sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O profeta


Em seu clássico livro “O Profeta”, Khalil Gibran - talvez o mais conhecido escritor libanês contemporâneo - conta a história de Al-Mustafá, um homem que retorna à sua terra. Os habitantes da aldeia onde ficou todos estes anos pedem que ensine o que aprendeu. 
A seguir, alguns dos trechos (editados) deste clássico do século XX:

O matrimônio
Vocês nasceram juntos, e juntos estarão mesmo quando as asas brancas da morte terminem com seus dias – porque continuarão unidos na memória silenciosa de Deus. 
Mas que haja espaço entre os dois. Que o vento dos céus possa passar entre seus corpos. 
Amém, mas não transformem o amor em uma atadura.
Que um encha o copo do outro, mas que jamais bebam do mesmo copo. 
Cantem e dancem, estejam alegres, mas que cada um mantenha sua independência; as cordas de um alaúde estão sozinhas, embora vibrem com a mesma música. 
Entreguem o seu coração, mas não para que seu companheiro o possua – porque só a mão da Vida pode conter corações inteiros. 
Estejam juntos, mas não demasiados juntos – porque os pilares de um templo estão separados. 
O carvalho não cresce à sombra do cipreste, e o cipreste não consegue crescer à sombra do carvalho.  

Os filhos
Seus filhos não são seus filhos; são filhos e filhas da vida. Vieram através de vocês, mas não lhe pertencem. 
Podem dar seu amor, mas não seus pensamentos – porque eles têm seus próprios sonhos.
Podem proteger seus corpos, mas não suas almas – porque suas almas habitam na casa do amanhã, que mesmo em sonho vocês não podem visitar.  
Podem tentar ser como eles, mas não tentem fazer com que se comportem como vocês; porque a vida não retrocede, nem se deixa seduzir pelo dia de ontem. 
Vocês são o arco onde seus filhos, como flechas vivas, são impulsionados para adiante; deixem que a mão do Arqueiro trabalhe, porque assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco, que permanece estável. 

O amor
Quando o amor chamar, aceitem seu chamado, mesmo que o caminho seja duro, difícil.
E quando suas asas se abrirem, entreguem-se, mesmo que a espada que está ali escondida termine provocando ferimentos.
E quando o amor disser algo, acreditem, mesmo que sua voz destrua seus sonhos, como o vento do norte devasta os jardins. 
Porque o amor glorifica e crucifica. Faz crescer os ramos, e os poda. Tritura os homens, até que estejam flexíveis e dóceis. Os queima em fogo divino, para que possa converter-se em um pão sagrado, que será consumido no banquete de Deus.
Entretanto, se tiverem medo, e quiserem encontrar no amor apenas a paz e o prazer, melhor que se afastem de sua porta, e procurem outro mundo, onde poderão rir mas sem toda alegria, e poderão chorar mas sem usar todas as lágrimas. 
O amor não dá nada e não pede nada além de si mesmo. O amor não possui nem é possuído – porque ele se basta.  
E não tentem dirigir o seu curso: porque se o amor achar que são dignos, ele os dirigirá até onde devem chegar.  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ao maior de todos


Atravessando a Avenida Copacaaca bana
llEu tinha editado, com meus próprios recursos, um livro chamado “Os Arquivos do Inferno”. Todos nós sabemos o quanto é difícil publicar um trabalho, mas existe algo ainda mais complicado: fazer com que ele seja colocado nas livrarias. Todas as semanas minha mulher ia visitar os livreiros em um lado da cidade, e eu ia para outra região fazer a mesma coisa.
Foi assim que, com exemplares de meu livro debaixo do braço, ela ia atravessando a Avenida Copacabana, e eis que Jorge Amado e Zélia Gattai estão do outro lado da calçada! Sem pensar muito, ela os abordou e disse que o marido era escritor. Jorge e Zélia (que provavelmente deviam escutar isso todos os dias) a trataram com o maior carinho, convidaram para um café, pediram um exemplar, e terminaram desejando que tudo corresse bem com minha carreira literária.
“Você é louca!” eu disse, quando ela voltou para casa. “Não vê que ele é o mais importante escritor brasileiro?”
“Justamente por isso”, respondeu ela. “Quem chega aonde ele chegou, precisa ter o coração puro.”

O recorte no envelope
As palavras de Christina não podiam ser mais acertadas: o coração puro. E Jorge, o escritor brasileiro mais conhecido no exterior, era (e é) a grande referência do que acontecia em nossa literatura.
Um belo dia, porém, “O Alquimista”, escrito por outro brasileiro, entra na lista dos mais vendidos da França, e em poucas semanas chega ao primeiro lugar.
Dias depois, recebo pelo correio um recorte da lista, junto com uma carta afetuosa sua, me cumprimentando pelo feito. Jamais entraria, no coração puro de Jorge Amado, sentimentos como o ciúme.
Alguns jornalistas – brasileiros e estrangeiros - começam a provocá-lo, fazendo perguntas maldosas. Jorge, em nenhum instante, se deixa levar pelo lado fácil da crítica destrutiva, e passa a ser meu defensor em um momento difícil para mim, já que a maior parte dos comentários sobre meu trabalho era muito dura.

O desespero de Anne
Recebo finalmente meu primeiro prêmio literário no exterior – mais precisamente, na França. Acontece que, no dia da entrega, estarei em Los Angeles por causa de compromissos assumidos anteriormente. Anne Carriére, minha editora, fica desesperada. Fala com os editores americanos, que se recusam a abrir mão das minhas conferências já programadas.
A data do prêmio chegando, e o premiado não poderá ir; o que fazer? Anne, sem me consultar, liga para Jorge Amado e explica a situação. Na mesma hora, Jorge se oferece para me representar na entrega do prêmio.
E não se limita a isso: telefona para o embaixador brasileiro e o convida, faz um lindo discurso, deixa todos os presentes emocionados.
O mais curioso de tudo isto, é que eu só iria conhecer Jorge Amado pessoalmente quase um ano depois da entrega do prêmio. Mas sua alma, ah, essa eu aprendera a admirar como eu admiro seus livros: um escritor famoso que jamais desprezava os principiantes, um brasileiro que ficava contente com o sucesso de seus conterrâneos, um ser humano sempre pronto a ajudar quando lhe pediam algo.
Obrigado, Jorge. Que o mundo cada vez conheça melhor seu trabalho, porque ele foi escrito com o talento de um gênio - por um homem de bem.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Histórias da América Latina


O poder da imagem
llUma lenda peruana nos fala de uma cidade onde todos eram felizes. Todos faziam o que desejavam, e se entendiam bem - menos o prefeito, que vivia infeliz porque não conseguia governar nada. A prisão estava vazia, o tribunal nunca era usado, e o tabelião não dava nenhum lucro porque a palavra valia mais que o papel. 
"Falta autoridade aqui", pensava o prefeito. E tentava, de todas as maneiras, fazer com que as pessoas obedecessem a leis absurdas criadas pelo governo central. Ninguém dava bola. 
Até que o prefeito teve uma ideia. Mandou vir operários de longe, que fecharam o centro da praça principal da cidadezinha com um tapume, e começaram a construir algo. Durante uma semana, ouviu-se martelos batendo, serras cortando madeira, vozes de comando dos capatazes.
 Certa tarde, o prefeito convidou a todos da cidade para a inauguração. Com toda solenidade, os tapumes foram retirados, e apareceu... uma forca. 
Novinha em folha, com a corda balançando ao vento, e as ferragens do alçapão bem lubrificadas. 
 A partir daquele momento, todo mundo que passava pela praça via a forca. As pessoas foram ficando tristes, sem ter certeza de que estavam agindo certo. Começaram a se perguntar o que aquela forca estava fazendo ali - e, com medo, passaram a ir na justiça resolver qualquer coisa que antes era resolvida de comum acordo. Passaram a ir ao tabelião, registrar documentos que antes eram substituídos pela palavra. E passaram a escutar o prefeito em tudo, com medo de ferir a lei.
A lenda termina dizendo que a forca nunca foi usada. Mas bastou sua presença para mudar tudo.  

Amaldiçoando à toa 
Um feiticeiro mexicano conduz seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho caminha com agilidade, enquanto seu aprendiz escorrega e cai a todo instante.  
O aprendiz blasfema, levanta-se, cospe no chão traiçoeiro, e continua a acompanhar seu mestre. 
Depois de longa caminhada, chegam a um lugar sagrado. Sem parar, o feiticeiro dá meia-volta e começa a viagem de volta.
  "Você não me ensinou nada hoje", diz o aprendiz, levando mais um tombo.
 "Ensinei sim, mas você parece que não aprende", responde o feiticeiro. "Estou tentando lhe ensinar como se lida com os erros da vida”.
 "E como lidar com eles?" 
 "Como deveria lidar com seus tombos. Ao invés de ficar amaldiçoando o lugar onde caiu, devia procurar aquilo que provocou a queda".

Dar também um pouco
Um grupo de estudantes uruguaios estava reunido numa casa de campo, quando o caseiro chegou - contando uma tragédia nas redondezas: uma casa incendiou-se, deixando mãe e filha desabrigadas. Imediatamente, uma das estudantes iniciou uma coleta, para ajudar a família a reconstruir sua casa.
 Entre os presentes estava um escritor pobre, e a moça resolveu não lhe pedir nada.
"Um momento", disse o escritor, quando ela ia passando adiante. 
"Também quero contribuir".
No minuto seguinte, escreveu em um papel o que havia acontecido, e colocou-o dentro do pote que estava sendo usado para arrecadar o dinheiro.
 "Quero dar a todos esta tragédia. Que ela seja sempre lembrada quando pensarmos nos pequenos incidentes de nossas vidas".

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Relembrando o feiticeiro mexicano


ll“Quando nasce o sol, eu vou trabalhar. Quando o sol se põe, volto para casa e descanso. Cavei o poço de onde tiro água para beber, e cultivo o campo que me dá o alimento. Agindo assim, estou em perfeita comunhão com o Criador – e nenhum rei pode fazer melhor que isso“.
Este antigo texto chinês também serve para sintetizar a filosofia de um dos mais importantes pensadores de minha geração, Carlos Castaneda. Seus ensinamentos, condensados em uma série de livros, sempre foram objeto de críticas e dúvidas – mas tiveram um impacto muito grande em minha vida. Como hoje em dia as pessoas já praticamente não sabem quem é Castaneda, transcrevo e comento alguns de seus trechos pelo menos uma vez por ano. Não sei se com isso conseguirei que não o esqueçam; mas pelo menos, ao folhear suas páginas, me deparo com uma obra que se renova a cada leitura. 

A energia está na busca da liberdade
Liberdade é a única verdadeira força que conheço. Liberdade de voar além dos próprios limites. Liberdade de deixar-se levar pelo vento, de dissolver-se. Liberdade de ser como a chama de uma vela que, apesar de estar sendo contemplada por bilhões de estrelas, não se deixa intimidar nem finge ser nada além do que é – uma simples vela.

A energia vem de aceitar-se a si mesmo
Não tem a menor importância o que você esconde ou mostra ao seu semelhante – porque você sabe quem é. E se não se aceita como tal, mesmo o mais profundo ensinamento filosófico será incapaz de ter qualquer efeito. Mas quem é você? 
Será que entende que neste momento está cercado pela eternidade, e pode usar sua energia a seu favor? 
Partindo do princípio que conhece suas limitações, passe também a conhecer todas as suas possibilidades, e poderá ser chamado de um guerreiro impecável. 
A diferença entre um guerreiro impecável e os outros, é que aquele sabe como usar a sua força. 

A energia do silêncio
Quando estamos quietos, nos damos conta de que alguém (ou alguma coisa) está procurando nos ensinar. Sempre que conseguimos parar nosso diálogo interior, algo de extraordinário termina acontecendo em nossas vidas. Descobrimos coisas que jamais pensamos conscientemente, mas que estão ali, prontas para nos ajudar. 
Entretanto, o difícil mesmo é conseguir atingir este silêncio – nossa cabeça vive ocupada com músicas, listas, coisas para fazer, preocupações, notícias de jornais, cálculos matemáticos sobre nossas possibilidades financeiras. 
Se conseguirmos deter este fluxo inútil de reflexões que não nos conduzem a lugar nenhum, tudo passa a ser possível. 

A energia é ação
Para um homem de conhecimento, só existe o Aqui e o Agora. Portanto, ele entende que cada vez que age, está aumentando o seu poder e sua força. Ao fazer isso, observa com cuidado tudo aquilo que o cerca, e sabe que cada coisa, por menor ou mais insignificante que seja, está carregada de energia, e pode lhe ensinar algo: plantas, pregos, folhas caídas, tudo isso precisa de uma gigantesca energia para manter os átomos em seu lugar, de modo que possam ser percebidas e tocadas. 
Um verdadeiro guerreiro consegue absorver esta força, e usá-la a seu favor. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

As línguas que Deus fala


llUm missionário espanhol visitava uma ilha quando encontrou três sacerdotes astecas.
– Como vocês rezam? – perguntou o padre.
– Temos apenas uma oração – respondeu um dos astecas. – Nós dizemos: “Deus, Tu És três, nós somos três. Tende piedade de nós”.
– Bela oração – disse o missionário. – Mas ela não é exatamente a prece que Deus escuta. Vou lhes ensinar uma muito melhor.
O padre ensinou uma oração católica, e seguiu seu caminho de evangelização. Anos depois, já no navio que o levava de volta à Espanha, precisou passar de novo por aquela ilha. Do convés, viu os três sacerdotes na praia – e fez um aceno de despedida. 
Neste momento, os três começaram a caminhar pela água, em direção a ele.
– Padre! Padre! – gritou um deles, aproximando-se do navio. – Nos ensina de novo a oração que Deus escuta, porque não conseguimos lembrar!
– Não importa – disse o missionário, vendo o milagre. E pediu perdão a Deus, por não ter entendido antes que Ele falava todas as línguas.
A seguir, algumas destas preces:

Dhammapada 
(atribuída a Buda) 
Melhor que, ao invés de mil palavras,
Houvesse apenas uma, mas que trouxesse Paz.
Melhor que, ao invés de mil versos,
Houvesse apenas um, mas que mostrasse o Belo. 
Melhor que, ao invés de mil canções, 
Houvesse apenas uma, mas que espalhasse alegria. 
Mevlana Jelaluddin Rumi, século XIII.
Lá fora, além do que está certo e do que está errado, existe um campo imenso.  Nos encontraremos ali. 
Profeta Mohammed, 
século VII.
Oh Alá! Eu te consulto porque sabes tudo, e conheces mesmo aquilo que está escondido. 
Se o que estou fazendo é bom para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, então que a tarefa seja fácil e abençoada. 
Se o que estou fazendo agora é mau para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, mantenha-me longe desta tarefa. 

Jesus de Nazaré, 
Mateus 7; 7-8.
Pedi, e receberás. 
Procure, e encontrarás. 
Bate, e a porta se abrirá. 
Porque quem pede, recebe; quem procura, acha; quem bate, a porta se abre.

Prece Judaica para a Paz
Vamos à montanha do Senhor, onde poderemos caminhar com Ele. Transformemos nossas espadas em arados, e nossas lanças em coletores de frutos. 
Que nenhuma nação levante sua espada contra outra, e que jamais aprendamos a arte da guerra. 
E ninguém deve temer ao seu vizinho, porque assim disse o Senhor. 

Lao Tsu, China - 
século VI A.C.
Para haver paz no mundo, é necessário que as nações vivam em paz.
Para haver paz entre as nações, as cidades não devem se levantar uma contra a outra. 
Para haver paz nas cidades, os vizinhos precisam se entender. 
Para haver paz entre os vizinhos, é preciso que reine harmonia no lar.
Para haver paz em casa, é preciso encontrá-la em seu próprio coração. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A montanha mágica


llCreio que uma das mais belas regiões do mundo é o Languedoc, uma parte dos Pirineus que se encontra ao sudoeste da França. Já estive ali algumas vezes, e fico impressionado com seus vales, montanhas, vegetação, rios. Entretanto, como o ser humano é absolutamente imprevisível, foi justamente nesse lugar magnífico que nasceu a primeira grande “heresia” europeia: o catarismo. 
Muitos livros já foram escritos sobre o tema: entretanto, é possível resumir a filosofia cátara em uma simples frase: o Universo foi criado pelo demônio. Toda esta beleza aparente é uma obra diabólica. 
Segundo a enciclopédia, eles eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material. Por causa disso, tinham voto de castidade, não pretendiam procriar e dar mais adeptos ao diabo. Chamavam a si mesmos de “perfeitos”, e estavam dispostos ao martírio para provar a importância de sua crença. O final simbólico do movimento, que desencadeou as primeiras cruzadas que se tem notícia, deu-se no dia 15 de março de 1244 na fortaleza de Montségur: depois de um prolongado sítio, onde lhes foi oferecido à conversão ao catolicismo ou à morte, aproximadamente 250 “perfeitos”, homens, mulheres e crianças, desceram a montanha cantando e se atiraram às chamas da fogueira acesa especialmente para isso. 
Durante muito tempo me interessei pelo catarismo. Em 1989, conheci Brida O’Fern (mais tarde, personagem de um livro meu) que tinha sido cátara em uma encarnação passada. No início daquele mesmo ano havia conhecido Mônica Antunes, na época apenas minha amiga, e hoje minha amiga e agente. 
Como eu precisava, por razões espirituais, fazer o caminho cátaro (uma trilha que liga os castelos/fortalezas dos “perfeitos”) convidei-a para participar de um trecho do percurso. 
Mônica e eu chegamos aos pés da montanha de Montségur em uma tarde de agosto. Tínhamos planejado subi-la no dia seguinte, e depois do jantar fomos conversar no lugar onde a tal fogueira havia sido acesa, quase 800 anos antes (um insignificante monumento marca o local). O tempo estava fechado, nuvens tão baixas que não conseguíamos nem mesmo ver as ruínas no alto da gigantesca rocha. Apenas para provocar Mônica, disse que talvez fosse interessante subir naquela mesma noite. Ela disse que não, e eu fiquei aliviado: imagine se tivesse dito que sim? 
Neste momento, para um carro, da mesma marca e da mesma cor que o meu. Desce um irlandês, e pergunta – como se fôssemos da região – por onde se pode escalar a rocha. Sugiro que faça isso conosco no dia seguinte, mas ele está decidido a subir naquela mesma noite: pretende ver o nascer do sol lá em cima, diz que talvez tenha sido cátaro em uma vida passada. Será que poderíamos lhe emprestar uma lanterna?
E tudo parece se encaixar: Brida, a obrigação de fazer o caminho cátaro, a brincadeira minutos antes com Mônica, e agora aquele sujeito ali, com um carro igual ao meu. É um sinal. Vou até o hotel na aldeia onde estamos hospedados, e consigo uma lanterna – a única que existe. 
Mônica parece assustada, mas eu afirmo que devemos seguir adiante. Sinais são os sinais, digo. O recém-chegado pergunta onde está o caminho. Não importa, respondo, basta subir. O caminho é para cima. 
E durante um tempo que não consigo me lembrar, nós três escalamos à noite uma montanha que não conhecíamos, e que a névoa só permitia ver alguns palmos adiante. Finalmente, cruzamos as nuvens, o céu se enche de estrelas, a lua está cheia, e diante de nós, a porta da fortaleza de Montségur.
Entramos, contemplamos as ruínas. Eu olho a beleza do firmamento, me pergunto como chegamos ali sem qualquer acidente, mas acho melhor parar com perguntas e apenas admirar o milagre. Os cátaros contemplavam este mesmo céu, e mesmo assim achavam que todas estas estrelas eram obra do demônio. Jamais compreenderei os cátaros, embora respeite a integridade como se dedicavam à sua fé. 
Voltei a Montségur e subi a montanha outras vezes, mas nunca mais consegui encontrar o caminho que usamos naquela noite de agosto de 1989. 
Mistérios existem. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A natureza como fonte inspiradora


O grito no vale
llO homem resolveu partir em busca de Deus. E foi atrás dos mestres, que diziam conhecer profundamente as razões pelas quais o Universo havia sido criado, e prometiam explicar o que Deus queria da humanidade.
- Mas quem lhes ensinou isso? - perguntava aos mestres - Foi o próprio Deus?
Os mestres diziam muitas palavras bonitas, mas não conseguiam definir exatamente quem os ensinara tudo que pregavam aos quatro ventos. Portanto, depois de alguns dias de aprendizado aqui e acolá, o homem sempre seguia adiante. 
Em suas andanças, terminou conhecendo um vale, onde camponeses afirmavam que, em uma montanha próxima, Deus falava com quem se aproximasse. 
E o homem foi para a montanha. Esperou durante três dias, jejuando e rezando, mas Deus não se aproximou. No quarto dia, já desesperado, ele gritou:
- Onde estás?
O eco respondeu:
- Onde estás?
E, a partir daquele instante, o homem compreendeu que Deus fazia a mesma pergunta, e que também lhe buscava. 

A cultura e a contemplação 
A tradição sufi nos conta a história de um filósofo que cruzava um rio em um barco.  Durante a travessia, procurava mostrar sua sabedoria ao barqueiro.
- Você conhece os textos de Horbiger?  
- Não - respondeu o barqueiro. - Mas conheço o que a natureza me ensinou para desempenhar bem o meu trabalho. 
- Pois saiba que perdeu metade de sua vida! 
No meio do rio, o barco bateu numa pedra, e naufragou. O bar¬queiro nadava para uma das margens, quando viu o filósofo se afogando. 
- Não sei nadar! - gritou ele desesperado. - Eu lhe disse que havia perdido metade de sua vida por não conhecer Horbiger, e agora perco a minha vida inteira por não entender coisas tão simples como as correntezas de um rio!

O dia e a noite 
O mestre reuniu seus discípulos e perguntou como era possível saber a hora exata em que a noite terminava.
- Quando podemos ver o primeiro brilho do sol – responderam todos.
- Nada disso. A noite termina quando podemos olhar no rosto de nosso irmão e ver que ele é o nosso próximo. Quando podemos nos levantar da cama sem nenhum remorso do que fizemos no dia anterior. Quando podemos dizer a nós mesmos que, custe o que custar estaremos sempre agindo de acordo com a vontade de Deus.
- Enquanto não pudermos fazer isto, continuará sendo noite - mesmo que o sol esteja brilhando lá fora. 

Zhuan Ziu fala da natureza
Quando o inverno chega, as árvores devem suspirar de tristeza ao ver suas folhas caírem. 
Dizem: "jamais seremos como antes".
Claro.  Ou então, qual o sentido de renovar-se? As próximas folhas terão sua personalidade própria, pertencem a um novo verão que se aproxima, e que nunca poderá ser igual ao que passou. 
Viver é mudar – e as estações nos repetem esta mesma lição todos os anos. Mudar significa passar por um período de depressão: ainda não conhecemos o novo, e temos que esquecer tudo aquilo com o que estávamos habituados. Mas, se temos um pouco de paciência, a primavera termina chegando, e esquecemos o inverno de nossas desesperanças.
Mudança e renovação são leis da vida. É bom acostumar-se com elas, e não sofrer com coisas que só existem para nos trazer alegrias. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Hagakure e o caminho do samurai


llYamamoto Tsunetomo (1659 – 1719), depois de servir durante muitos anos como samurai, resolveu narrar tudo aquilo que aprendeu para Tsuramoto Tashiro, um de seus discípulos. O resultado destas conversas transformou-se no livro “Hagakure”(Escondido atrás da folhagem), que conseguiu resistir à passagem do tempo, e ainda hoje é atual. 
Relendo o texto, me dei conta que grande parte dos ensinamentos ali contidos podem ser aplicados à nossa vida diária. Um samurai, como sabemos, era um guerreiro com um código de conduta (conhecido como bushido), baseado em três pontos importantes:
A] disciplina 
0B] ética
C] coragem 
Elementos esses que deviam estar presentes em cada uma das decisões que tomamos. Assim, ao procurar um sentido em nossa peregrinação sobre a face da Terra, entenderíamos que: 
A] só é possível atingir um sonho quando se tem a vontade necessária para tanto. Não basta entusiasmo, paixão, desejo – é preciso força e concentração também. 
B] quando vamos em busca de algo que tem um verdadeiro significado em nossa existência, não existe necessidade de ferir ou pisar as outras pessoas. Ao contrário, quanto mais respeitamos o caminho alheio, mais aliados encontramos em nosso caminho, e mais respeito teremos em troca. 
C] além da disciplina e da ética, é necessário entender que, apesar do medo, precisamos seguir adiante. Coragem não significa ausência de temores – mas a capacidade de não se deixar paralisar por eles. 
Como já disse em outras colunas, todos nós vamos morrer um dia. Ao tomarmos consciência disso, devíamos nos entregar com muito mais alegria à vida, fazendo coisas que sempre adiamos, respeitando os minutos preciosos que estão passando e não voltarão jamais, desvendando e descobrindo horizontes que podem ser interessantes ou decepcionantes, mas que merecem pelo menos um pouco de esforço de nossa parte.
É normal que procuremos evitar a morte. Não apenas é normal, como é a atitude mais saudável que podemos ter. Entretanto, é uma aberração negá-la, já que sua consciência nos dá muito mais coragem. Se eu fosse morrer hoje, o que gostaria de fazer que não fiz? Este é o meu pensamento todas as manhãs. Aprendi, no caminho de Santiago, que o Anjo da Morte é o meu melhor conselheiro. 
Yamamoto Tsunetomo diz em determinado momento a seu discípulo: “todos nós queremos viver, e isso é absolutamente natural. Entretanto, desde crianças, devíamos também aprender a escolher nossa melhor maneira de morrer. Se não fazemos isso, terminamos gastando nossos dias como um cão, apenas em busca de abrigo, comida, dando em troca uma lealdade cega ao seu dono, de modo a justificar o teto e a alimentação. Isso não basta para fazer com que nossas vidas tenham um sentido”.
Não adianta tentar criar um mundo aparentemente seguro, e nada melhor para explicar isso do que uma pequena história de John O’Hara:
Um homem vai ao mercado comprar frutas, quando vê sua Morte caminhando entre as pessoas. Desesperado, volta correndo, e pede ao patrão para dispensá-lo aquele dia, já que viu sua Morte de perto. 
O patrão deixa que retorne à sua aldeia, mas começa a pensar que talvez tudo aquilo seja uma mentira. Resolve ir até o mercado – e realmente vê a Morte do seu empregado sentada em um banco. Reclama:
- Mas o que você está fazendo aqui? Meu servo ficou surpreso ao encontrá-la, e por causa disso precisei dispensá-lo hoje do trabalho! 
- Eu também fiquei surpresa ao vê-lo aqui – responde a Morte. – Tenho um encontro marcado com ele às cinco horas desta tarde, em sua aldeia, e pelo visto ele irá escapar de mim. 
O patrão pensa em voltar correndo, chamar o empregado, mas já é tarde. 
O destino irá se cumprir exatamente como tinha sido escrito – sobretudo, porque o homem teve medo da Morte, e resolveu sair correndo. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Preparado para o combate, mas com dúvidas.


llEstou vestindo uma estranha farda verde, cheia de zíperes, feita de tecido grosso. Minhas mãos estão com luvas, de modo a evitar ferimentos. Carrego comigo uma espécie de lança quase da minha altura: sua extremidade de metal possui um tridente de um lado e uma ponta afiada do outro. 
E diante dos meus olhos, aquilo que será atacado no próximo minuto: meu jardim.
Com o objeto em minha mão, começo a arrancar a erva daninha que se misturou com a grama. Faço isso durante um bom tempo, sabendo que a planta retirada do solo irá morrer antes que se passem dois dias. 
De repente, me pergunto: estou agindo certo?  
Aquilo que chamo de “erva daninha” é na verdade uma tentativa de sobrevivência de determinada espécie, que demorou milhões de anos para ser criada e desenvolvida pela natureza. A flor foi fertilizada a custa de incontáveis insetos, transformou-se em semente, o vento espalhou-a por todos os campos ao redor, e assim – porque não está plantada em apenas um ponto, mas em muitos lugares – suas chances de chegar até a próxima primavera são muito maiores. Se estivesse concentrada em apenas um lugar, estaria sujeita aos animais herbívoros, uma inundação, um incêndio, ou uma seca.
Mas todo este esforço de sobrevivência esbarra agora com a ponta de uma lança, que a arranca sem qualquer piedade do solo. 

Por que faço isso? 
llAlguém criou o jardim. Não sei quem foi, porque quando comprei a casa ele já estava ali, em harmonia com as montanhas e com as árvores ao seu redor. Mas o criador deve ter pensado longamente no que fazer plantado com muito cuidado e planejamento (existe uma aleia de arbustos que esconde a casa onde guardamos lenha), e cuidado dele através de incontáveis invernos e primaveras. Quando me entregou o velho moinho - onde passo alguns meses por ano - o gramado estava impecável. Agora cabe a mim dar continuidade ao seu trabalho, embora a questão filosófica permaneça: devo respeitar o trabalho do criador, do jardineiro, ou devo aceitar o instinto de sobrevivência que a natureza dotou esta planta, hoje chamada de “erva daninha”? 
 Continuo arrancando as plantas indesejáveis, e as colocando em uma pilha que em breve será queimada. Talvez eu esteja refletindo demais sobre temas que nada tem a ver com reflexões, mas com ações. Entretanto, cada gesto do ser humano é sagrado e cheio de consequências, e isso me força a pensar mais sobre o que estou fazendo.
Por um lado, aquelas plantas têm o direito de se espalhar em qualquer direção. Por outro lado, se eu não as destruir agora, elas terminarão por sufocar a grama. No Novo Testamento, Jesus fala de arrancar o joio, de modo a não se misturar com o trigo. 
Mas - com ou sem o apoio da Bíblia - estou diante do problema concreto que a humanidade enfrenta sempre: até que ponto é possível interferir na natureza? Esta interferência é sempre negativa, ou pode ser positiva às vezes? 
Deixo de lado a arma – também conhecida como enxada. Cada golpe significa o final de uma vida, a não existência de uma flor que iria desabrochar na primavera, a arrogância do ser humano que quer moldar a paisagem ao seu redor.         Preciso refletir ainda mais, porque estou neste momento exercendo um poder de vida e de morte. A grama parece dizer: “proteja-me, ela irá me destruir”. A erva também fala comigo: “eu viajei de tão longe para chegar ao seu jardim – por que você quer me matar?”  
No final, o que vem ao meu socorro é o texto indiano Bhagavad Gita. Lembro-me da resposta de Khrisna ao guerreiro Arjuna, quando este mostra-se desalentado antes de uma batalha decisiva, atira suas armas no chão, e diz que não é justo participar de um combate que terminará matando seu irmão. Khrisna responde mais ou menos o seguinte: “Você acha que pode matar alguém? Sua mão é Minha mão, e tudo que você está fazendo já estava escrito que seria feito. Ninguém mata, e ninguém morre”.
Animado por esta súbita lembrança, empunho de novo a lança, ataco as ervas que não foram convidadas a crescer em meu jardim, e fico com a única lição desta manhã: quando algo indesejável crescer na minha alma, peço a Deus que me dê a mesma coragem para arrancá-lo sem qualquer piedade. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Histórias sobre a velhice


llUm guerreiro da luz nunca tem pressa. O tempo trabalha a seu favor; ele aprende a dominar a impaciência, e evita gestos impensados.
Andando devagar, nota a firmeza de seus passos. Sabe que participa de um momento decisivo da história da humanidade, e precisa mudar a si mesmo antes de transformar o mundo. 
Um guerreiro da luz nunca colhe o fruto enquanto ele ainda está verde porque sabe que o tempo é seu aliado, e não seu inimigo. 

Descobri um novo método
llUm velho caçador de raposas – considerado o melhor da região – resolveu finalmente se aposentar. Juntou seus pertences e resolveu partir em direção ao sul do país, onde o clima era mais ameno. 
Entretanto, antes que terminasse de empacotar suas coisas, recebeu a visita de um jovem.
- Quero aprender suas técnicas – disse o recém-chegado. – Em troca, compro a sua loja, a sua licença de caçador, e ainda pagarei por todos os segredos que o senhor conhece. 
O velho concordou; assinaram o contrato, e ensinou ao rapaz tudo que sabia sobre o tema. Com o dinheiro recebido comprou uma bela casa no sul, onde passou o inverno inteiro sem precisar preocupar-se em juntar lenha para calefação, já que o clima era muito agradável. 
Na primavera, sentiu saudades de sua aldeia, e resolveu voltar para ver os seus amigos. 
Lá chegando, cruzou no meio da rua com o jovem que, alguns meses antes, resolvera pagar uma fortuna por seus segredos. 
- E então? – perguntou. – Como foi a temporada de caça?
- Não consegui pegar uma só raposa. 
O velho ficou surpreso e confuso:
- Mas você seguiu meus conselhos?
Com os olhos fixos no chão, o rapaz respondeu:
- Bem, na verdade não segui. Achei que seus métodos estavam ultrapassados e terminei desenvolvendo – por mim mesmo – uma melhor maneira de caçar raposas. 

Descobrindo o Amazonas
llO jesuíta Anthony Mello nos conta a história de um homem que, depois de muito viver e muito viajar, voltou ao seu povo. Reuniu os amigos, e começou a discorrer sobre as maravilhas da Amazônia. 
Todos ficaram muito entusiasmados, e o explorador deixou com eles um mapa, sugerindo que visitassem o local. 
Anos depois, voltou a sua terra, e viu o mapa emoldurado na prefeitura.
Um funcionário lhe disse:
- Isto é o Amazonas.
- Não, isto é um mapa do Amazonas! Vocês não foram visitá-lo?
- Para que? - respondeu o funcionário. – Já estamos velhos, decoramos cada cachoeira, rio, montanha. Por que perder tempo indo até lá?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Politicamente incorreto: casamento


llComo já aconteceu outras vezes, é importante abrir de vez em quando espaço nesta coluna para olhar o mundo de uma perspectiva diferente, mas incorreta. 
Hoje o tema central é o casamento, que começa sendo ilustrado por uma história: 
Adão caminhava pelos jardins do Paraíso com uma expressão bastante deprimida. Neste momento, ouviu a voz de Deus, que perguntava:
- O que está errado em sua vida?
Adão respondeu que não tinha ninguém com quem conversar. 
Deus, que gostaria de vê-lo contente, resolve que criaria uma companheira, a qual daria o nome de “mulher”.
- Farei o melhor possível – continuou Deus. – Esta nova criatura irá cozinhar, lavar, e sempre estar de acordo com qualquer coisa que você decidir. Ela irá lhe dar herdeiros, mas jamais o acordará no meio da noite para cuidar deles. 
“Não terá ciúmes, será a primeira a admitir que está errada (mesmo que não esteja), e encherá todas as suas horas de carinho, amor, e ternura.”
- Quanto isso vai me custar? – perguntou Adão. 
- Uma perna e um braço. 
- Muito caro. O que posso receber em troca de uma costela? 
O resto, como sabemos, é história. E deu origem a uma série de provérbios (também politicamente incorretos) que transcrevo a seguir:
“O diabo coloca o homem em cima da mulher no começo, para depois colocar a mulher em cima do homem” (provérbio da Córsega).
“Existem três tipos de homem que não compreendem as mulheres: os velhos, os jovens, e os que estão entre estas duas idades“ (provérbio irlandês).
“O casamento não é uma loteria, porque na loteria sempre existem vencedores” (G. Bernard Shaw).
“O amor é como a sopa: as primeiras colheres são desagradáveis porque queimam, e as últimas são horríveis porque estão sempre muito frias” (Jeanne Moreau).
“O amor é cego, mas o casamento faz com que possamos recuperar a visão” (provérbio alemão).
“A teoria da relatividade é o seguinte: uma hora perto de uma mulher bonita parece durar um minuto. Um minuto perto de uma mulher feia, parece durar uma hora” (Albert Eistein).
 “Jamais faça amor sábado à noite, porque o domingo vai chegar, e você não saberá como ocupar seu tempo” (Sacha Guitry).
“Os homens se casam porque estão cansados de procurar. As mulheres se casam porque tem medo de continuar procurando. Ambos terminam tristes com o resultado” (Oscar Wilde).
“As mulheres terminam vivendo sempre mais que os homens – sobretudo quando elas ficam viúvas” (Clemenceau)
“As mulheres dividem nosso prazer, dobram nossa inquietação, e triplicam nossas despesas” (Oscar Wilde).
“O divórcio é uma doença contagiosa, cujos primeiros sintomas surgem no dia de nosso casamento” (Elisabeth Taylor).
“O casamento é o único tipo de prisão perpétua cuja sentença só pode ser suspensa por má conduta” (de novo, Oscar Wilde).
  E para terminar esta coluna politicamente incorreta, conto a história do homem que, por não pagar imposto de renda, foi condenado a passar o resto da eternidade no inferno, casado com uma mulher horrível. Dois anos depois encontra outro amigo, que havia sonegado mais dinheiro que ele, vivendo com uma mulher mais feia ainda. 
 Os dois, conformados com o destino, encontram de repente um terceiro amigo – com uma loura inteligentíssima, belíssima, capaz de matar todos de inveja. 
- Mas como você conseguiu isso? – perguntam.
- Não tenho a menor ideia – responde o amigo. – Só sei que, cada vez que nos beijamos, ela grita: “maldito imposto de renda!”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Duas histórias sobre pedras


llA Internet continua sendo um grande manancial de histórias. A seguir, duas histórias sobre pedras, retiradas da rede. 

O seixo correto
O homem ouviu falar que certo alquimista perdera, num deserto muito próximo, o resultado de anos de seu trabalho: a famosa pedra filosofal, que transformava em ouro todo metal que tocava. 
Impulsionado pelo desejo de achá-la e ficar rico, o homem dirigiu-se ao deserto. Como não sabia exatamente o aspecto da pedra filosofal, começou a pegar todos os seixos que encontrava, colocando-os em contacto com a fivela do seu cinto, e vendo o que acontecia. 
Passou-se um ano, mais um, e nada. O homem, entretanto, seguia obstinadamente no desejo de recuperar a mágica pedra. Assim, automaticamente, caminhava pelos diversos vales e montanhas do deserto, esfregando um seixo atrás do outro em seu cinto.
Certa noite, antes de dormir, deu-se conta que a fivela havia se transformado em ouro!
Mas qual das pedras tinha sido? Será que o milagre acontecera de manhã, ou na parte da noite? Há quanto tempo, realmente, não olhava o resultado do seu esforço? O que antes era uma busca de um objetivo determinado, tinha se transformado num exercício mecânico, sem qualquer atenção ou prazer. O que era uma aventura, transformou-se numa obrigação aborrecida. 
Agora já não tinha como descobrir a pedra exata, pois a fivela já era de ouro, e nenhuma outra transformação aconteceria. Percorrera o caminho certo, e deixara de prestar atenção ao milagre que o esperava. 

As pedras maiores
 O mestre colocou, em cima da mesa, um vaso de vidro. 
Em seguida, retirou de um saco uma dezena de pedras do tamanho de uma laranja, e começou a enfiá-las, uma a uma dentro do jarro.
Quando o jarro já estava com pedras até a borda, perguntou aos seus alunos:
- Está cheio?
Todos disseram que sim. O mestre, porém, retirou de outro saco um cascalho, e sacudindo as pedras grandes dentro do jarro, conseguiu colocar bastante cascalho ali dentro. 
- Está cheio? – perguntou de novo.
Os alunos disseram que, desta vez, estava cheio. Foi quando o mestre abriu um terceiro saco, cheio de areia fina, e começou a derramá-la no jarro. A areia foi preenchendo o espaço vazio entre as pedras e o cascalho, até que chegou ao topo. 
- Muito bem – disse o mestre – agora o jarro está cheio. Qual o ensinamento que eu quis demonstrar?
- Que, não importa o quanto você esteja ocupado, sempre há espaço para fazer alguma coisa a mais – disse um aluno. 
- Nada disso.  Na verdade, esta pequena demonstração nos faz ver o seguinte: se não colocamos as pedras grandes antes, não poderemos colocá-las depois. 
“Então, quais são as coisas importantes na nossa vida? Quais os projetos que adiamos, as aventuras que não vivemos, os amores pelo qual não lutamos?      Perguntem quais são pedras grandes, sólidas, que mantém acesa em vocês a chama de Deus. E coloquem rápido no vaso de suas decisões, ou em pouco tempo já não encontrarão lugar para elas.” 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A história do lápis


llO menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:
- Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?
A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:
- Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele, quando crescesse.
O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial. 
- Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!
- Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo. 
“Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade”.
“Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas lhe farão ser uma pessoa melhor”. 
“Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça”. 
“Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você”.
“Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação”.

Vai ou não vai chover?
Depois de quatro anos de seca na pequenina aldeia do Nordeste, o pároco reuniu todos para uma peregrinação até a montanha; ali fariam uma oração coletiva, pedindo a chuva de volta.
No grupo, o padre notou um garoto, coberto por uma capa de chuva.
"Você enlouqueceu?", perguntou. “Nesta região não chove há cinco anos, e a subida vai lhe matar de calor!” 
"Estou resfriado, padre. Se vamos pedir chuva a Deus, já imaginou a volta da montanha? Vai ser tal a enxurrada que preciso estar preparado".
Neste momento, ouviu-se um grande estrondo no céu e as primeiras gotas começaram a cair. Bastou a fé de um menino para realizar um milagre que mesmo os mais preparados não estavam realmente acreditando. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Como sobrevivemos?


llRecebo pelo correio três litros de produtos que substituem o leite. Uma companhia norueguesa quer saber se estou interessado em investir na produção deste novo tipo de alimento, já que, conforme o parecer do especialista David Rietz, “TODO (as maiúsculas são dele) leite de vaca tem 59 hormônios ativos, muita gordura, colesterol, dioxinas, bactérias e vírus”. 
Penso no cálcio que, desde criança, minha mãe me dizia que era bom para os ossos, mas o especialista se adiantou a mim: “Cálcio? Como é que as vacas conseguem adquirir suficiente cálcio para sua volumosa estrutura óssea? Das plantas!” Claro, o novo produto é feito à base de plantas, e o leite é condenado com base em um sem número de estudos feitos nos mais diversos institutos espalhados pelo mundo. 
E a proteína? David Rietz é implacável: “sei que chamam o leite de carne líquida (nunca ouvi esta expressão, mas ele deve saber o que está falando) por causa da alta dose de proteína ali contida. Mas é a proteína que faz com que o cálcio não possa ser absorvido pelo organismo. Países que tem uma dieta rica em proteínas também tem um alto índice de osteoporose (ausência de cálcio nos ossos)”.
Nesta mesma tarde, recebo de minha mulher um texto encontrado na internet: 
“As pessoas que hoje tem entre 40 e 60 anos andavam em carros que não tinham cinto de segurança, apoio de cabeça, ou airbag. As crianças iam soltas no banco de trás, fazendo a maior arruaça e se divertindo aos pulos”. 
“Os berços eram pintados com tintas coloridas”, “duvidosas”, já que podiam ter chumbo ou outro elemento perigoso.”
Eu por exemplo, sou parte de uma geração que fazia os famosos carrinhos de rolimã (não sei como explicar isso para a geração de hoje – digamos que eram bolas de metal presas entre dois aros de ferro) e descíamos as ladeiras de Botafogo, usando os sapatos como freio, caindo, se machucando, mas orgulhosos da aventura em alta velocidade. 
O texto continua:
“Não havia celular, nossos pais não tinham como saber onde estávamos: como era possível? As crianças jamais tinham razão, viviam de castigo, e nem por isso tinham problemas psicológicos de rejeição ou falta de amor. Na escola existiam os bons e os maus alunos: os primeiros passavam para a próxima etapa, os segundos eram reprovados. Não se procurava um psicoterapeuta para estudar o caso – exigiam apenas que se repetisse o ano”.
E mesmo assim sobrevivemos com alguns joelhos arranhados, e poucos traumas. Não apenas sobrevivemos, como nos lembramos, com saudade, do tempo em que leite não era veneno, em que a criança precisava resolver seus problemas sem ajuda, brigar quando necessário, e passar grande parte do dia sem jogos eletrônicos, inventando brincadeiras com os amigos. 
Mas voltemos ao tema inicial da coluna: resolvi experimentar o novo e milagroso produto que substitui o leite assassino. 
Não consegui passar do primeiro gole.
Pedi que minha mulher e minha empregada experimentassem, sem explicar o que era aquilo, e as duas disseram que jamais tinham provado algo tão ruim na vida. 
Fico preocupado com as crianças de amanhã, com seus jogos eletrônicos, pais com celulares, psicoterapeutas ajudando em cada derrota, e – sobretudo – sendo obrigadas a beber esta “poção mágica” que as manterão sem colesterol, osteoporose, 59 hormônios ativos, toxinas. 
Viverão com muita saúde, muito equilíbrio, e, quando crescerem, descobrirão o leite (a esta altura, possivelmente uma bebida fora da lei). Quem sabe um cientista de 2050 se encarregará de resgatar algo que é consumido desde o início dos tempos? 
Ou o leite será obtido apenas através de traficantes de drogas?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para uma mulher que é todas as mulheres


llUma semana depois de terminada a feira de livros de Frankfurt de 2003, recebo um telefonema de meu editor da Noruega: os organizadores do concerto a ser realizado para o prêmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi, solicitam que eu escreva um texto para o evento. 
É uma honra que eu não devo recusar, já que Shirin Ebadi é um mito: uma mulher de 1,50m de altura, mas com estatura suficiente para fazer com que sua voz, em defesa dos direitos do homem, seja ouvida nos quatro cantos do mundo. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade que me deixa um pouco apreensivo – o evento será transmitido em 110 países, e eu tenho apenas dois minutos para falar sobre alguém que dedicou sua vida inteira ao próximo. Caminho pelas florestas ao lado do moinho onde vivo quando estou na Europa, penso várias vezes em telefonar dizendo que estou sem inspiração. Entretanto, o mais interessante na vida são os desafios que enfrentamos, e termino aceitando o convite.
Viajo para Oslo em 9 de dezembro, e no dia seguinte – um lindo dia de sol – estou na plateia, na cerimônia de entrega do prêmio. As amplas janelas da Prefeitura permitem ver o porto onde mais ou menos na mesma época, 21 anos atrás, eu estava sentado com minha mulher, olhando o mar gelado, comendo camarões que tinham acabado de chegar nos navios pesqueiros. Penso no longo percurso que me levou daquele porto até aquela sala, mas as lembranças do passado são interrompidas pelo soar de trombetas, a entrada da rainha e da família real. O comitê organizador entrega o prêmio, Shirin Ebadi faz um veemente discurso denunciando o uso do terror como justificativa para a criação de um estado policial no mundo.
À noite, no concerto em homenagem ao premiado, Catherine Zetha-Jones anuncia meu texto. Neste momento, aperto um botão do meu celular, o telefone soa no velho moinho (tudo já previamente combinado), e minha mulher passa a estar ali comigo, escutando a voz de Michael Douglas enquanto ele lê minhas palavras.
A seguir, o texto que escrevi – e que penso se aplicar a todos aqueles que lutam por um mundo melhor:
Disse o poeta Rumi: a vida é como se um rei enviasse alguém a um país para realizar determinada tarefa. A pessoa vai e faz uma centena de coisas – mas se não tiver feito aquilo que lhe foi pedido, é como se não tivesse feito absolutamente nada.
Para a mulher que entendeu sua tarefa. 
Para a mulher que olhou para a estrada diante dos seus olhos, e entendeu que sua caminhada ia ser muito difícil. 
Para a mulher que não procurou minimizar estas dificuldades: ao contrário, as denunciou e fez com que fossem visíveis.
Para a mulher que deixou menos solitários os que estão sós, que alimentou os que tinham fome e sede de justiça, que fez o opressor sentir-se tão mal como o oprimido. 
Para a mulher que sempre mantém suas portas abertas, suas mãos trabalhando, seus pés em movimento. 
Para a mulher que personifica os versos de outro poeta persa, Hafez, quando diz: nem mesmo sete mil anos de alegria podem justificar sete dias de repressão.  
Para a mulher que está aqui esta noite: que ela seja cada um de nós, que seu exemplo se multiplique que ela ainda tenha muitos dias difíceis pela frente, de modo que possa completar seu trabalho. Assim, para as próximas gerações, o significado de injustiça será encontrado apenas nas definições dos dicionários, e jamais na vida de seres humanos. 
Que sua caminhada seja lenta, porque seu ritmo é o ritmo da mudança.
E a mudança, a verdadeira mudança, sempre leva muito tempo para acontecer.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O respeito ao mistério


  Gregos foram os grandes mestres em descrever o comportamento humano através de pequenas histórias, que costumamos chamar de “mitos”. Todas as gerações que vieram depois deles, da psicanálise de Freud (com o complexo de Édipo, por exemplo), aos filmes de Hollywood (como o Morpheus de “Matrix”) terminaram por beber desta fonte. 
Durante grande parte de minha vida, uma destas histórias me deixava muito intrigado: o mito de Psyche. 
Era uma vez... uma linda princesa, admirada por todos, mas que ninguém ousava pedir sua mão em casamento. Desesperado, o rei consultou o deus Apolo; esse disse que Psyche deveria ser deixada sozinha, vestida de luto, no alto de uma montanha. Antes que o dia raiasse, uma serpente viria a seu encontro para desposá-la. O rei obedeceu, e por toda à noite a princesa esperou, aterrorizada e morta de frio, a chegada de seu marido. 
Terminou adormecendo; ao despertar, estava em um lindo palácio, transformada em rainha. Todas as noites seu marido vinha a seu encontro, faziam amor, mas ele havia imposto uma única condição: Psyche podia ter tudo o que desejasse, mas devia demonstrar total confiança, e jamais poderia ver seu rosto. 
A moça viveu muito tempo feliz; tinha conforto, carinho, alegria, estava apaixonada pelo homem que lhe visitava todas as noites. Entretanto, vez por outra tinha medo de estar casada com uma serpente horrorosa. Certa madrugada, quando o marido dormia, com uma lanterna iluminou a cama; e viu deitado ao seu lado, Eros (ou Cupido) - um homem de incrível beleza. A luz o despertou, ele descobriu que a mulher que amava não era capaz de cumprir seu único desejo, e desapareceu.
Sempre que eu lia este texto, me perguntava: será que não podemos nunca descobrir a face do amor? 
Foi preciso que muitos anos passassem por debaixo da ponte de minha vida, até compreender que o amor é um ato de fé em outra pessoa, e seu rosto deve continuar envolto em mistério. Ele deve ser vivido e desfrutado a cada momento, mas sempre que tentemos entendê-lo, a magia some. 
Quando aceitei isso, passei também a deixar que minha vida fosse guiada por uma linguagem estranha, que chamo de “sinais”. Sei que o mundo está falando comigo, eu preciso escutá-lo, e se assim fizer, serei sempre guiado em direção ao que existe de mais intenso, mais apaixonado, e mais belo. Claro que não é fácil, e às vezes sinto-me como Psyche no penhasco, com frio e terror; mas se sou capaz de passar aquela noite, e entregar-me ao mistério e à fé na vida, termino sempre por acordar em um palácio. Tudo que preciso é confiar no Amor, mesmo correndo o risco de errar. 
Concluindo o mito grego: Desesperada para ter seu amor de volta, Psyche se submete a uma série de tarefas que Afrodite (ou Vênus), mãe de Cupido (ou Eros), invejosa de sua beleza, lhe impõe – uma dessas tarefas era a de que entregasse um pouco de sua beleza para ela. Psyche fica curiosa com a caixa que conteria a beleza da Deusa e novamente não consegue lidar com o Mistério – resolve abri-la – na caixa nada encontrou de beleza, mas sim um infernal sono que a deixou inerte, sem movimentos. 
Eros/Cupido também está apaixonado, arrependido por não ter sido mais tolerante com sua mulher. Consegue entrar no castelo e despertá-la de seu sono profundo com a ponta de sua flecha e mais uma vez lhe diz – quase morreste devido a sua curiosidade – esta a grande contradição, Psyche que buscava encontrar segurança no conhecimento encontrou insegurança.
 Os dois vão até Júpiter, o deus supremo, implorar que esta união jamais possa ser desfeita. 
Júpiter advogou com empenho a causa dos amantes que conseguiu a concordância de Vênus. A partir deste dia, Psyche (a essência do ser humano) e Eros (o amor) estão para sempre juntos. Quem não aceitar isso, e procurar sempre uma explicação para as mágicas e misteriosas relações humanas, irá perder o que a vida tem de melhor. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O arco, a flecha e o alvo


llTodos nós somos arqueiros da vontade Divina. E, portanto, é indispensável saber que instrumentos temos à nossa disposição. 

llO arco 
O arco é a vida: dele vem toda a energia.
A flecha irá partir um dia. O alvo está longe. 
Mas sua vida permanecerá sempre com você, e é preciso saber cuidá-la.  
Precisa de períodos de inação – um arco que sempre está armado, em estado de tensão, perde sua potência. Portanto, aceite o repouso para recuperar sua firmeza: assim, quando você esticar a corda, estará com sua força intacta. 
O arco não tem consciência: ele é um prolongamento da mão e do desejo do arqueiro. Serve para matar ou para meditar. Portanto, seja sempre claro em suas intenções. 
Um arco tem flexibilidade, mas também tem um limite. Um esforço além da sua capacidade irá quebrá-lo, ou deixar exausta a mão que o segura. Da mesma maneira, não exija mais do seu corpo do que ele pode lhe dar. E entenda que um dia a velhice chegará – e isso é uma benção, e não uma maldição. 
Para manter com elegância o arco aberto, faça com que cada parte dê apenas o necessário, e não disperse suas energias. Assim, você poderá disparar muitas flechas sem se cansar. 

llA flecha
A flecha é a sua intenção. É o que une a força do arco com o centro do alvo. 
A intenção do ser humano tem que ser cristalina, reta, bem equilibrada. 
Uma vez que ela parte, não voltará, então é melhor interromper um processo – porque os movimentos que o levaram até ele não estavam precisos e corretos – do que agir de qualquer maneira, só porque o arco já estava retesado e o alvo estava esperando.  
Mas jamais deixe de manifestar sua intenção se a única coisa que o paralisa é o medo de errar. Se fizer os movimentos corretos, abra sua mão e solte a corda, dê os passos necessários e enfrente seus desafios. Mesmo que não atinja o alvo, você saberá corrigir sua pontaria da próxima vez.  Se não arriscar, jamais saberá quais as mudanças que eram necessárias. 

llO alvo 
O alvo é o objetivo a ser alcançado. 
Foi escolhido por você. Nisso reside à beleza do caminho: você não pode jamais desculpar-se, dizendo que o adversário era mais forte. Porque foi você que escolheu seu alvo, e é responsável por ele.  
Se olhar o alvo como inimigo, poderá até mesmo acertar o seu tiro, mas não conseguirá melhorar nada em você mesmo. Passará sua vida tentando colocar apenas uma flecha no centro de uma coisa de papel ou madeira, o que é absolutamente inútil. E quando estiver com outras pessoas, viverá reclamando que não faz nada de interessante. 
Por isso, você precisa escolher seu objetivo, dar o melhor de si para atingi-lo, olhando-o com respeito e dignidade: precisa saber o que ele significa, quanto custou do seu esforço, do seu treinamento, da sua intuição.
Ao olhar o alvo, não se concentre apenas nele, mas em tudo que acontece ao seu redor: porque a flecha, ao ser disparada, irá encontrar-se com fatores que você não conta, como o vento, o peso, a distância. 
O objetivo só existe, na medida em que um homem é capaz de sonhar, atingi-lo. O que justifica a sua existência é o desejo - ou ele seria uma coisa morta, um sonho distante, um devaneio.  
Assim, da mesma maneira que a intenção busca seu objetivo, o objetivo também busca a intenção do homem, porque é ela que dá sentido a sua existência: já não é mais apenas uma ideia, mas o centro do mundo de um arqueiro.