sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As palavras e o ser humano

“No início, era o Verbo”: todos nós conhecemos esta frase da Bíblia. O mais interessante é que Deus não é comparado com uma figura, um efeito da natureza, e sim com uma expressão gramatical. No meu ofício de escritor, sou obrigado a concentrar-me na importância das palavras, mas creio que todo ser humano deva sempre prestar atenção ao que diz e ao que ouve. 
Precisamos dividir. Mesmo que sejam informações que  todos já saibam, é importante não se deixar levar pelo pensamento egoísta de chegar sozinho ao fim da jornada. Quem faz isto, descobre um paraíso vazio, sem qualquer interesse especial - e em breve estará morrendo de tédio.
Não podemos pegar as luzes que iluminam o caminho e carregar conosco. Se agirmos assim, vamos encher nossas  mochilas com lanternas, e teremos que nos livrar do alimento que nos dá força para seguir adiante: amor.
Precisamos receber: estímulos, conselhos, informações. Mas às vezes, por insegurança, interrompemos uma conversa no meio, com medo de mostrar ao nosso interlocutor que desconhecemos aquele assunto. Qual o problema de aprender? Por que nos sentimos humilhados quando alguém toca em temas que desconhecemos? Ninguém tem obrigação de conhecer tudo.
Disse Albert Einstein:  "cem vezes por dia eu me lembro que minha vida interior e minha vida exterior dependem do trabalho que outros homens estão fazendo agora. Por causa disso, preciso me esforçar para retribuir pelo menos uma parte desta generosidade – e não posso deixar nenhum minuto vazio”. 
E, enquanto não inventarem um novo processo de comunicação mais direto que a palavra, teremos que nos contentar com ela, mesmo que às vezes seja pobre demais para descrever o que sentimos. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade diz, em uma carta ao seu neto:
“Admiro que ame nos vegetais a carga de silêncio,  Luis Maurício / Mas há que tentar o diálogo, quando a solidão é um vício”.
Conheço pessoas que não dão importância à palavra. Mas conheço também pessoas que têm medo das palavras.
Sim, é verdade que às vezes dizemos: "puxa, faz tempo que não discuto com fulano"; ou "nunca mais tive uma gripe". De repente, no dia seguinte, pegamos uma gripe ou discutimos com fulano. 
Então concluímos: se comentarmos as coisas boas que  acontecem conosco, isto trará má sorte. 
Nada disso. Na verdade, antes de qualquer problema, a Alma do Mundo nos mostra quanto tempo ficamos sem nos aborrecer com determinada coisa. Ela quer nos dizer como a vida tem sido generosa até aquele momento – e continuará sendo, se superarmos com bravura o obstáculo.
Fale. Dialogue. Participe. Nada mais desprezível que o “observador” acomodado e covarde. Sua coragem em expressar opiniões vai lhe ajudar a crescer em qualquer dificuldade. Fale das coisas boas da sua vida para todos que quiserem ouvir: a Alma do Mundo precisa muito de sua alegria; Deus ficará contente ao ver seu sorriso. Fale dos momentos difíceis que pode estar vivendo: dê uma chance aos outros de dar aquilo que você precisa, nem que seja apenas uma frase de conforto. 
A palavra é poder. As palavras transformam o mundo e o homem. Os vencedores falam com orgulho dos milagres de suas vidas. Quanto mais energia positiva ao seu redor, mais energia positiva será atraída, e mais alegres vão ficar aqueles que lhe querem bem. Quanto aos invejosos, aos derrotados - estes só poderão lhe causar algum dano se você lhes der este poder.
“Minha dança, minha bebida, e meu canto, são o colchão onde minha alma repousará, quando voltar ao mundo dos espíritos”, diz um sábio indonésio.
Portanto, use verbos, sujeitos, predicados, e cante suas alegrias e tristezas, mas cante todos os dias de sua vida. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A busca da árvore da imortalidade

Conta o famoso poeta persa Rumi que certo dia, em uma aldeia do norte do atual Irã, apareceu um homem contando histórias maravilhosas sobre uma árvore cujos frutos davam imortalidade a quem os comesse. 
A notícia logo chegou aos ouvidos do rei, mas antes que ele pudesse pedir a localização exata de tal prodígio da natureza, o viajante já havia partido. 
O rei, entretanto, estava decidido a tornar-se imortal, pois queria ter tempo suficiente de transformar o seu reino em um exemplo para todos os povos do mundo. Quando ainda jovem, sonhara em fazer desaparecer a pobreza, ensinar a justiça, alimentar cada um dos seus súditos, mas logo se deu conta que este trabalho durava mais de uma geração. Entretanto, a vida tinha lhe dado uma chance, e não iria deixar que ela lhe escapasse.   
Chamou o homem mais corajoso da sua corte, e encarregou-o de encontrar a árvore. 
O homem partiu no dia seguinte, munido de dinheiro suficiente para conseguir informações, comida, e todo o  necessário para atingir sua meta. Percorreu cidades, planícies, montanhas, perguntando e oferecendo recompensas; as pessoas honestas diziam que tal árvore não existia, os cínicos demonstravam um respeito irônico, e alguns trapaceiros terminavam lhe enviando a lugares remotos, apenas com o objetivo de conseguir algumas moedas em troca. 
Depois de muitas decepções, o homem resolveu renunciar à sua busca; embora tivesse uma imensa admiração por seu soberano, iria voltar com as mãos vazias. Sabia que com isso perderia sua honra, mas estava cansado, e convencido de que a tal árvore não existia.  
No caminho de volta, ao subir uma pequena colina, lembrou-se que ali vivia um sábio. E pensou: “não tenho mais esperança de encontrar o que queria, mas pelo menos posso pedir sua benção, e implorar para que reze pelo meu destino”.
Ao chegar diante do sábio, não agüentou e caiu em prantos. 
- Por que estás tão desesperado, meu filho? – perguntou o homem santo. 
- O rei me encarregou de encontrar uma árvore que era única no mundo; seu fruto nos faz viver para sempre. Sempre cumpri minhas tarefas com lealdade e coragem, mas desta vez estou voltando com as mãos vazias. 
O sábio começou a rir:
- Isto que você está buscando existe, e é feito da água da Vida que provém do infinito oceano de Deus. O seu erro foi tentar buscar uma forma, com um nome. 
“Às vezes isso se chama ”árvore”, outras vezes “sol”, outras vezes “nuvem”, e a podemos chamar de qualquer coisa que exista sobre a face da terra. Entretanto, para conseguir encontrar este fruto, é preciso renunciar à forma, e buscar o conteúdo. 
“Qualquer coisa onde está a presença da Criação é eterna em si mesma. Nada pode ser destruído; quando nosso coração para de bater, ainda assim nossa essência se transforma na natureza ao redor. Podemos virar árvores, gotas de chuva, plantas, ou até mesmo outro ser humano”.
“Por que deter-se na palavra “árvore”, e esquecer que somos imortais? Renascemos sempre em nossos filhos, no amor que manifestamos para com o mundo, em cada um dos gestos de generosidade e caridade que praticamos. 
“Volta e diga ao rei que ele não precisa se preocupar em encontrar um fruto de uma árvore mágica: cada atitude e decisão que tomar agora, irá permanecer por muitas gerações. Peça, portanto, que seja justo com seu povo; se ele fizer seu trabalho com dedicação, ninguém o esquecerá, e seu exemplo irá influenciar a história do seu povo, e estimular seus filhos e netos a agirem sempre da melhor maneira possível”.
“E diz ainda o seguinte: todo aquele que busca apenas um nome, sempre permanecerá ligado à aparência, sem jamais descobrir o mistério oculto das coisas, e o milagre da vida”. 
“Todas as lutas que enfrentamos são por causa de nomes: propriedade, ciúme, riqueza, imortalidade. Entretanto, quando nos esquecemos do nome e buscamos a realidade que se esconde atrás das palavras, teremos tudo que desejamos – e, além disso, teremos paz de espírito”.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Aceitando a si mesmo

Quando você ganhar, comemore: celebrar uma conquista é um importante rito de passagem. Esta vitória custou momentos difíceis, noites de dúvidas,  intermináveis dias de espera. Desde os tempos antigos, alegrar-se com um triunfo faz parte do próprio ritual da vida. 
A comemoração marca o final de uma etapa, embora - por incrível que pareça - muita gente recusa-se a isso, por medo de decepção, de atrair "mau-olhado", etc. Quem age assim, não se beneficia do melhor presente que a vitória nos dá: confiança. 
Devemos, sempre que possível, comemorar hoje as pequenas vitórias de ontem, por mais insignificantes que pareçam. Amanhã, uma nova luta se aproxima, e irá exigir  nossa atenção e esforço: a lembrança de um êxito nos faz mais fortes para a próxima batalha.
A seguir, algumas pequenas histórias a respeito.

Aceitando que merece o melhor
O famoso pianista Arthur Rubinstein (1887-1982) atrasou-se para um almoço num importante restaurante de New York. Seus amigos começaram a ficar preocupados - mas Rubinstein finalmente apareceu, ao lado de uma loura espetacular, com um terço de sua idade. 
Conhecido por seu pão-durismo, nesta tarde ele pediu os pratos mais caros, os vinhos mais raros e sofisticados. No final, pagou a conta com um sorriso nos lábios.
- Sei que vocês devem estar estranhando - disse Rubinstein. - Mas hoje fui ao advogado fazer meu testamento. Dei uma boa quantia para minha filha, para meus parentes, fiz generosas doações para obras de caridade. De repente, me dei conta que eu não estava incluído no meu testamento: era tudo dos outros!
“A partir daí, resolvi me tratar com mais generosidade”.

Aceitando que merece o presente
A jornalista Belisa Ribeiro estava colocando a maquilagem para ir a uma festa, quando parou o que estava fazendo, e se olhou no espelho.
- Eis como me vi - conta ela.  - Tentava equilibrar nas mãos o batom, o delineador, o blush, o rímel. Fiquei pensando: por que estou agindo assim? Por que seguro tantas coisas, se só posso usar uma delas de cada vez?
“Coloquei tudo na penteadeira, e recomecei de novo. Procurei me lembrar de tantas vezes na minha vida em que agi deste modo - vivendo um momento e pensando em outro, ficando estressada com coisas que tinham dia e hora certos para serem vividas. A partir daquele momento, eu prometi que cada minuto de minha vida teria sua própria benção, e eu estaria completamente concentrada nela”.

Aceitando que merece os dons
Durante uma palestra na Austrália, uma jovem se aproxima. “Quero lhe contar algo”, me diz.
“Sempre acreditei que tinha o Dom da cura, mas nunca tive coragem de utilizá-lo com ninguém.  Um dia, meu marido estava com muita dor na perna esquerda; não havia ninguém por perto para ajudar, e resolvi -  morrendo de vergonha – colocar minhas mãos sobre sua perna e pedir que a dor fosse embora.”  
“Agi sem acreditar que seria capaz de ajudá-lo. De repente, escutei-o rezando:” “Permite, Senhor, que minha mulher seja mensageira da Tua luz, de Tua força”, dizia ele.  Minha mão começou a esquentar, e as dores logo passaram.
“Depois perguntei por que havia rezado daquela maneira. Ele respondeu que não lembrava ter dito nada. Mas hoje sou capaz de curar, porque ele acreditou que era possível”. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A volta ao mundo depois de morta


Sempre pensei no que acontece enquanto espalhamos um pouco de nós mesmos pela Terra. Já cortei cabelos em Tokyo, unhas na Noruega, vi meu sangue correr de uma ferida ao subir uma montanha na França. Em meu primeiro livro, “Os Arquivos do Inferno” (que jamais foi reeditado), especulava um pouco sobre o tema, como se fosse necessário semear um pouco do próprio corpo em diversas partes do mundo, de modo que, numa futura vida, algo nos parecesse familiar.  Um dia li no jornal francês “Le Figaro” um artigo assinado por Guy Barret, sobre um caso real acontecido em junho de 2001,  quando alguém levou às últimas consequências esta idéia. 
Trata-se da americana Vera Anderson, que passou toda a sua vida na cidade de Medford, Oregon. Já avançada em idade, foi vítima de um acidente cardiovascular, agravado por um enfisema do pulmão, o que a obrigou passar anos inteiros dentro do quarto, sempre conectada a um balão de oxigênio. O fato em si já é um suplício, mas no caso de Vera a situação era ainda mais grave, porque tinha sonhado percorrer o mundo, e guardara suas economias para fazê-lo quando já estivesse aposentada. 
Vera conseguiu ser transferida para o Colorado, de modo que pudesse passar o resto de seus dias na companhia do seu filho, Ross. Ali, antes que fizesse sua última viagem – aquela da qual jamais voltamos – tomou uma decisão. Já que nunca conseguira sequer conhecer seu país, iria então viajar depois de morta. 
Ross foi até o tabelião local e registrou o testamento da mãe: quando morresse, gostaria de ser incinerada. Até aí, nada demais. Mas o testamento continua: suas cinzas deviam ser colocadas em 241 pequenas sacolas, que seriam enviadas aos chefes dos serviços de correios nos 50 estados americanos, e a cada um dos 191 países do mundo – de modo que pelo menos uma parte do seu corpo terminasse visitando os lugares que sempre sonhou.
 Assim que Vera partiu, Ross cumpriu seu último desejo com a dignidade que se espera de um filho. A cada remessa, incluía uma pequena carta, onde pedia que dessem uma sepultura digna para sua mãe. 
Todas as pessoas que receberam as cinzas de Vera Anderson trataram o pedido de Ross com respeito. Nos quatro cantos da Terra, criou-se uma silenciosa cadeia de solidariedade, onde simpatizantes desconhecidos organizaram cerimônias ritos os mais diversos, sempre levando em conta o lugar que a falecida senhora gostaria de conhecer. 
Desta maneira, as cinzas de Vera foram aspergidas no lago Titicaca, na Bolívia, seguindo antigas tradições dos índios Aymara; no rio diante do palácio real de Estocolmo, na margem do Choo Praya na Tailândia, em um templo xintoísta no Japão,  nas geleiras da Antártida, no deserto do Saara. As irmãs de caridade de um orfanato na América do Sul (a matéria não cita em que país) rezaram por uma semana, antes de espalhar as cinzas no jardim – e depois decidiram que Vera Anderson deveria ser considerada uma espécie de anjo da guarda do lugar. 
Ross Anderson recebeu fotos dos cinco continentes, de todas as raças, de todas as culturas, mostrando homens e mulheres honrando o último desejo de sua mãe.
Quando vemos um mundo tão dividido como hoje, onde acreditamos que ninguém se preocupa com o outro, esta última viagem de Vera Anderson nos enche de esperança ao saber que ainda existe respeito, amor, e generosidade na alma de nosso próximo, por mais distante que ele esteja.