisa”, não é verdade?”
Dos constantes enganos a respeito da ciência: “O estudo científico não é nada mais do que um refinamento do que pensamos todos os dias”.
A intuição: “Não podemos permitir que a lógica seja nossa deusa: ela tem músculos poderosos, mas, lhe falta personalidade. A mente intuitiva é um presente sagrado, e lógica é uma serva fiel; infelizmente nós criamos uma sociedade que honra a serva fiel, e esquecemos o presente sagrado”.
Sobre sua maior descoberta (usando o bom humor): Às vezes fico pensando como é que cheguei à teoria da relatividade: acho que uma pessoa normal nunca pára de pensar em termos de espaço e tempo, mas, como o meu desenvolvimento intelectual foi lento, retardado, terminei pensando em tempo e espaço apenas quando já era quase adulto. Como poderia explicar minha teoria de maneira mais simples? Coloque sua mão em uma placa quente por um minuto, e isso vai lhe parecer uma hora. Sente-se ao lado de uma linda moça por uma hora, e isso vai lhe parecer um minuto – eis a teoria da relatividade”. 
A morte e o demônio (também usando o bom humor): “O mais tolo de todos os temores é o medo de morrer, já que com os mortos jamais ocorre qualquer tipo de acidente. E o pior castigo do demônio foi nos fazer pagar um preço alto por  tudo que existe de bom na vida: ou nossa saúde é afetada, ou torturamos nossa alma, ou terminamos engordando”.
Finalmente, algumas palavras sobre si mesmo: “Não é que eu seja mais inteligente ou esperto que os outros, minha qualidade é não abandonar rapidamente um problema. Quando examino minha maneira de pensar, chego à conclusão que o dom da imaginação sempre teve muito mais importância para mim que a capacidade de acumular informações; se eu não fosse físico, seria músico, porque penso como um compositor, olho minha vida como se fosse música. E no que diz respeito à minha vida pessoal, acho o vício silencioso muito mais interessante que virtude ostensiva”.