quinta-feira, 29 de março de 2012

No caminho de Santiago, 1986

ll“Esta nuvem tem que acabar” pensava eu enquanto lutava para descobrir as marcas amarelas nas pedras e nas árvores do Caminho. Fazia quase uma hora que a visibilidade era muito pequena, e eu continuava cantando, para afastar o medo, enquanto esperava que algo de extraordinário acontecesse. Cercado pela neblina, sozinho naquele ambiente irreal, comecei mais uma vez a ver o Caminho de Santiago como se fosse um filme, no momento onde a gente vê o herói fazer o que ninguém faria, enquanto na plateia, a gente pensa que estas coisas só acontecem no cinema. Mas ali estava eu, vivendo esta situação na vida real. A floresta ia ficando cada vez mais silenciosa, e o nevoeiro começou a clarear muito. Podia ser que estivesse chegando ao final, mas aquela luz confundia meus olhos e pintava tudo a minha volta com cores misteriosas e aterradoras.
De repente, como num passe de mágica, o nevoeiro se desfez por completo. E diante de mim, cravada no alto da montanha, estava a Cruz.
Olhei em volta, vi o mar de nuvens de onde saí, e outro mar de nuvens bem acima da minha cabeça. Entre estes dois oceanos, os picos das montanhas mais altas e o pico do Cebreiro, com a Cruz. Fui tomado de uma grande vontade de rezar.
Apesar do desejo, não consegui dizer nada. A uma centena de metros abaixo de mim, um lugarejo com quinze casas e uma pequena igreja começou a acender suas luzes. Pelo menos eu tinha onde passar a noite. Um cordeiro desgarrado subiu o monte e colocou-se entre mim e a cruz. Ele me olhou, um pouco assustado. Durante muito tempo eu fiquei olhando o céu quase negro, a cruz, e o cordeiro branco aos seus pés.
– Senhor – disse eu, finalmente. – Eu não estou pregado nesta cruz, e tampouco o vejo aí. Esta cruz está vazia e assim deve permanecer para sempre, porque o tempo da Morte já passou. Esta cruz era o símbolo do Poder infinito que todos nós temos, pregado e morto pelo homem. Agora este Poder renasce para a vida, porque percorri o caminho das pessoas comuns, e nelas encontrei Teu próprio segredo. Também tu percorreste o caminho das pessoas comuns. Vieste ensinar tudo do que éramos capazes, e nós não quisemos aceitar. Nos mostraste que o Poder e a Glória estavam ao alcance de todos, e esta súbita visão de nossa capacidade foi demais para nós. Nós te crucificamos não porque somos ingratos com o filho de Deus, mas porque tínhamos muito medo de aceitar nossa própria capacidade. Com o tempo e com a tradição, tu voltaste a ser apenas uma divindade distante, e nós retomamos ao nosso destino de homens.
“Não existe nenhum pecado em ser feliz. Meia dúzia de exercícios e um ouvido atento bastam para conseguir que um homem realize seus sonhos mais impossíveis. 
O cordeiro levantou-se e eu o segui. Já sabia onde estava me levando, e apesar das nuvens, o mundo tinha ficado transparente para mim. Mesmo que eu não estivesse vendo a Via Láctea no céu, eu tinha certeza de que ela existia e mostrava a todos o Caminho de Santiago. Segui o cordeiro, que caminhou em direção àquela cidadezinha – também chamada Cebreiro, como o monte. Ali, certa vez um milagre havia acontecido – o milagre de transformar aquilo que você faz naquilo que você crê. O Segredo da minha espada e do Estranho Caminho de Santiago.
Enquanto descia a montanha, recordei a história. Um camponês de um povoado próximo subiu para ouvir missa no Cebreiro, num dia de grande tempestade. Celebrava esta missa um monge quase sem fé, que desprezou interiormente o sacrifício do camponês. Mas no momento da consagração, a hóstia se transformou na carne de Cristo, e o vinho em seu sangue. As relíquias ainda estão ali, guardadas naquela pequena capela, um tesouro maior que toda a riqueza do Vaticano.
Fui até a pequena capela, construída pelo camponês e pelo monge que havia passado a acreditar no que fazia. Ninguém sabe quem foram. Duas lápides sem nome no cemitério ao lado marcam o local onde estão enterrados seus ossos. Mas é impossível saber qual é o túmulo do monge, e qual o do camponês. Porque, para que houvesse o Milagre, era preciso que as duas forças tivessem combatido o Bom Combate.
Desde então, quando estou diante de um desafio importante, lembro a história do milagre no Cebreiro. A fé às vezes precisa ser provocada, para que possa se manifestar. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Manual para subir montanhas

llA] Escolha a montanha que deseja subir: não se deixe levar pelos comentários de outros, dizendo “aquela é mais bonita”, ou “esta é mais fácil”. Você irá gastar muita energia e muito entusiasmo para atingir seu objetivo, portanto é o único responsável, e deve ter certeza do que está fazendo. 
B] Saiba como chegar diante dela: muitas vezes, a montanha é vista de longe – bela, interessante, cheia de desafios. Mas quando tentamos nos aproximar, o que acontece? As estradas a circundam, existem florestas entre você e seu objetivo, o que aparece claro no mapa é difícil na vida real. Portanto, tente todos os caminhos, as trilhas, até que um dia você esteja em frente ao topo que pretende atingir.
C] Aprenda com quem já caminhou por ali: por mais que você se julgue único, sempre alguém teve o mesmo sonho antes, e terminou deixando marcas que podem facilitar a caminhada; lugares onde colocar a corda, picadas, galhos quebrados para facilitar a marcha. A caminhada é sua, a responsabilidade também, mas não se esqueça que a experiência alheia ajuda muito. 
D] Os perigos, visto de perto, são controláveis: quando você começa a subir a montanha dos seus sonhos, preste atenção ao redor. Há despenhadeiros, claro. Há fendas quase imperceptíveis. Há pedras tão polidas pelas tempestades, que se tornam escorregadias como gelo. Mas se você souber onde está colocando cada pé, irá notar as armadilhas, e saberá contorná-las.
E] A paisagem muda, portanto aproveite: claro que é preciso ter um objetivo em mente – chegar ao alto. Mas à medida que se vai subindo, mais coisas podem ser vistas, e não custa nada parar de vez em quando e desfrutar um pouco o panorama ao redor. A cada metro conquistado, você pode ver um pouco mais longe, e aproveite isso para descobrir coisas que ainda não tinha percebido. 
F] Respeite seu corpo: só consegue subir uma montanha quem dá ao corpo a atenção que merece. Você tem todo o tempo que a vida lhe dá, portanto caminhe sem exigir o que não pode ser dado. Se andar depressa demais, irá ficar cansado e desistir no meio. Se andar muito devagar, a noite pode descer e você estará perdido. Aproveite a paisagem, desfrute a água fresca dos mananciais e das frutas que a natureza generosamente lhe dá, mas continue andando. 
G] Respeite sua alma: não fique repetindo o tempo todo “eu vou conseguir”. Sua alma já sabe isso, o que ela precisa é usar a longa caminhada para poder crescer, estender-se pelo horizonte, atingir o céu. Uma obsessão não ajuda em nada a busca do seu objetivo, e termina por tirar o prazer da escalada. Mas atenção:  tampouco fique repetindo “é mais difícil do que eu pensava”, porque isso o fará perder a força interior. 
H] Prepare-se para caminhar um quilômetro a mais: o percurso até o topo da montanha é sempre maior do que o que você está pensando. Não se engane, há de chegar o momento em que o que parecia perto ainda está muito longe. Mas como você se dispôs a ir além, isso não chega a ser um problema. 
I] Alegre-se quando chegar ao cume: chore, bata palmas, grite aos quatro cantos que conseguiu, deixe que o vento lá em cima (porque lá em cima está sempre ventando) purifique sua mente refresque seus pés suados e cansados, abra seus olhos, limpe a poeira do seu coração. Que bom o que antes era apenas um sonho, uma visão distante, agora é parte da sua vida, você conseguiu. 
J] Faça uma promessa: aproveite que você descobriu uma força que nem sequer conhecia, e diga para si mesmo que  a partir de agora irá usá-la pelo resto de seus dias. De preferência, prometa também descobrir outra montanha, e partir para uma nova aventura.
L] Conte sua história: sim, conte sua história. Dê seu exemplo. Diga a todos que é possível, e outras pessoas então sentirão coragem para enfrentar suas próprias montanhas.  

quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre a elegância

Às vezes eu me surpreendo com os ombros curvados; e sempre que estou assim, tenho certeza de que algo não está bem. Neste momento, antes mesmo de procurar a razão do que me incomoda, procuro mudar minha postura – torná-la mais elegante. Ao colocar-me de novo em posição ereta, dou-me conta de que este simples gesto me ajudou a ter mais confiança no que estou fazendo.  
Elegância é geralmente confundida com superficialidade, moda, falta de profundidade. Isso é um grave erro: o ser humano precisa ter elegância em suas ações e em sua postura, porque esta palavra é sinônimo de bom gosto, amabilidade, equilibro, e harmonia.  
É preciso ter serenidade e elegância para dar os passos mais importantes na vida. Claro, não vamos ficar delirando, preocupados o tempo inteiro com a maneira como movemos as mãos, sentamos, sorrimos, olhamos ao redor;  mas é bom saber que nosso corpo fala uma linguagem, e a outra pessoa  – mesmo inconscientemente – está entendendo o que dizemos além das palavras. A serenidade vem do coração. Embora muitas vezes torturado por pensamentos de insegurança, ele sabe que - através da postura correta, pode tornar a equilibrar-se. A elegância física,  a qual estou me referindo neste artigo, vem do corpo, e não é uma coisa superficial, mas a maneira que o homem encontrou para honrar a maneira com que coloca seus dois pés sobre a terra. Por isso, quando às vezes você sentir que a postura o está incomodando, não pense que ela é falsa ou artificial: ela é verdadeira porque é difícil. Ela faz com que o caminho sinta-se honrado pela dignidade do peregrino.  
E por favor, nada de confundi-la com arrogância ou esnobismo. A elegância é a postura mais adequada para que o gesto seja perfeito, o passo seja firme, o seu próximo seja respeitado. 
A elegância é atingida quando todo o supérfluo é descartado, e o ser humano descobre a simplicidade e a concentração: quanto mais simples e mais sóbria a postura, mais bela ela será. 
A neve é bonita porque tem apenas uma cor, o mar é bonito porque parece uma superfície plana – mas tanto o mar como a neve são profundos e  conhecem suas qualidades. 
Caminhe com firmeza e alegria, sem medo de tropeçar. Todos os movimentos estão sendo acompanhados pelos seus aliados, que o ajudarão no que  for necessário. Mas não esqueça que o adversário também está observando, e conhece a diferença entre a mão firme e a mão tremula: portanto, se estiver tenso, respire fundo, acredite que está tranquilo – e por um destes milagres que não sabemos explicar, a tranquilidade logo se instala.   
 No momento em que você toma uma decisão e a coloca em marcha, procure rever mentalmente cada etapa que o levou a preparar seu passo. Mas faça isso sem tensão, porque é impossível ter todas as regras na cabeça: e com o espírito livre, à medida que revê cada etapa, irá dar-se conta dos momentos mais difíceis, e de como os superou. Isso irá se refletir em seu corpo, portanto preste atenção!
Fazendo uma analogia com o tiro com arco: muitos arqueiros se queixam que, apesar de praticarem por anos a arte do tiro, ainda sentem o coração disparar de ansiedade, a mão tremer, a pontaria falhar. A arte do tiro faz com que nossos erros sejam mais evidentes. 
No dia que você estiver sem amor pela vida, seu tiro será confuso, complicado. Verá que está sem força suficiente para esticar ao máximo a corda,  que não consegue fazer o arco curvar-se como deve. 
E ao ver que seu tiro é confuso naquela manhã, vai tentar descobrir o que provocou tamanha imprecisão: isso fará com que enfrente um problema que o incomoda, mas que até então encontrava-se oculto.
Você descobriu este problema porque seu corpo estava mais envelhecido, menos elegante. Mude a postura, relaxe a testa, estique a coluna, enfrente o mundo de peito aberto; ao pensar no seu corpo, você também está pensando em sua alma, e uma coisa ajudará a outra. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Histórias sobre a verdadeira humildade

Uma coisa deve estar bem clara para todos nós; não podemos confundir humildade com falsa modéstia ou com servilismo. Como diz Castaneda, um guerreiro não abaixa a cabeça para ninguém, mas tampouco deixa que alguém se humilhe diante dele. A seguir, algumas histórias sobre o lado positivo da humildade:

A pedra que falta
Um dos grandes monumentos da cidade de Kyoto é um jardim zen, uma superfície de areia com quinze rochas. 
O jardim original tinha dezesseis rochas. Conta a lenda que, assim que o jardineiro terminou sua obra, chamou o imperador para contemplá-la.
Magnífico - disse o imperador. -  É o mais lindo do Japão. E esta é a mais bela rocha do jardim.
Imediatamente o jardineiro tirou do jardim a pedra que o imperador tanto apreciara, e jogou-a fora. 
- Agora o jardim está perfeito – disse para o imperador. – Não existe nada que se sobressaia, e ele pode ser visto em toda a sua harmonia. 
"Um jardim, como a vida, precisa ser visto na sua totalidade. Se nos detivermos na beleza de um detalhe, todo o resto parecerá feio."
O céu e o inferno
Um samurai violento, com fama de provocar briga sem motivo, chegou as portas do mosteiro zen e pediu para falar com o mestre. 
Sem titubear, Ryokan foi ao seu encontro.
 - Dizem que a inteligência é mais poderosa que a força -  comentou o samurai.  -  Será que o senhor consegue me explicar o que é céu e inferno?
Riokan ficou calado. 
- Viu? – bradou o samurai. – Eu conseguiria explicar isso com muita facilidade: para mostrar o que é inferno, basta dar uma surra em alguém. Para mostrar o que é céu, basta deixar uma pessoa fugir, depois de ameaçá-la muito. 
- Não discuto com gente estúpida como você – comentou o mestre zen. 
O sangue do samurai subiu a cabeça. Sua mente ficou turva de ódio.
- Isto é inferno -  disse Ryokan, sorrindo. – Deixar-se provocar por bobagens. 
O guerreiro ficou desconcertado com a coragem do monge, e relaxou.
- Isso é o céu – terminou Ryokan, convidando-o para entrar. – Não aceitar provocações bobas.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A tempestade se aproxima

Sei que vem uma tempestade porque posso olhar à distância, ver o que está acontecendo no horizonte. Claro, a luz ajuda um pouco – é o final do entardecer, o que reforça o contorno das nuvens. Vejo também o clarão  dos raios. 
Nenhum ruído. O vento não  está soprando nem mais forte, nem mais fraco do que antes. Mas sei que vem uma tempestade, porque costumo olhar o horizonte. 
Paro de caminhar – nada mais excitante ou aterrorizante do que olhar uma tempestade que se aproxima. O primeiro pensamento que me ocorre é procurar abrigo – mas isso pode ser perigoso. O abrigo pode ser uma espécie de armadilha – daqui a pouco o vento começará a soprar, e deve ser forte o suficiente para arrancar telhados, quebrar galhos, destruir fios de alta tensão.
Lembro-me de um velho amigo, que quando criança vivia na Normandia, e pôde presenciar o desembarque das tropas aliadas na França ocupada pelos nazistas. Não  me esqueço de suas palavras: 
“Acordei, e o horizonte estava repleto de navios de guerra. Na praia ao lado de minha casa, os soldados alemães  contemplavam a mesma cena que eu. Mas a coisa que mais me aterrorizava era o silêncio. Um silêncio total, que precede um combate de vida ou morte”.
É esse mesmo silêncio que me cerca. E que pouco a pouco é substituído pelo barulho – muito suave – da brisa nos campos de milho a minha volta. A pressão atmosférica está mudando. A tempestade está cada vez mais próxima, e o silêncio começa a ser substituído pelo farfalhar suave das folhas.
Já presenciei muitas tempestades em minha vida. A maior parte das tormentas me pegou de surpresa, de modo que precisei aprender – e muito rápido – a olhar mais longe, entender que não sou capaz de controlar o tempo, a exercitar a arte da paciência, e a respeitar a fúria da natureza. Nem sempre as coisas acontecem do jeito que eu desejava, e é melhor me acostumar com isso. 
Muitos anos atrás compus uma música que dizia “eu perdi o meu medo da chuva/ pois a chuva, voltando para a terra, traz coisas do ar “. Melhor dominar o medo. Ser digno daquilo que escrevi, e entender que, por pior que seja o vendaval, em algum momento ele passará. 
O vento aumentou de velocidade. Estou em um campo aberto, existem árvores no horizonte que, pelo menos teoricamente, irão atrair os raios. Minha pele é impermeável, mesmo que as minhas roupas fiquem encharcadas. Portanto, melhor desfrutar desta visão, ao invés de sair correndo em busca de segurança. 
Outra meia hora se passa. Meu avô, engenheiro, gostava de me ensinar as leis da física enquanto nos divertíamos: “depois de ver o raio, conte os segundos e multiplique por 340 metros, que é a velocidade do som. Assim, você sempre saberá a distância dos trovões”. Um pouco complicado, mas me acostumei a fazer isso desde criança: neste momento a tempestade está a dois quilômetros de distância. 
Ainda há claridade suficiente para que eu possa ver o contorno das nuvens que os pilotos de avião chamam de CB – cumulus nimbus. O formato de bigorna, como se um ferreiro estivesse martelando os céus, forjando espadas para deuses enfurecidos, que neste momento devem estar sobre a cidade de Tarbes. 
Vejo a tempestade que se aproxima. Como toda e qualquer tempestade, ela traz destruição – mas ao mesmo tempo molha os campos, e a sabedoria do céu desce junto com a sua chuva. Como toda e qualquer tempestade, ela deve passar. Quanto mais violenta, mais rápida. 
Graças a Deus, aprendi a enfrentar tempestades.