sexta-feira, 29 de abril de 2011

Seguindo a Lenda Pessoal

Desde muito jovem descobri que a viagem era, para mim, a melhor maneira de aprender. Continuo até hoje com esta alma de peregrino, e decidi relatar nesta coluna algumas das lições que aprendi, esperando que possam ser úteis a outros peregrinos como eu.
1] Evite os museus. O conselho pode parecer absurdo, mas vamos refletir um pouco juntos: se você está numa cidade estrangeira, não é muito mais interessante ir a busca do presente que do passado? Acontece que as pessoas sentem-se obrigadas a ir a museus, porque aprenderam desde pequeninas que viajar é buscar este tipo de cultura. É claro que museus são importantes, mas exigem tempo e objetividade – você precisa saber o que deseja ver ali, ou vai sair com a impressão de que viu uma porção de coisas fundamentais para a sua vida, mas não se lembra quais são.
2] Frequente os bares. Ali, ao contrário dos museus, a vida da cidade se manifesta. Bares não são discotecas, mas lugares aonde o povo vai, toma algo, pensa no tempo, e está sempre disposto a uma conversa. Compre um jornal e deixe-se ficar contemplando o entra-e-sai. Se alguém puxar assunto, por mais bobo que seja, engate a conversa: não se pode julgar a beleza de um caminho olhando apenas sua porta. 
3] Esteja disponível. O melhor guia de turismo é alguém que mora no lugar, conhece tudo, tem orgulho de sua cidade, mas não trabalha em uma agência. Saia pela rua, escolha a pessoa com quem deseja conversar, e peça informações (onde fica tal catedral? Onde estão os Correios?) Se não der resultado, tente outra – garanto que no final do dia irá encontrar uma excelente companhia. 
4] Procure viajar sozinho, ou – ser for casado – com seu cônjuge. Vai dar mais trabalho, ninguém vai estar cuidando de você(s), mas só desta maneira poderá realmente sair do seu país. As viagens em grupo são uma maneira disfarçada de estar numa terra estrangeira, mas falando a sua língua natal, obedecendo ao que manda o chefe do rebanho, preocupando-se mais com as fofocas do grupo do que com o lugar que se está visitando. 
5] Não compare. Não compare nada - nem preços, nem limpeza, nem qualidade de vida, nem meio de transportes, nada! Você não está viajando para provar que vive melhor que os outros – sua procura, na verdade, é saber como os outros vivem, o que podem ensinar, como se enfrentam com a realidade e com o extraordinário da vida. 
6] Entenda que todo mundo lhe entende. Mesmo que não fale a língua, não tenha medo: já estive em muitos lugares onde não havia maneira de me comunicar através de palavras, e terminei sempre encontrando apoio, orientação, sugestões importantes, e até mesmo namoradas. Algumas pessoas acham que, se viajarem sozinhas, vão sair na rua e se perder para sempre. Basta ter o cartão do hotel no bolso, e – numa situação extrema – tomar um táxi e mostrá-lo ao motorista.
7] Não compre muito. Gaste seu dinheiro com coisas que não vai precisar carregar: boas peças de teatro, restaurantes, passeios. Hoje em dia, com o mercado global e a Internet, você pode ter tudo sem precisar pagar excesso de peso. 
8] Não tente ver o mundo em um mês. Mais vale ficar numa cidade quatro a cinco dias, que visitar cinco cidades em uma semana. Uma cidade é uma mulher caprichosa, precisa de tempo para ser seduzida e mostrar-se completamente. 
9] Uma viagem é uma aventura. Henry Miller dizia que é muito mais importante descobrir uma igreja que ninguém ouviu falar, que ir a Roma e sentir-se obrigado a visitar a Capela Sixtina, com duzentos mil turistas gritando nos seus ouvidos. Vá à capela Sixtina, mas deixe-se perder pelas ruas, andar pelos becos, sentir a liberdade de estar procurando algo que não sabe o que é, mas que – com toda certeza – irá encontrar e mudará a sua vida. 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Seguindo a Lenda Pessoal

Quando Joseph Campbell, o mais conhecido estudioso de mitologia de nosso tempo (e autor, entre outros livros, do excelente “O Poder do Mito”) criou a expressão “siga sua benção” ele estava refletindo uma idéia cujo momento parece ter chegado. Em “O Alquimista”, esta mesma idéia está sob o nome de Lenda Pessoal.
Alan Cohen, um terapeuta que vive no Havaí, também trabalha sobre o tema.
Ele conta que, nas suas conferências, pergunta quem está insatisfeito com o seu trabalho; setenta e cinco por cento da audiência levanta a mão. Cohen criou um sistema de doze passos, para ajudar o reencontro com sua “benção” (ele segue a escola de Campbell): 
1] Diga a verdade para você mesmo: divida uma folha de papel em duas colunas, e escreva do lado esquerdo tudo que adoraria fazer. Depois, escreva do lado direito tudo que está fazendo sem entusiasmo. Escreva como se ninguém fosse ler o que está ali, não censure nem julgue suas respostas.
2] Comece devagar, mas comece: chame o agente de viagens, procure algo que se encaixe no seu orçamento; vá assistir ao filme que está adiando; compre o livro que desejava. Seja generoso com você mesmo, e verá que mesmo estes pequenos passos lhe farão sentir mais vivo. 
3] Vá parando devagar, mas pare: há coisas que tiram por completo sua energia. Você precisa mesmo ir a tal reunião do comitê? Precisa ajudar quem não quer ser ajudado? Seu chefe tem o direito de exigir que, além do trabalho, você tenha que estar nas mesmas festas que ele? Ao parar de fazer o que não lhe interessa, vai notar que você estava se exigindo mais que os outros realmente pediam.
4] Descubra seus pequenos talentos: o que os amigos dizem que você faz bem? O que você faz com vontade, mesmo que não seja perfeito na sua execução? Estes pequenos talentos são mensagens escondidas de seus grandes talentos ocultos.
5] Comece a escolher: se algo lhe dá prazer, não hesite. Se você está em dúvida, feche os olhos, imagine que tomou a decisão A, e veja tudo que ela acarretará. Faça o mesmo com a decisão B. A decisão que lhe fizer sentir mais conectado com a vida, é a decisão certa – mesmo que não seja a mais fácil.
6] Não baseie suas decisões em ganhos financeiros: eles virão, se você realmente fizer algo com entusiasmo. O mesmo vaso, feito por um oleiro que adora o que faz, ou por um homem que detesta seu ofício, tem uma alma. Ele será rapidamente vendido (no primeiro caso) ou ficará encalhado (no segundo caso).  
7] Siga sua intuição: o trabalho mais interessante é aquele que você se permite ser criativo. Eistein dizia: “eu não cheguei à minha compreensão do Universo usando apenas a matemática”. Descartes, o pai da lógica, desenvolveu seu método baseado em um sonho que teve.
8] Não tenha medo de mudar de idéia: se você deixou uma decisão de lado, e ela o incomoda, repense o que escolheu. Não lute contra aquilo que lhe dá prazer. 
9] Saiba descansar: um dia por semana sem pensar no trabalho, termina permitindo que o subconsciente o ajude, e muitos (mas não todos) problemas se solucionam sem ajuda da razão. 
10] Deixe que as coisas mostrem o caminho mais alegre: se você está lutando demais por algo, e não tem resultados, seja mais flexível e se entregue aos caminhos que a vida mostra. Isso não significa renunciar a luta, ter preguiça, ou deixar as coisas nas mãos dos outros – significa entender que o trabalho com amor nos dá forças, jamais desespero.
11] Leia os sinais: é uma linguagem individual, unida a intuição, que aparece nos momentos certos. Mesmo que os sinais indiquem uma direção oposta àquela que você planejou, siga-os. Às vezes você vai errar, mas é a única maneira de aprender esta nova linguagem. 
12] Finalmente, arrisque! Os homens que mudaram o mundo começaram seus caminhos através de um ato de fé. Acredite na força dos seus sonhos; Deus é justo, e não colocaria em seu coração um desejo impossível de ser realizado.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Da importância dos outros



Juan ia sempre aos serviços dominicais de sua congregação. Mas começou a achar que o pastor dizia sempre as mesmas coisas, e parou de frequentar a igreja. 
Dois meses depois, em uma fria noite de inverno, o pastor foi visitá-lo. 
“Deve ter vindo para tentar convencer-me a voltar” - pensou Juan consigo mesmo - Imaginou que não podia dizer a verdadeira razão: os sermões repetitivos.     Precisava encontrar uma desculpa, e enquanto pensava, colocou duas cadeiras diante da lareira, e começou a falar sobre o tempo. 
O pastor não disse nada. Juan, depois de tentar inutilmente puxar conversa por algum tempo, também se calou. Os dois ficaram em silêncio, contemplando o fogo por quase meia-hora.
Foi então que o pastor levantou-se, e com a ajuda de um galho que ainda não tinha queimado, afastou uma brasa, colocando-a longe do fogo. 
A brasa, como não tinha suficiente calor para continuar queimando, começou a apagar. Juan, mais que depressa, atirou-a de volta ao centro da lareira. 
- Boa noite – disse o pastor, levantando-se para sair. 
- Boa noite e muito obrigado – respondeu Juan. – A brasa longe do fogo, por mais brilhante que seja, terminará extinguindo rapidamente. 
“O homem longe dos seus semelhantes, por mais inteligente que seja, não conseguirá conservar seu calor e sua chama. Voltarei à igreja no próximo domingo”.


Preocupadíssimo, o rato viu que o dono da fazenda havia comprado uma ratoeira: estava decidido a matá-lo!
Começou a alertar todos os outros animais:
- Cuidado com a ratoeira! Cuidado com a ratoeira!
A galinha, ouvindo os gritos, pediu que ficasse calado:
- Meu caro rato, sei que isso é um problema para você, mas não me afetará de maneira nenhuma – portanto não faça tanto escândalo!
O rato foi conversar com o porco, que sentiu-se incomodado por ter seu sono interrompido. 
- Há uma ratoeira na casa!
- Entendo sua preocupação, e estou solidário com você – respondeu o porco – Portanto, garanto que você estará presente nas minhas preces esta noite; não posso fazer nada, além disso.
Mais solitário que nunca, o rato foi pedir ajuda à vaca. 
- Meu caro rato, e o que eu tenho a ver com isso? Você já viu alguma vez uma vaca ser morta por uma ratoeira?
Vendo que não conseguia a solidariedade de ninguém, o rato voltou até a casa da fazenda, escondeu-se no seu buraco, e passou a noite inteira acordado, com medo que lhe acontecesse uma tragédia. 
Durante a madrugada, ouviu-se um barulho: a ratoeira acabava de pegar alguma coisa!  
A mulher do fazendeiro desceu para ver se o rato tinha sido morto. Como estava escuro, não percebeu que a armadilha tinha prendido apenas a cauda de uma serpente venenosa: quando se aproximou, foi mordida.
O fazendeiro, escutando os gritos da mulher, acordou e levou-a imediatamente ao hospital. Ela foi tratada como devia, e voltou para casa. 
Mas continuava com febre. Sabendo que não existe melhor remédio para os doentes que uma boa canja, o fazendeiro matou a galinha.
A mulher começou a se recuperar, e como os dois eram muito queridos na região, os vizinhos foram visitá-los. Agradecido por tal demonstração de carinho, o fazendeiro matou o porco para poder servir aos seus amigos. 
Finalmente, a mulher se recuperou, mas os custos com o tratamento foram muito altos. O fazendeiro enviou sua vaca ao matadouro, e usou o dinheiro arrecadado com a venda da carne para pagar todas as despesas.
O rato assistiu aquilo tudo, sempre pensando: 
“Bem que eu avisei. Não teria sido muito melhor se a galinha, o porco e a vaca tivessem entendido que o problema de um de nós coloca todo mundo em risco?” 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A verdadeira importância

Jean passeava com seu avô por uma praça de Paris. A determinada altura viu um sapateiro sendo destratado por um cliente, cujo calçado apresentava um defeito. O sapateiro escutou calmamente a reclamação, pediu desculpas, e prometeu refazer o erro.
Pararam para tomar um café num bistrô. Na mesa ao lado, o garçom pediu a um homem que movesse um pouco a cadeira, para abrir espaço. O homem irrompeu numa torrente de reclamações, e negou-se.
 - Nunca esqueça o que viu - disse o avô para Jean.  - O sapateiro aceitou uma reclamação, enquanto este homem ao nosso lado não quis mover-se. Os homens úteis, que fazem algo útil, não se incomodam de serem tratados como inúteis. Mas os inúteis sempre se julgam importantes, e escondem toda a sua incompetência atrás da autoridade. 

O presente errado
Miie Tamaki resolveu largar tudo que fazia - era economista - para dedicar-se à pintura. Durante anos procurou um mestre adequado, até que encontrou uma mulher especialista em miniaturas, que vivia no Tibet. Miie deixou o Japão e foi para as montanhas tibetanas, aprender o que precisava.
Passou a morar com a professora, que era extremamente pobre.
No final do primeiro ano, Miie voltou ao Japão por alguns dias, e retornou ao Tibet com malas cheias de presentes. Quando a professora viu o que ela tinha trazido, começou a chorar, e pediu que Miie não voltasse mais a sua casa, dizendo: 
- Antes, nossa relação era de igualdade e amor. Você tinha teto, comida, e tintas. Agora, ao me trazer estes presentes, você estabelece uma diferença social entre nós.
- Se existe esta diferença, não pode existir compreensão e entrega". 

O que salva o amor
L. Barbosa conta a história de uma ilha onde viviam os principais sentimentos do homem: Alegria, Tristeza, Vaidade, Sabedoria, e Amor. Um dia, a ilha começou a afundar no oceano; todos conseguiram alcançar seus barcos, menos o Amor.
Quando foi pedir a Riqueza que o salvasse, esta disse: 
- Não posso, estou carregada de jóias e ouro. 
Dirigiu-se ao barco da Vaidade, que respondeu:
- Sinto muito, mas não quero sujar meu barco. 
O Amor correu para a Sabedoria, mas ela também recusou, dizendo:
- Quero estar sozinha, estou refletindo sobre a tragédia, e mais tarde vou escrever um livro sobre isto. 
O Amor começou a se afogar. Quando estava quase morrendo, apareceu um barco – conduzido por um velho – que o terminou salvando. 
- Obrigado – disse, assim que se refez do susto. – Mas quem é você?
- Sou o Tempo – respondeu o velho. Só o Tempo é capaz de salvar o Amor.