quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Complicações da busca


Nasrudin e ovo
Certa manhã, Nasrudin – o grande místico sufi que sempre fingia ser louco – colocou um ovo embrulhado em um lenço, foi para o meio da praça de sua cidade, e chamou aqueles que estavam ali.
- Hoje teremos um importante concurso! – disse – Quem descobrir o que está embrulhado neste lenço, eu dou de presente o ovo que está dentro!
As pessoas se olharam, intrigadas, e responderam:
- Como podemos saber? Ninguém aqui é capaz de fazer adivinhações!
Nasrudin insistiu:
- O que está neste lenço tem um centro que é amarelo como uma gema, cercado de um líquido da cor da clara, que por sua vez está contido dentro de uma casca que quebra facilmente. É um símbolo de fertilidade, e nos lembra dos pássaros que voam para seus ninhos. Então, quem pode me dizer o que está escondido?
Todos os habitantes pensavam que Nasrudin tinha em suas mãos um ovo, mas a resposta era tão óbvia, que ninguém resolveu passar vergonha diante dos outros.
E se não fosse um ovo, mas algo muito importante, produto da fértil imaginação mística dos sufis? Um centro amarelo podia significar algo do sol, o líquido ao redor talvez fosse um preparado alquímico. Não, aquele louco estava querendo fazer alguém de ridículo. 
Nasrudin perguntou mais duas vezes, e ninguém se arriscou a dizer algo impróprio.
Então ele abriu o lenço e mostrou a todos o ovo.
- Todos vocês sabiam a resposta – afirmou. – E ninguém ousou traduzí-la em palavras. 
“É assim a vida daqueles que não tem coragem de arriscar: as soluções nos são dadas generosamente por Deus, mas estas pessoas sempre procuram explicações mais complicadas, e terminam não fazendo nada.”

Deus e o amor do homem
Um homem chegou até o filósofo Ramanuja, e pediu:
- Mostre-me o caminho até Deus. 
- Você já se apaixonou por alguém? – perguntou Ramanuja.
- Apaixonar-me? O que o grande mestre quer dizer com isso? Eu prometi a mim mesmo jamais me aproximar de uma mulher, fujo delas como quem tenta escapar de uma doença. 
“Eu sequer as olho: quando passam, fecho os meus olhos.”
- Procure voltar ao seu passado, e tentar descobrir se nunca, em toda a sua vida, houve algum momento de paixão que deixasse seu corpo e seu espírito cheios de fogo. 
- Vim até aqui para aprender como rezar, e não como me apaixonar por uma mulher. Quero ser guiado até Deus, e o senhor fica insistindo em me conduzir até os prazeres do mundo? Não entendo o que deseja me ensinar. 
Ramanuja ficou em silêncio por alguns minutos, e finalmente disse:
- Não posso ajudá-lo. Se você ainda não teve uma experiência de amor, você nunca conseguirá experimentar a paz de uma oração. Portanto, volte para sua cidade, apaixone-se, e só me procure novamente quando sua alma estiver cheia de momentos felizes.
“Apenas uma pessoa que entende o amor, pode entender o significado da oração. Porque o amor por alguém é uma prece dirigida ao coração do Universo, uma prece que Deus colocou nas mãos de cada ser humano como um presente.”

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sobre o tempo e a sabedoria


Ajudando nos problemas
Pela manhã, o discípulo foi visitar seu mestre. 
- Tenho um importante problema para resolver – disse. 
- Gostaria que me ajudasse, porque tenho pressa.
- Como posso ajudá-lo? Eu posso saber como me comportar diante de determinado problema, mas esta é a minha maneira de agir. Se você está procurando crescer, observe os outros – mas jamais procure agir exatamente como eles. Cada pessoa tem um caminho diferente nesta vida. 
“Não nos transformamos em mestres porque sabemos repetir o que os mestres fazem, mas porque aprendemos a pensar por nós mesmos.  Descubra sua própria luz – ou passará o resto da vida sendo um pálido reflexo da luz alheia”.

A iluminação em sete dias
Um mestre zen dizia: 
- Buda afirmou aos seus discípulos: quem se esforça, pode alcançar a iluminação em sete dias. Se não  conseguir, com certeza alcançará em sete meses, ou em sete anos.
Entusiasmado, o jovem perguntou como conseguiria  chegar à sabedoria em sete dias. 
- Concentração – foi a resposta.
 O jovem começou a praticar - mas em dez minutos já  havia se distraído. Recomeçou, e de novo perdeu a concentração. 
Depois de uma semana, não havia conseguido nada de  concreto, mas estava mais atento a sua ansiedade e suas  fantasias. Aos poucos, foi prestando atenção em tudo que o distraía, e achou que não estava perdendo tempo, mas se acostumando consigo mesmo.  
Um belo dia, o rapaz decidiu que não era preciso chegar tão rápido a sua meta, já que o caminho estava lhe ensinando muitas coisas. 
E foi neste momento que se tornou um iluminado.

A história das duas rãs
Existem certas horas em que a paciência - por mais difícil que seja - é a única maneira de suportar determinados problemas. A famosa história a seguir ilustra bem a virtude de saber esperar:
Duas rãs caíram dentro de uma jarra de leite. Uma era grande e forte, mas impaciente - e confiando na sua forma física, lutou a noite inteira, debatendo-se para escapar. 
A outra rã era pequena e frágil. Como sabia que não teria energia para lutar contra seu destino, resolveu entregar-se. Com suas patas, fez apenas os movimentos necessários para manter-se na superfície, sabendo que cedo ou tarde iria morrer. 
“Quando não se pode fazer nada, nada se deve fazer” pensava ela. 
E assim as duas passaram a noite – uma na tentativa desesperada de salvar-se, a outra aceitando com tranquilidade à idéia da morte.
Exausta com o esforço, a rã maior não aguentou e morreu afogada. A outra rã conseguiu boiar a noite inteira - e quando, na manhã seguinte, resolveu entregar-se, reparou que  os movimentos de sua companheira haviam transformado o leite em manteiga. 
Tudo o que teve de fazer foi pular para fora da jarra.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Num bar em Buenos Aires


Estou com a escritora venezuelana Dulce Rojas, tomando um café em Buenos Aires; discutimos sobre a idéia da paz, que tem andado muito distante do coração humano. Dulce então me conta a seguinte história:
Um rei ofereceu um grande prêmio para o artista que melhor pudesse retratar a idéia da paz. Muitos pintores enviaram seus trabalhos ao palácio, mostrando bosques ao entardecer, rios tranquilos, crianças correndo na areia, arco-íris no céu, gotas de orvalho em uma pétala de rosa. 
O rei examinou todo o material que lhe foi enviado, mas terminou selecionando apenas dois trabalhos.
O primeiro mostrava um lago tranquilo, espelho perfeito das montanhas poderosas e do céu azul que o rodeava. Aqui e ali se podiam ver pequenas nuvens brancas, e, para quem reparasse bem, no canto esquerdo do lago existia uma pequena casa, a janela aberta, a fumaça saindo da chaminé – o que era sinal de um jantar frugal, mas apetitoso. 
O segundo quadro também mostrava montanhas. Mas estas eram escabrosas, os picos afiados e escarpados. Sobre as montanhas o céu estava implacavelmente escuro, e das nuvens carregadas saiam raios, granizo e chuva torrencial. 
A pintura estava em total desarmonia com os outros quadros enviados para o concurso. Entretanto, quando se observava o quadro cuidadosamente, notava-se numa fenda da rocha inóspita, um ninho de pássaro. Ali, no meio do violento rugir da tempestade, estava sentada calmamente uma andorinha. 
Ao reunir sua corte, o rei elegeu esta segunda pintura como a que melhor expressava a idéia da perfeita paz.
E explicou:
- Paz não é aquilo que encontramos em um lugar sem ruídos, sem problemas, sem trabalho duro, mas o que permite manter a calma em nosso coração, mesmo no meio das situações mais adversas. Este é o seu verdadeiro e único significado.

Como aprende a girafa
Minha geração foi (bem) alimentada com as biografias escritas por Irving Stone, retratando homens como Michelangelo, Van Gogh ou Charles Darwin. Quando lhe perguntaram se havia algum traço que unisse estas pessoas, Stone respondeu:
“A maioria deles foi atacada, derrotada, insultada, e por muitos anos não chegou a lugar nenhum. Entretanto, cada vez que caíam por terra, tinham capacidade de recuperar-se e tentar de novo. Os grandes gênios são aqueles que nunca deram ao inimigo o poder de destruí-los.”
O comentário de Stone fez um amigo meu lembrar-se de “A View from the Zoo”, um interessantíssimo livro onde Gary Richmond traça paralelos entre o comportamento animal e humano. Em uma de suas mais agudas observações, está a descrição do processo de nascimento de uma girafa. 
Para começar, o bebê despenca de uma considerável altura, batendo com toda força no solo. A mãe, com seu longo pescoço, move-se um pouco para o lado, e vê que a cria se debate para colocar-se de pé. Imediatamente, ela estende sua longa pata, e dá um chute não muito delicado, de modo que a girafinha termina rolando sobre si mesma. Vários chutes são dados, até que, já cansada, a recém-nascida consegue finalmente levantar-se, de modo a fugir daquele comportamento agressivo. 
Neste momento, ao invés de ficar orgulhosa, a mãe tem uma atitude estranha: de novo chuta a sua cria, que cai e torna a levantar-se mais depressa.  
 Por quê? Ela quer que a girafinha aprenda rápido que irá viver em um mundo cheio de leões, hienas, leopardos, caçadores. 
Se não aprende logo a levantar-se quando cai, jamais irá poder desfrutar a vida que tem pela frente. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O guerreiro da luz e suas contradições

Amor e combate
O guerreiro da luz às vezes luta com quem ama.
Aprendeu que o silêncio significa o equilíbrio  absoluto do corpo, do espírito, e da alma. O homem que preserva a sua unidade, jamais é dominado pelas tempestades  da existência; tem forças para ultrapassar as dificuldades e seguir adiante. 
Entretanto, muitas vezes sente-se desafiado por aqueles a quem procura ensinar a arte da espada. Seus discípulos o provocam para um combate e o guerreiro mostra sua capacidade: com alguns golpes lança as armas dos alunos por terra, e a harmonia volta ao local onde se reúnem.
"Por que fazer isto se és tão superior?" - pergunta um viajante.
"Porque, desta maneira, mantenho o diálogo" -   responde o guerreiro.

Solidão e dependência 
Quando um guerreiro sofre uma injustiça, geralmente procura ficar sozinho, para não mostrar sua dor aos outros.
É um comportamento bom e mau ao mesmo tempo.
Uma coisa é deixar que seu coração cure lentamente as próprias feridas. Outra coisa é ficar em meditação profunda todo o dia, com medo de parecer fraco.
Dentro de cada um de nós existe um anjo e um demônio, e suas vozes são muito parecidas. Diante da dificuldade o demônio alimenta essa conversa solitária, procurando nos mostrar como somos vulneráveis; e o anjo precisa da boca de alguém para se manifestar.

Pressa e paciência 
Um guerreiro da luz  precisa de paciência e rapidez ao mesmo tempo. Os dois maiores erros da estratégia são:  agir antes da hora, ou deixar que a oportunidade passe longe.
Para evitar isto, o guerreiro trata cada situação como se fosse única e não aplica fórmulas, receitas, ou opiniões alheias.
O califa Moauiyat perguntou a Omr Ben Al-Aas qual era o segredo de sua grande habilidade política:
“Nunca me meti em assunto sem ter estudado previamente a retirada; por outro lado, nunca entrei e quis logo sair correndo” - foi a resposta.

Paz e atividade
intervalo do combate, o guerreiro descansa.
Muitas vezes passa dias sem fazer nada, porque seu coração exige.
Mas sua intuição permanece alerta. Ele não comete o pecado capital da Preguiça, porque sabe onde ela o pode conduzir: à sensação morna das tardes de domingo, onde o tempo passa - e nada mais.
Um guerreiro descansa e ri. Mas está sempre atento.

Um anjo e um demônio 
Um guerreiro sabe que um anjo e um demônio disputam a mão que segura a espada.
Diz o demônio: "você vai fraquejar. Você não vai saber o momento exato. Você está com medo”.
Diz o anjo: "você vai fraquejar. Você não vai saber o momento exato. Você está com medo".
O guerreiro fica surpreso. Ambos disseram a mesma coisa.
Então o demônio continua: "deixa que eu te ajude".
E diz o anjo: "eu te ajudo".
Nesta hora, o guerreiro percebe a diferença. As palavras são as mesmas, mas os aliados são diferentes.
Então ele dedica sua vitória a Deus. E, com  a confiança dos valentes, escolhe a mão de seu anjo.