quinta-feira, 26 de maio de 2011

O guerreiro e a fé

Henry James compara a experiência a uma imensa teia de aranha, espalhada a nossa volta – que é capaz de pegar não só aquilo que é necessário, mas também a poeira que está no ar.
Muitas vezes o que chamamos “experiência” nada mais é que a soma de nossas derrotas.  Então, olhamos para frente com o medo de quem já cometeu bastantes equívocos na vida – e não temos coragem de dar o próximo passo.
Neste momento é bom lembrar as palavras de Lord Salisbury: “se você acreditar totalmente nos médicos, vai achar que tudo faz mal a saúde. Se acreditar totalmente nos teólogos, vais se convencer que tudo é pecado.  Se acreditar totalmente nos militares, concluirá que nada é absolutamente seguro”.
É preciso aceitar as paixões, e não renunciar ao entusiasmo das conquistas; elas fazem parte da vida, e alegram a todos que delas participam. Mas o guerreiro da luz jamais perde de vista as coisas duradouras, e os laços criados com solidez através do tempo: sabe distinguir o que é passageiro, e o que é definitivo. 
Existe um momento, entretanto, que as paixões desaparecem sem aviso. Apesar de toda a sua sabedoria, ele se deixa dominar pelo desânimo:  de uma hora para outra, a fé já não é a mesma de antes, as coisas não ocorrem como sonhava, as tragédias surgem de maneira injusta e inesperada, e ele passa a acreditar que suas preces já não são mais ouvidas. 
Continua rezando e frequentando os cultos de sua religião, mas não consegue se enganar; o coração não responde como antes, e as palavras parecem não ter sentido.
Neste momento, só existe um caminho possível: continuar praticando. Fazer as preces por obrigação, ou por medo, ou seja, lá por que motivo for - mas continuar rezando. Insistir, mesmo que tudo pareça inútil. 
O anjo encarregado de recolher suas palavras - e que é também responsável pela alegria da fé -  está dando um  passeio. Mas volta logo, e só vai saber localizá-lo se escutar uma prece ou um pedido em seus lábios.
Diz a lenda que, após uma exaustiva sessão matinal de orações no monastério de Piedra, o noviço perguntou ao abade se as orações faziam com que Deus se aproximasse dos homens.
- Vou respondê-lo com outra pergunta – disse o abade. – Todas estas orações que você faz irão fazer o sol nascer amanhã? 
- Claro que não! O sol nasce porque obedece a uma lei universal! 
- Então, esta é a resposta à sua pergunta. Deus está perto de nós, independente das preces que fazemos.
O noviço revoltou-se:
- O senhor quer dizer que nossas orações são inúteis? 
- Absolutamente. Se você não acorda cedo, nunca conseguirá ver o sol nascendo. Se não reza, embora Deus esteja sempre perto, você nunca conseguirá notar Sua presença.
Orar e vigiar: esse deve ser o lema do guerreiro da luz. Se apenas vigia, vai começar a ver fantasmas onde eles não existem. Se apenas orar, não terá tempo de executar as obras que o mundo tanto necessita. Conta outra lenda, desta vez do Verba Seniorum, que o abade Pastor, costumava dizer que o abade João havia rezado tanto, que não precisava mais se preocupar – suas paixões haviam sido vencidas.
As palavras do abade Pastor terminaram chegando aos ouvidos de um dos sábios do mosteiro de Sceta.  Este chamou os noviços depois da ceia.
- Vocês têm escutado dizer que o abade João não tem mais tentações a vencer - disse ele.  - A falta de luta enfraquece a alma.  Vamos pedir ao Senhor que envie uma tentação bem poderosa para o abade João; e se ele vencer esta tentação, vamos pedir outra e mais outra.  E quando ele estiver de novo lutando contra as tentações, vamos rezar  para que ele jamais diga   “Senhor, afasta de mim este demônio”.  Vamos rezar para que ele peça:  “Senhor, dai-me força para enfrentar o mal”. 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A força da alegria

Khalil Gibran diz que há vinte séculos os homens adoram a fraqueza na pessoa de Jesus, e não compreendem Sua força. Jesus não viveu como um covarde, e não morreu queixando-se e sofrendo. Viveu como um revolucionário, e foi crucificado como um rebelde. 
“Não era um pássaro de asas partidas, mas uma tempestade violenta, que quebrava as asas tortas. Não era uma vítima dos seus perseguidores, e não sofreu nas mãos de seus executores - mas era livre diante de todos. 
“Jesus não desceu ao mundo para destruir nossas casas, e - com suas pedras - construir conventos; ele veio insuflar uma alma nova e forte, que faz de cada coração um templo, de cada alma um altar, e de cada ser humano um sacerdote.”
Olhando com cuidado sua vida, veremos que, embora soubesse que sua Paixão era inevitável, procurou nos dar o sentido da alegria em cada gesto. Como disse em uma das colunas passadas, Ele deve ter pensado bastante antes de decidir qual o primeiro milagre que devia realizar. Deve ter considerado a cura de um paralítico, a ressurreição de um morto, a expulsão de um demônio, algo que seus contemporâneos considerassem como “uma atitude nobre”; afinal, era a primeira vez que se mostraria ao mundo como o Filho de Deus.
E está escrito: seu primeiro milagre foi transformar água em vinho - para animar uma festa de casamento. 
Que a sabedoria deste gesto nos inspire, e esteja sempre presente em nossas almas: a busca espiritual é compaixão, entusiasmo, e alegria.
O monge tibetano Chögyam Trunpga diz: "não é preciso uma experiência mística para descobrir que o mundo é bom".  Basta perceber as coisas simples que existem a nossa volta, ver as gotas de chuva escorrendo na vidraça, acordar de manhã e descobrir que o sol brilha, escutar alguém rindo.”
Agindo desta maneira, o mundo deixa de ser uma ameaça. Passamos a nos dar conta que somos capazes de reverenciar o milagre da existência, aceitamos que temos a sensibilidade suficiente para ver o amor que existe em nossa alma. Se somos capazes de ver o que é belo, é porque também somos belos - já que o mundo é um espelho, e devolve a cada homem o reflexo de seu próprio rosto. 
Embora sabendo nossos defeitos e limitações, devemos fazer o possível para conservar a esperança e bom humor. Afinal de contas, o mundo está se esforçando para nos ajudar, mesmo que a gente esteja achando contrário.
O único grande perigo é ficarmos seguros demais – porque um guerreiro da luz, por mais alegria que possua em seu coração, jamais deve relaxar por completo. Quando sentirmos que, por causa de uma atitude positiva diante da vida, estamos caindo em uma espécie de otimismo inconsequente e baixando nossa guarda, é bom lembrar o seguinte texto de Confúcio:
“O perigo surge quando o homem sente-se seguro de sua posição.”
“A ruína ameaça todo aquele que tenta preservar um estado de coisas.”
“A confusão aparece quando colocamos tudo em ordem.”
“Portanto, o homem superior não esquece o perigo quando está em segurança.”
“O sábio não esquece o fantasma da ruína quando está em plena prosperidade.”
“O inteligente não esquece a confusão quando seus negócios estão em ordem.” 

domingo, 15 de maio de 2011

Mudança

Recebo de dois leitores, quase na mesma semana, um texto que supostamente escrevi. Não, não fui eu – embora tenha muito a ver com minha maneira de encarar a vida. Como achei o material interessante, e na esperança de encontrar o verdadeiro autor, eu o reproduzo aqui:
Mude. 
Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, do outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, troque o caminho, ande calmamente por outras ruas, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus. Mude por uns tempos o estilo das roupas; dê os sapatos velhos, e procure andar descalço alguns dias – nem que seja em casa.
Tire uma tarde inteira para passear livremente, ouvir o canto dos passarinhos ou o ruído dos carros. 
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama. Em seguida, procure dormir em outras camas. 
Assista a outros programas de TV, leia outros livros, viva outros romances –  nem que seja em sua imaginação.
Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia.
Coma um pouco menos, coma um pouco mais, coma diferente; escolha novos temperos, novas cores, coisas que você nunca ousou experimentar. 
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida compre pão em outra padaria. 
Almoce mais cedo, jante mais tarde, ou vice-versa.
Tente o novo todo dia: o novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, a nova posição.
Escolha outro mercado, outra marca de sabonete, outro creme dental. 
Tome banho em novos horários. 
Use canetas de outras cores. 
Vá passear em outros lugares.
Ame cada vez mais, de modos diferentes. Mesmo achando que a outra pessoa pode ficar assustada, sugira o que sempre sonhou fazer, na hora do sexo. 
Troque de bolsa, de carteira, de malas, compre novos óculos, escreva outras poesias. 
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros,outros teatros,visite novos museus.
Mude. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais parecido com o que você espera da vida, mais digno,  mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as: seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. 
Só o que está morto não muda, e você está vivo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Zen Budismo

Muitas vezes esta coluna transcreveu alguns dos clássicos textos da escola Zen. Entretanto, o que quer dizer exatamente isso? Como explica o Ming Zhen Shakya, o Zen está para o Budismo assim como a cabala para o Judaísmo, a contemplação para o Cristianismo, a dança sufi para o Islã: ou seja, é a prática mística de ensinamentos filosóficos ou espirituais.
A escola Zen nasce na China, misturando o budismo vindo do Nepal, com as tradições locais do taoísmo. Entre os anos 700 e 1200, monges viajam para o Japão e ali desenvolvem dois tipos de meditação, baseados na postura física: o estilo Rinzai prega que todo ser humano pode atingir a iluminação se viver sua existência com respeito e sobriedade, enquanto o estilo Soto prega a importância de um longo treinamento para que este objetivo seja alcançado. 
Para a maioria das religiões, um homem iluminado é aquele que consegue livrar-se de seu próprio egoísmo, entende que não passa de uma pequena – mas importante – peça no grande plano de Deus, e faz o possível para concentrar-se no bom funcionamento desta peça. À medida que avança nesta direção, as coisas supérfluas vão perdendo sua importância, e com isso o próprio sofrimento se afasta. 
Para os mestres Zens, todos nós temos um conhecimento intuitivo da razão de nossa existência. Portanto, a maioria dos ensinamentos filosóficos ou religiosos são apenas maneiras de provocar, no interior de cada um, o contato com esta sabedoria que já está ali - enterrada debaixo de muitas camadas de preconceito, culpa, confusão mental, e idéias falsas a respeito de nossa própria importância. 
O Zen budismo – principalmente aquele que viria ser elaborado a partir do estilo Soto - desenvolveu uma série de técnicas para o ser humano chegar até esta paz e compreensão interior. Para nós, que temos uma visão mais ocidental da busca interior, estas técnicas estão profundamente relacionadas às palavras de Jesus, no evangelho de Mateus: “Quando rezares entre em seu quarto, feche a porta, e ore para o Pai em segredo; e o Pai, que tudo ouve em segredo, te compreenderá”.
O praticante zen procura um lugar calmo, e ali senta-se em uma posição onde consiga manter seu equilíbrio por longo tempo, mas sem ter a coluna apoiada; por causa disso, a mais conhecida postura mostra-o com as pernas cruzadas, e as mãos entrelaçando-se na frente, sobre o sexo. Alguns mosteiros que visitei no Japão usavam uma espécie de almofada de couro, de modo a elevar ligeiramente o corpo, permitindo uma melhor circulação do sangue nas pernas. 
A partir daí, deve-se procurar manter a imobilidade pelo maior tempo possível, enquanto se obedecem algumas regras simples. A cabeça deve ficar inclinada para baixo, os olhos não se devem fixar em nada, mas tampouco devem ser fechados, para evitar a sonolência. Observa-se a respiração, mas não se tenta manipular seu ritmo - ele deve ser o mais natural possível, já que à medida que o zazen (este é o nome da postura) progride, a tendência é que as inspirações e expirações se tornem mais pausadas e mais lentas. 
Embora muitas pessoas que afirmam conhecer as técnicas de meditação achem que é necessário “esvaziar a cabeça”, todos nós – e todos os grandes mestres de zen – sabemos que isso é impossível. Portanto, a idéia central não é tentar o controle do pensamento, das emoções, nem buscar um contacto espiritual com Deus; tudo isso virá a seu tempo, à medida que nos acalmamos. 
Como a prática do Zen é extremamente simples, sem qualquer conotação religiosa ou filosófica, ela nos ajuda – paradoxalmente – a conectar-se melhor com Deus e a responder de maneira inconsciente nossas dúvidas. A próxima vez que você encontrar-se em casa, sem nada que fazer, e achando tudo aborrecido e repetitivo à sua volta, tente sentar-se em um lugar tranquilo, ficar imóvel, e deixar que o mundo corra ao redor. 
Vai perceber que, para fazer coisas muito importantes na vida, às vezes é necessário permitir-se não fazer nada.