sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

No final do túnel negro


- Vi apenas um túnel. 
No bar em Sibiu, na Transilvânia, Sorin olha-me no fundo dos olhos. Vai um pouco mais adiante. 
- Vi um túnel negro com um homem no final, que me fazia sinais.  
Eu espero. Temos todo o tempo do mundo e eu me lembro que, quando estive na mesma situação, vi também um túnel, só que levava até um hotel no Rio de Janeiro, o Hotel Glória. Olhei aquele hotel, esperei o pior, e pensei: “não é justo: tenho apenas 26 anos!”. Justo ou não, na madrugada do dia 27 de maio de 1974, eu estava diante da morte, e não conseguia ver o que acontecia ao meu lado. Só o túnel e o hotel. Mas minha história não vem ao caso; serve apenas para dizer que entendo perfeitamente o que Sorin está me contando neste bar perdido no meio dos Montes Cárpatos. 
- Vi apenas um túnel negro, com um homem apontando uma arma para mim, e dizendo para que eu descesse do carro. 
O calvário de Sorin Miscoci começou no dia 28 de março de 2005, perto de Bagdad. Tinha sido designado para passar uma semana ali, a pedido de uma estação de TV da Romênia. Terminou sequestrado por 55 dias. 
- Mais tarde, quando fui libertado, os agentes de segurança americanos me perguntaram quantas pessoas estavam ali. E eu disse: uma. Eles riram e disseram que não podia ser assim. Foi o psicólogo quem me ajudou, explicando que em situações como esta nada que está em volta tem importância. Você vê apenas o foco da crise, o que lhe ameaça, e simplesmente esquece todo o resto.
Sorin acaba de casar-se com Andréa, que lhe acaricia a mão. Estamos viajando juntos há três dias, e continuaremos outra semana atravessando os montes Cárpatos. Eu conhecia sua história, mas esperei até que estivesse em sua cidade Natal para perguntar os detalhes. Cristina Topescu, uma amiga de longa data, jornalista da mesma TV para a qual Sorin trabalha, também está na mesa. Conta que, na hora de mobilizar o país, poucos colegas se apresentaram para ir falar com o Presidente da República, com medo de perder o emprego. 
- O pior foi quando eu vi Sorin com o macacão laranja e a cabeça raspada, em um vídeo que foi entregue à Al-Jazeera (canal árabe baseado no Qatar) – diz Cristina. – Era um sinal de que a execução não devia tardar.
- Eu pedi apenas uma coisa a Deus: morrer com um tiro no coração. Já tinha visto vídeos de prisioneiros sendo decapitados; pedi, implorei para ser fuzilado – completa Sorin. 
Andréa lhe dá um beijo. Ele sorri, pergunta se eu quero continuar naquele restaurante, ou se devemos ir até o único karaokê de Sibiu. Prefiro cortar a conversa por ali, melhor cantarmos juntos. Nosso grupo se levanta, tento pagar a conta, mas ela foi oferecida pelo restaurante, em homenagem ao herói local, aquele que sobreviveu apesar de tudo. 
No caminho da discoteca, penso no túnel negro: sem querer romantizar uma situação dramática, entendo que isso se passa com todo mundo. Quando estamos diante de algo que realmente nos ameaça, é impossível olhar à volta, embora este seja o procedimento correto e mais seguro. Não conseguimos ver claro, usar a lógica, conseguir informações que podem ajudar a nós mesmos e aos que procuram nos tirar daquela situação. No amor e na guerra somos humanos, graças a Deus. 
Chegamos ao karaokê, bebemos um pouco mais, cantamos Elvis, Madonna, Ray Charles. Nosso grupo é interessante: Lacrima, que foi abandonada pela mãe quando tinha apenas dois meses. Leonardo, que vem de uma depressão de dois anos. Cristina Topescu, que superou momentos difíceis recentemente. Sorin com seus 55 dias de cativeiro, e Andrea, que quase perdeu a pessoa que amava. Eu, com minhas cicatrizes no corpo e na alma. 
E mesmo assim bebemos, cantamos, celebramos a vida.   Ter amigos como estes me dá mais do que esperança; me faz entender que os verdadeiros sobreviventes jamais serão vítimas de seus algozes, porque conseguem manter o que há de mais importante no ser humano: a alegria.  
E onde houver alegria depois da tragédia, haverá sempre um exemplo a ser seguido. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um mergulho na infância


llHans Christian Andersen (1805-1875) foi o escritor dinamarquês que com suas histórias enriqueceu a infância de muitas gerações. Andersen nasceu em Odense: seu pai era um sapateiro, a mãe trabalhava como lavadeira, e durante a noite contava ao filho as histórias do folclore dinamarquês. Foi ela quem encorajou Andersen a escrever suas próprias fábulas e promover pequenos espetáculos com marionetes. 
Não há maior homenagem à Andersen do que dividir com meus leitores o seu “O soldadinho de chumbo”, que eu costumava chorar sempre que ouvia minha mãe contando. A seguir, uma versão resumida:
Era uma vez 25 soldados de chumbo, todos irmãos, como  brotos que vinham da mesma planta. Cada um deles carregava seu fuzil, vestidos em seus lindos uniformes vermelho e azul. As primeiras palavras que o pequeno batalhão ouviu vieram dos lábios de um menino:  
“Soldados, soldados!” 
O garoto festejava seu presente de aniversário. O exército era exatamente igual, com exceção de um soldado, que tinha apenas uma perna, pois o chumbo acabara antes que estivesse pronto. Mas ele se equilibrava tão bem, que o menino resolveu guardá-lo. 
Sobre a mesa havia muitos outros brinquedos, sendo que o mais atraente era um encantador castelo de papelão, onde uma bailarina - também de papel, com um vestido de gaze muito fino, e uma lantejoula muito brilhante - estendia seus delicados braços para o céu. Seu passo era tão belo, se alçava tão alto no ar, que o soldado de chumbo imaginou que a ela também faltasse uma perna. 
“Seria a esposa mais adequada para mim’ – pensou. Mas ela vive em um palácio.” 
Resolveu esconder seu amor, e passar o resto da vida apenas contemplando a pequena bailarina. 
Toda noite, quando as pessoas da casa se retiravam para dormir, chegava a hora em que os brinquedos brincavam, e se divertiam visitando uns aos outros, fazendo batalhas ou dando bailes. Os soldados de chumbo se aborreciam em sua caixa, mas tinham sido educados para ter disciplina e educação.
Certo dia, a empregada viu que havia um soldado aleijado, e o jogou pela janela. Meninos que passavam viram o brinquedo quebrado o colocaram em um barco de papel, que seguiu pela sarjeta até o esgoto – que por sua vez, desembocou em um rio. 
Ali, um peixe engoliu o soldado, mas ele continuava impávido, com seu fuzil ao ombro, e sonhando com os dias felizes que passara junto do seu amor. 
O peixe terminou sendo pescado, e vendido para a mesma casa onde, um dia, o menino recebera 25 soldadinhos de presente. A mesma empregada que o tinha jogado fora, achou-o no ventre do peixe, e desta vez jogou-o no fogo. 
Antes de cair entre as chamas, ele pode ver, pela última vez, as mesmas crianças, os mesmos brinquedos sobre a mesa e o formoso castelo com a linda bailarina na porta. 
E viu, nos olhos da bailarina, uma lágrima de papelão – ela também havia sentido sua falta. 
Pouco a pouco, circundado pelas chamas, ele começou a derreter-se. À medida que suas roupas perdiam as cores, ele procurava manter seu porte marcial, com os olhos fixos naquela a quem jurara seu amor eterno. Os dois se contemplavam, tristes por estarem longe, contentes pela oportunidade de se encontrarem mais uma vez. Não se sabe como, mas uma corrente de vento atravessou a sala e arrebatou a pequena bailarina, que voou como uma fada e também caiu na lareira. 
Dizem que Deus é generoso com os que amam, e por isso sempre dá oportunidade de que estejam juntos. 
No dia seguinte, quando a empregada retirava as cinzas, notou um pequeno coração feito de chumbo, tendo no centro uma lantejoula que, ela sabia, pertencia a outro brinquedo que estava na mesa das crianças. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O profeta


Em seu clássico livro “O Profeta”, Khalil Gibran - talvez o mais conhecido escritor libanês contemporâneo - conta a história de Al-Mustafá, um homem que retorna à sua terra. Os habitantes da aldeia onde ficou todos estes anos pedem que ensine o que aprendeu. 
A seguir, alguns dos trechos (editados) deste clássico do século XX:

O matrimônio
Vocês nasceram juntos, e juntos estarão mesmo quando as asas brancas da morte terminem com seus dias – porque continuarão unidos na memória silenciosa de Deus. 
Mas que haja espaço entre os dois. Que o vento dos céus possa passar entre seus corpos. 
Amém, mas não transformem o amor em uma atadura.
Que um encha o copo do outro, mas que jamais bebam do mesmo copo. 
Cantem e dancem, estejam alegres, mas que cada um mantenha sua independência; as cordas de um alaúde estão sozinhas, embora vibrem com a mesma música. 
Entreguem o seu coração, mas não para que seu companheiro o possua – porque só a mão da Vida pode conter corações inteiros. 
Estejam juntos, mas não demasiados juntos – porque os pilares de um templo estão separados. 
O carvalho não cresce à sombra do cipreste, e o cipreste não consegue crescer à sombra do carvalho.  

Os filhos
Seus filhos não são seus filhos; são filhos e filhas da vida. Vieram através de vocês, mas não lhe pertencem. 
Podem dar seu amor, mas não seus pensamentos – porque eles têm seus próprios sonhos.
Podem proteger seus corpos, mas não suas almas – porque suas almas habitam na casa do amanhã, que mesmo em sonho vocês não podem visitar.  
Podem tentar ser como eles, mas não tentem fazer com que se comportem como vocês; porque a vida não retrocede, nem se deixa seduzir pelo dia de ontem. 
Vocês são o arco onde seus filhos, como flechas vivas, são impulsionados para adiante; deixem que a mão do Arqueiro trabalhe, porque assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco, que permanece estável. 

O amor
Quando o amor chamar, aceitem seu chamado, mesmo que o caminho seja duro, difícil.
E quando suas asas se abrirem, entreguem-se, mesmo que a espada que está ali escondida termine provocando ferimentos.
E quando o amor disser algo, acreditem, mesmo que sua voz destrua seus sonhos, como o vento do norte devasta os jardins. 
Porque o amor glorifica e crucifica. Faz crescer os ramos, e os poda. Tritura os homens, até que estejam flexíveis e dóceis. Os queima em fogo divino, para que possa converter-se em um pão sagrado, que será consumido no banquete de Deus.
Entretanto, se tiverem medo, e quiserem encontrar no amor apenas a paz e o prazer, melhor que se afastem de sua porta, e procurem outro mundo, onde poderão rir mas sem toda alegria, e poderão chorar mas sem usar todas as lágrimas. 
O amor não dá nada e não pede nada além de si mesmo. O amor não possui nem é possuído – porque ele se basta.  
E não tentem dirigir o seu curso: porque se o amor achar que são dignos, ele os dirigirá até onde devem chegar.  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ao maior de todos


Atravessando a Avenida Copacaaca bana
llEu tinha editado, com meus próprios recursos, um livro chamado “Os Arquivos do Inferno”. Todos nós sabemos o quanto é difícil publicar um trabalho, mas existe algo ainda mais complicado: fazer com que ele seja colocado nas livrarias. Todas as semanas minha mulher ia visitar os livreiros em um lado da cidade, e eu ia para outra região fazer a mesma coisa.
Foi assim que, com exemplares de meu livro debaixo do braço, ela ia atravessando a Avenida Copacabana, e eis que Jorge Amado e Zélia Gattai estão do outro lado da calçada! Sem pensar muito, ela os abordou e disse que o marido era escritor. Jorge e Zélia (que provavelmente deviam escutar isso todos os dias) a trataram com o maior carinho, convidaram para um café, pediram um exemplar, e terminaram desejando que tudo corresse bem com minha carreira literária.
“Você é louca!” eu disse, quando ela voltou para casa. “Não vê que ele é o mais importante escritor brasileiro?”
“Justamente por isso”, respondeu ela. “Quem chega aonde ele chegou, precisa ter o coração puro.”

O recorte no envelope
As palavras de Christina não podiam ser mais acertadas: o coração puro. E Jorge, o escritor brasileiro mais conhecido no exterior, era (e é) a grande referência do que acontecia em nossa literatura.
Um belo dia, porém, “O Alquimista”, escrito por outro brasileiro, entra na lista dos mais vendidos da França, e em poucas semanas chega ao primeiro lugar.
Dias depois, recebo pelo correio um recorte da lista, junto com uma carta afetuosa sua, me cumprimentando pelo feito. Jamais entraria, no coração puro de Jorge Amado, sentimentos como o ciúme.
Alguns jornalistas – brasileiros e estrangeiros - começam a provocá-lo, fazendo perguntas maldosas. Jorge, em nenhum instante, se deixa levar pelo lado fácil da crítica destrutiva, e passa a ser meu defensor em um momento difícil para mim, já que a maior parte dos comentários sobre meu trabalho era muito dura.

O desespero de Anne
Recebo finalmente meu primeiro prêmio literário no exterior – mais precisamente, na França. Acontece que, no dia da entrega, estarei em Los Angeles por causa de compromissos assumidos anteriormente. Anne Carriére, minha editora, fica desesperada. Fala com os editores americanos, que se recusam a abrir mão das minhas conferências já programadas.
A data do prêmio chegando, e o premiado não poderá ir; o que fazer? Anne, sem me consultar, liga para Jorge Amado e explica a situação. Na mesma hora, Jorge se oferece para me representar na entrega do prêmio.
E não se limita a isso: telefona para o embaixador brasileiro e o convida, faz um lindo discurso, deixa todos os presentes emocionados.
O mais curioso de tudo isto, é que eu só iria conhecer Jorge Amado pessoalmente quase um ano depois da entrega do prêmio. Mas sua alma, ah, essa eu aprendera a admirar como eu admiro seus livros: um escritor famoso que jamais desprezava os principiantes, um brasileiro que ficava contente com o sucesso de seus conterrâneos, um ser humano sempre pronto a ajudar quando lhe pediam algo.
Obrigado, Jorge. Que o mundo cada vez conheça melhor seu trabalho, porque ele foi escrito com o talento de um gênio - por um homem de bem.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Histórias da América Latina


O poder da imagem
llUma lenda peruana nos fala de uma cidade onde todos eram felizes. Todos faziam o que desejavam, e se entendiam bem - menos o prefeito, que vivia infeliz porque não conseguia governar nada. A prisão estava vazia, o tribunal nunca era usado, e o tabelião não dava nenhum lucro porque a palavra valia mais que o papel. 
"Falta autoridade aqui", pensava o prefeito. E tentava, de todas as maneiras, fazer com que as pessoas obedecessem a leis absurdas criadas pelo governo central. Ninguém dava bola. 
Até que o prefeito teve uma ideia. Mandou vir operários de longe, que fecharam o centro da praça principal da cidadezinha com um tapume, e começaram a construir algo. Durante uma semana, ouviu-se martelos batendo, serras cortando madeira, vozes de comando dos capatazes.
 Certa tarde, o prefeito convidou a todos da cidade para a inauguração. Com toda solenidade, os tapumes foram retirados, e apareceu... uma forca. 
Novinha em folha, com a corda balançando ao vento, e as ferragens do alçapão bem lubrificadas. 
 A partir daquele momento, todo mundo que passava pela praça via a forca. As pessoas foram ficando tristes, sem ter certeza de que estavam agindo certo. Começaram a se perguntar o que aquela forca estava fazendo ali - e, com medo, passaram a ir na justiça resolver qualquer coisa que antes era resolvida de comum acordo. Passaram a ir ao tabelião, registrar documentos que antes eram substituídos pela palavra. E passaram a escutar o prefeito em tudo, com medo de ferir a lei.
A lenda termina dizendo que a forca nunca foi usada. Mas bastou sua presença para mudar tudo.  

Amaldiçoando à toa 
Um feiticeiro mexicano conduz seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho caminha com agilidade, enquanto seu aprendiz escorrega e cai a todo instante.  
O aprendiz blasfema, levanta-se, cospe no chão traiçoeiro, e continua a acompanhar seu mestre. 
Depois de longa caminhada, chegam a um lugar sagrado. Sem parar, o feiticeiro dá meia-volta e começa a viagem de volta.
  "Você não me ensinou nada hoje", diz o aprendiz, levando mais um tombo.
 "Ensinei sim, mas você parece que não aprende", responde o feiticeiro. "Estou tentando lhe ensinar como se lida com os erros da vida”.
 "E como lidar com eles?" 
 "Como deveria lidar com seus tombos. Ao invés de ficar amaldiçoando o lugar onde caiu, devia procurar aquilo que provocou a queda".

Dar também um pouco
Um grupo de estudantes uruguaios estava reunido numa casa de campo, quando o caseiro chegou - contando uma tragédia nas redondezas: uma casa incendiou-se, deixando mãe e filha desabrigadas. Imediatamente, uma das estudantes iniciou uma coleta, para ajudar a família a reconstruir sua casa.
 Entre os presentes estava um escritor pobre, e a moça resolveu não lhe pedir nada.
"Um momento", disse o escritor, quando ela ia passando adiante. 
"Também quero contribuir".
No minuto seguinte, escreveu em um papel o que havia acontecido, e colocou-o dentro do pote que estava sendo usado para arrecadar o dinheiro.
 "Quero dar a todos esta tragédia. Que ela seja sempre lembrada quando pensarmos nos pequenos incidentes de nossas vidas".

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Relembrando o feiticeiro mexicano


ll“Quando nasce o sol, eu vou trabalhar. Quando o sol se põe, volto para casa e descanso. Cavei o poço de onde tiro água para beber, e cultivo o campo que me dá o alimento. Agindo assim, estou em perfeita comunhão com o Criador – e nenhum rei pode fazer melhor que isso“.
Este antigo texto chinês também serve para sintetizar a filosofia de um dos mais importantes pensadores de minha geração, Carlos Castaneda. Seus ensinamentos, condensados em uma série de livros, sempre foram objeto de críticas e dúvidas – mas tiveram um impacto muito grande em minha vida. Como hoje em dia as pessoas já praticamente não sabem quem é Castaneda, transcrevo e comento alguns de seus trechos pelo menos uma vez por ano. Não sei se com isso conseguirei que não o esqueçam; mas pelo menos, ao folhear suas páginas, me deparo com uma obra que se renova a cada leitura. 

A energia está na busca da liberdade
Liberdade é a única verdadeira força que conheço. Liberdade de voar além dos próprios limites. Liberdade de deixar-se levar pelo vento, de dissolver-se. Liberdade de ser como a chama de uma vela que, apesar de estar sendo contemplada por bilhões de estrelas, não se deixa intimidar nem finge ser nada além do que é – uma simples vela.

A energia vem de aceitar-se a si mesmo
Não tem a menor importância o que você esconde ou mostra ao seu semelhante – porque você sabe quem é. E se não se aceita como tal, mesmo o mais profundo ensinamento filosófico será incapaz de ter qualquer efeito. Mas quem é você? 
Será que entende que neste momento está cercado pela eternidade, e pode usar sua energia a seu favor? 
Partindo do princípio que conhece suas limitações, passe também a conhecer todas as suas possibilidades, e poderá ser chamado de um guerreiro impecável. 
A diferença entre um guerreiro impecável e os outros, é que aquele sabe como usar a sua força. 

A energia do silêncio
Quando estamos quietos, nos damos conta de que alguém (ou alguma coisa) está procurando nos ensinar. Sempre que conseguimos parar nosso diálogo interior, algo de extraordinário termina acontecendo em nossas vidas. Descobrimos coisas que jamais pensamos conscientemente, mas que estão ali, prontas para nos ajudar. 
Entretanto, o difícil mesmo é conseguir atingir este silêncio – nossa cabeça vive ocupada com músicas, listas, coisas para fazer, preocupações, notícias de jornais, cálculos matemáticos sobre nossas possibilidades financeiras. 
Se conseguirmos deter este fluxo inútil de reflexões que não nos conduzem a lugar nenhum, tudo passa a ser possível. 

A energia é ação
Para um homem de conhecimento, só existe o Aqui e o Agora. Portanto, ele entende que cada vez que age, está aumentando o seu poder e sua força. Ao fazer isso, observa com cuidado tudo aquilo que o cerca, e sabe que cada coisa, por menor ou mais insignificante que seja, está carregada de energia, e pode lhe ensinar algo: plantas, pregos, folhas caídas, tudo isso precisa de uma gigantesca energia para manter os átomos em seu lugar, de modo que possam ser percebidas e tocadas. 
Um verdadeiro guerreiro consegue absorver esta força, e usá-la a seu favor. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

As línguas que Deus fala


llUm missionário espanhol visitava uma ilha quando encontrou três sacerdotes astecas.
– Como vocês rezam? – perguntou o padre.
– Temos apenas uma oração – respondeu um dos astecas. – Nós dizemos: “Deus, Tu És três, nós somos três. Tende piedade de nós”.
– Bela oração – disse o missionário. – Mas ela não é exatamente a prece que Deus escuta. Vou lhes ensinar uma muito melhor.
O padre ensinou uma oração católica, e seguiu seu caminho de evangelização. Anos depois, já no navio que o levava de volta à Espanha, precisou passar de novo por aquela ilha. Do convés, viu os três sacerdotes na praia – e fez um aceno de despedida. 
Neste momento, os três começaram a caminhar pela água, em direção a ele.
– Padre! Padre! – gritou um deles, aproximando-se do navio. – Nos ensina de novo a oração que Deus escuta, porque não conseguimos lembrar!
– Não importa – disse o missionário, vendo o milagre. E pediu perdão a Deus, por não ter entendido antes que Ele falava todas as línguas.
A seguir, algumas destas preces:

Dhammapada 
(atribuída a Buda) 
Melhor que, ao invés de mil palavras,
Houvesse apenas uma, mas que trouxesse Paz.
Melhor que, ao invés de mil versos,
Houvesse apenas um, mas que mostrasse o Belo. 
Melhor que, ao invés de mil canções, 
Houvesse apenas uma, mas que espalhasse alegria. 
Mevlana Jelaluddin Rumi, século XIII.
Lá fora, além do que está certo e do que está errado, existe um campo imenso.  Nos encontraremos ali. 
Profeta Mohammed, 
século VII.
Oh Alá! Eu te consulto porque sabes tudo, e conheces mesmo aquilo que está escondido. 
Se o que estou fazendo é bom para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, então que a tarefa seja fácil e abençoada. 
Se o que estou fazendo agora é mau para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, mantenha-me longe desta tarefa. 

Jesus de Nazaré, 
Mateus 7; 7-8.
Pedi, e receberás. 
Procure, e encontrarás. 
Bate, e a porta se abrirá. 
Porque quem pede, recebe; quem procura, acha; quem bate, a porta se abre.

Prece Judaica para a Paz
Vamos à montanha do Senhor, onde poderemos caminhar com Ele. Transformemos nossas espadas em arados, e nossas lanças em coletores de frutos. 
Que nenhuma nação levante sua espada contra outra, e que jamais aprendamos a arte da guerra. 
E ninguém deve temer ao seu vizinho, porque assim disse o Senhor. 

Lao Tsu, China - 
século VI A.C.
Para haver paz no mundo, é necessário que as nações vivam em paz.
Para haver paz entre as nações, as cidades não devem se levantar uma contra a outra. 
Para haver paz nas cidades, os vizinhos precisam se entender. 
Para haver paz entre os vizinhos, é preciso que reine harmonia no lar.
Para haver paz em casa, é preciso encontrá-la em seu próprio coração.