quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Quatro histórias da Cristandade

llNo caminho de cada um
O pastor Olivier era considerado o mais inspirado pregador das redondezas. Falava como se tivesse contato com Deus. 
“Nada pior do que tentar repetir o comportamento dos grandes, se você não tiver a mesma disposição para agir  que eles tiveram”, dizia Olivier. 
Quando morreu, seu filho Andrew ocupou o lugar. Os paroquianos ficaram preocupados; seria difícil suceder um  homem tão conectado com Deus. E, querendo dar um pouco de apoio moral ao jovem, uma mulher tentou consolá-lo.
“Lembre-se que você deve seguir seu próprio  caminho”, disse ela. “Jamais tente ser igual ao seu pai”.
“Ao contrário; eu sou exatamente como meu pai”,  respondeu Andrew. “Ele nunca tentou me imitar; por causa disso, eu jamais tentarei imitá-lo”.
E os paroquianos tiveram certeza de que estavam diante de um grande pregador.

llTambém estou lá fora
Na parábola do Filho Pródigo, o irmão que sempre  obedeceu ao pai fica indignado ao ver que o filho rebelde é  recebido com festa e alegria. Da mesma maneira, muitas pessoas obedientes à palavra do Senhor, terminam se transformando em carrascos impiedosos daqueles que algum dia se afastaram da Lei.  
Na pequena cidade do interior, um conhecido pecador foi impedido de entrar na igreja.
 Indignado, começou a rezar: 
“Jesus, me escuta. Não querem me deixar entrar em sua casa, porque acham que não sou digno”.
“Não se preocupe, meu filho”, respondeu Jesus. “Eu também estou do lado de fora, junto com aqueles com quem sempre estive – os pecadores como você”. 

llSeguindo o impulso
O padre Zeca, da Igreja da Ressurreição em Copacabana, conta que certa vez estava em um ônibus, quando  de repente escutou uma voz dizendo que ele devia levantar-se  e pregar a palavra de Cristo ali mesmo. 
Padre Zeca começou a conversar com a voz: “vão me achar ridículo, isto não é lugar para sermão”, disse.
 Mas algo dentro dele insistia, era preciso falar. “Sou tímido, por favor, não me peça isto”, implorou.  
O  impulso interior persistia. 
Então ele lembrou-se de sua promessa - abandonar-se a todos os desígnios de Cristo. Levantou-se, morrendo de vergonha, e começou a falar do Evangelho. Todos escutaram em silêncio. Ele olhava cada passageiro, e eram raros os que desviavam os olhos.  
Disse tudo que sentia, terminou seu sermão, e sentou-se de novo. Até hoje não sabe que tarefa cumpriu naquele momento; mas tem absoluta certeza de que cumpriu uma tarefa. 

llDo apostolado
Do monge Thomas Merton, no livro “Obra Aberta”:
“O verdadeiro apóstolo não se preocupa em pregar uma doutrina, liderar um movimento, recrutar homens para uma organização; ele apenas fala de Deus, e o resto vem por acréscimo”.
“O apóstolo não tem ambições de converter ninguém,  não quer usar fórmulas já gastas, não tenta vender o que não  tem preço, não se glorifica, não se desculpa. Ele está pregando apenas por amor. Esta é sua forma de expandir o êxtase que sente na presença de Cristo”.  
“Um apóstolo possui uma fé tão profunda, que mesmo que ninguém acreditasse, ele continuaria pregando”.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A história de Buda - I

llSidarta – cujo nome significa “aquele cujo objetivo é atingido” - nasceu em uma família nobre, por volta do ano 560 A . C. ,na cidade de Kapilavastu, no Nepal. 
Conta a lenda que, no momento em que sua mãe fazia amor com seu pai, ela teve uma visão: seis elefantes, cada um com uma flor de lótus nas costas, caminhavam em sua direção. No instante seguinte, Sidarta era concebido.
Durante sua gestação, a rainha Maya, sua mãe, resolveu chamar os sábios de seu reino para interpretar a visão que tivera, e eles foram unânimes em afirmar: a criança que estava para vir ao mundo seria um grande rei ou um grande sacerdote. 
Sidarta teve uma infância e uma adolescência muito semelhante à nossa: seus pais não queriam, de jeito nenhum, que ele tomasse conhecimento da miséria do mundo. Assim, vivia confinado entre os muros do gigantesco palácio onde seus pais habitavam, e onde tudo parecia perfeito e harmonioso. Casou, teve um filho, e conhecia apenas os prazeres e as delícias da vida. 
Entretanto, quando completou 29 anos, pediu certa noite a um dos guardas que o levasse até a cidade. O guarda reclamou, já que o rei podia ficar furioso, mas Sidarta foi tão insistente que o homem terminou por ceder, e os dois saíram. 
A primeira coisa que viram foi um velho mendigo, de olhar triste, pedindo esmolas. Mais adiante, encontrou um grupo de leprosos, e logo em seguida, um cortejo fúnebre passou. “Nunca tinha visto isso!”, deve ter comentado com o guarda, que possivelmente replicou: “Pois trata-se de velhice, doença, e morte.” Voltando para o palácio, cruzaram com um homem santo, de cabeça raspada e vestido apenas com um manto amarelo, que dizia: “ a vida me aterroriza, então renunciei a tudo, de modo que não precise encarnar-me novamente e sofrer mais uma vez a velhice, a doença e a morte”. 
Na noite seguinte, Sidarta esperou que a mulher e o filho dormissem. Entrou silenciosamente no quarto, beijou-os, e pediu de novo ao guarda que o conduzisse fora do palácio; ali, entregou-lhe sua espada com o punho cheio de pedras preciosas, sua roupa feita do tecido mais fino que a mão humana podia tecer, pedindo para que devolvesse tudo a seu pai; em seguida, raspou a cabeça, cobriu o corpo com um manto amarelo, e partiu em busca de uma resposta para as dores do mundo. 
Por muitos anos vagou pelo norte da Índia, encontrando-se com monges e homens santos que caminhavam por ali, e aprendendo as tradições orais que falavam de reencarnação, ilusão, e pagamento dos pecados de vidas passadas (carma). Quando julgou que já tinha aprendido o bastante, construiu para si mesmo um abrigo na margem do Rio Nairanjana, onde vivia fazendo penitência e meditando. 
Seu estilo de vida e sua força de vontade terminaram atraindo a atenção de outros homens em busca da verdade, que vieram ao seu encontro em busca de conselhos espirituais. Mas, depois de seis longos anos, tudo que Sidarta podia perceber era que seu corpo estava cada vez mais fraco, e as constantes infecções não lhe permitiam meditar como devia. 
Conta a lenda que, certa manhã, ao entrar no rio para fazer sua higiene pessoal, já não teve forças para levantar-se; quando ia morrendo afogado, uma árvore curvou seus ramos, permitindo que ele se agarrasse, e não fosse levado pela correnteza. Exausto, conseguiu chegar até a margem, onde desmaiou. 
Horas depois, passou pelo local um camponês que vendia leite, e ofereceu-lhe um pouco de alimento; Sidarta aceitou, para horror dos outros homens que ali viviam com ele. Achando que aquele santo não tinha conseguido mais forças para resistir à tentação, resolveram deixá-lo de imediato. Mas ele bebeu de bom grado o leite que lhe era oferecido, achando que ali estava um sinal de Deus e uma benção dos céus. 

(termina na próxima semana)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Duas histórias reais

O velho que atrapalhava tudo
G.I. Gurdjeff foi uma das mais intrigantes personalidades deste século. Bastante conhecido nos círculos que estudam ocultismo, é ainda ignorado como um importante estudioso da psicologia humana. 
A história a seguir passa-se quando ele, já morando em Paris, criou seu famoso Instituto para o desenvolvimento do homem. 
As aulas eram sempre bem concorridas. Mas entre os alunos, havia um velho – sempre de mau humor – que não parava de criticar o que ali era ensinado. Dizia que Gurdjeff era um charlatão, seus métodos não tinham qualquer base científica, e o fato de considerar-se um “mago” nada tinha a ver com sua verdadeira condição. Os alunos sentiam-se importunados pela presença daquele velho, mas Gurdjeff parecia não se importar. 
Um belo dia, ele abandonou o grupo. Todos se sentiram aliviados, achando que dali por diante as aulas seriam mais tranquilas e produtivas. Para surpresa dos alunos, porém, Gurdjeff foi até a casa do homem, e pediu para que voltasse a frequentar o Instituto. 
O velho recusou-se no início, e só aceitou quando lhe foi oferecido um salário para assistir as aulas. 
A história logo se espalhou. Os estudantes, revoltados, queriam saber como um mestre podia recompensar alguém que não tinha aprendido coisa alguma. 
- Na verdade, eu o estou pagando para que continue a dar suas aulas – foi a resposta. 
- Como? – insistiram os alunos. – Tudo que ele faz vai totalmente contra aquilo que o senhor nos está ensinando!
- Exatamente – comentou Gurdjeff. – Sem ele por perto, vocês custariam muito a aprender o que é raiva, intolerância, impaciência, falta de compaixão. 
“Entretanto, com este velho servindo de exemplo vivo, mostrando que tais sentimentos tornam a vida de qualquer comunidade um inferno, o aprendizado é muito mais rápido”. 
“Vocês me pagam para aprender a viver em harmonia, e eu contratei este homem para ajudar a ensiná-los – pelo caminho oposto”.

Como atingir a imortalidade
Ainda  jovem,  Beethoven resolveu  escrever  alguns  improvisos sobre músicas de Pergolesi. Dedicou-se durante meses ao trabalho, e finalmente teve coragem de divulgá-lo.
Um crítico publicou uma página inteira num jornal alemão, atacando com ferocidade a música do compositor. 
Beethoven, porém, não se abalou com os comentários. Quando seus amigos insistiram para que respondesse ao crítico, ele apenas comentou:
- O que preciso fazer é continuar meu trabalho. Se a música que componho for tão boa como penso, ela irá sobreviver ao jornalista. Se tiver a profundidade que espero que tenha, ela irá sobreviver ao próprio jornal. Então, se este ataque feroz ao que faço for lembrado no futuro, será apenas para ser usado como exemplo da imbecilidade dos críticos. 
Beethoven estava certíssimo. Mais de cem anos depois, a tal crítica foi lembrada num programa de rádio em São Paulo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pequeno sítio e a vaca

Existem certas histórias que circulam pela Internet de uma maneira quase obsessiva. Eu mesmo já recebi várias vezes, coisas que escrevi neste espaço. Um interessante intercâmbio tem se estabelecido entre os leitores e a coluna, e isso só enriquece o meu trabalho. 
A seguinte história merece ser recontada:
Um filósofo passeava por uma floresta com um discípulo, conversando sobre a importância dos encontros inesperados. Segundo o mestre, tudo que está diante de nós nos dá uma chance de aprender ou ensinar. 
Neste momento, cruzavam a porteira de um sítio que, embora muito bem localizado, tinha uma aparência miserável. 
- Veja este lugar – comentou o discípulo. – O senhor tem razão: acabo de aprender que muita gente está no Paraíso mas não se dá conta, e continua a viver em condições miseráveis. 
- Eu disse aprender e ensinar – retrucou o mestre. – Constatar o que acontece não basta: é preciso verificar as causas, pois só entendemos o mundo quando entendemos as causas. 
Bateram à porta, e foram recebidos pelos moradores: um casal e três filhos, com as roupas rasgadas e sujas. 
- O senhor está no meio desta floresta, e não há qualquer comércio nas redondezas – disse o mestre para o pai de família. – Como sobrevivem aqui?
 E o senhor, calmamente,  respondeu: 
 -  Meu amigo, nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos; com a outra parte nós produzimos queijo, coalhada, manteiga para o nosso consumo. E assim vamos sobrevivendo. 
 O filósofo agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos, e foi embora. No meio do caminho, disse ao discípulo: 
 - Pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali em frente, e jogue-a lá em baixo.
- Mas ela é a única forma de sustento daquela família!
O filósofo permaneceu mudo. Sem ter outra alternativa, o rapaz fez o que lhe era pedido, e a vaca morreu na queda.
A cena ficou marcada em sua memória. Depois de muitos anos, quando já era um empresário bem sucedido, resolveu voltar ao mesmo lugar, contar tudo à família, pedir perdão, e ajudá-los financeiramente. 
Qual foi sua surpresa ao ver o local transformado num belo sitio, com árvores floridas, carro na garagem,  e algumas crianças brincando no jardim. Ficou desesperado, imaginando que a família humilde tivera que vender o sítio para sobreviver. 
Apertou o passo, e foi recebido por um caseiro muito simpático.
- Para onde foi a família que vivia aqui há dez anos? – perguntou. 
- Continuam donos do sitio – foi a resposta. 
 Espantado, ele entrou correndo na casa, e o senhor o reconheceu. Perguntou como estava o filósofo, mas o rapaz estava ansioso demais para saber como conseguira melhorar o sítio, e ficar tão bem de vida:
- Bem, nós tínhamos uma vaca, mas ela caiu no precipício e morreu – disse o senhor. – Então, para sustentar minha família, tive que plantar ervas e legumes. As plantas demoravam a crescer, e comecei a cortar madeira para venda. Ao fazer isto, tive que replantar as árvores, e necessitei comprar mudas. Ao comprar mudas, lembrei-me da roupa ade meus filhos, e pensei que podia talvez cultivar algodão. Passei um ano difícil, mas quando a colheita chegou, eu já estava exportando legumes, algodão, ervas aromáticas. 
Nunca havia me dado conta de todo o meu potencial aqui: ainda bem que aquela vaquinha morreu!