quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Duas histórias reais na porta de uma igreja

llEncontro na 5ª Avenida
Eu estava saindo da igreja de Saint Patrick, em Nova York, quando um rapaz brasileiro se aproximou.
- Que bom encontrá-lo aqui – disse, sorrindo – Precisava muito dizer alguma coisa. 
Eu também gostei do encontro com um desconhecido. Convidei-o para tomar um café, contei a chatice que foi minha viagem a Denver, sugeri que fosse até o Harlem no domingo, para assistir um serviço religioso.
O rapaz, que devia ter vinte e poucos anos, me escutava sem dizer nada. 
Eu continuei a falar. Disse que acabara de ler um livro de ficção sobre um grupo terrorista que toma de assalto a igreja de Saint Patrick, e o escritor descrevia tão bem o cenário que me chamara a atenção sobre muitas coisas que jamais havia visto em minhas visitas ao local. Assim, tomara a decisão de passar por ali aquela manhã. 
Ficamos quase uma hora juntos, tomamos dois cafés, e eu conduzi a conversa o tempo todo. No final, nos despedimos, e desejei uma excelente viagem ao rapaz.  
- Obrigado – disse ele, afastando-se. 
Foi quando eu notei que seus olhos estavam tristes; alguma coisa tinha dado errada, e eu não sabia exatamente o que. Só depois de caminhar algumas quadras foi que me dei conta: o rapaz se aproximara dizendo que precisava muito falar comigo.
Durante o tempo que passamos juntos, eu assumira o controle da situação.  Em nenhum momento, perguntei o que ele queria; na tentativa de ser simpático, preenchi todos os espaços, não permiti um momento de silêncio, onde o rapaz finalmente pudesse transformar um monólogo em diálogo.
Talvez ele tivesse algo muito importante para compartilhar comigo. Talvez, se naquele momento eu estivesse realmente aberto para a vida, eu também teria algo para entregar ao rapaz. Talvez, tanto minha vida como a dele, tivesse mudado radicalmente depois daquele encontro. Nunca vou saber, e não vou ficar me torturando com o fato de que não soube aproveitar um momento mágico do dia; erros acontecem.  
Mas, desde então procuro manter viva na memória, a cena da minha despedida, e os olhos tristes do rapaz; quando eu não soube receber o que me era destinado, tampouco consegui dar aquilo que eu queria, por mais que me esforçasse.    

llEncontro no Posto Seis
O padre José Roberto, da Igreja da Ressurreição no Rio de Janeiro, saía certa manhã bem cedo, quando seu carro foi cercado por três adolescentes. 
- Passamos a noite em claro, padre – disse um deles, em tom desafiador. – Pode imaginar onde estivemos?
Como qualquer ser humano normal, José Roberto preferiu ficar quieto. Imaginou o que significa uma noite em claro naquela idade, sentiu medo pelos riscos que os garotos devem ter corrido, pensou na preocupação dos pais.
O adolescente que iniciara a conversa terminou por responder à própria pergunta:
- Ficamos na Igreja de N. Sra.Copacabana, adorando a Virgem. Saímos de lá tão eufóricos que viemos caminhando até aqui (aproximadamente 3 km.), cantando alto, rindo, falando com todo mundo. Pelo menos uma das pessoas nos perguntou: “como é que vocês, tão jovens, não têm vergonha de estarem bêbados a esta hora da manhã?”
O padre José Roberto deu partida no seu carro, e seguiu em direção ao seu compromisso. No caminho, se perguntou muitas vezes: “ Eu também me deixei levar pelas aparências, e cometi uma injustiça em meu coração. Será que algum ser humano vai finalmente entender a frase de Jesus, “vocês serão julgados com a mesma medida com que julgam seu próximo?”” 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Roda do Tempo

llHá anos morreu Carlos Castaneda, sem dúvida o mais importante escritor da geração hippie, embora jamais tenha sido aceito pela intelectualidade. Mas Castaneda pouco se importava com isso.  
Na ocasião, publiquei uma coluna com alguns trechos de seus livros editados no Brasil – e foi surpreendente o número de correspondência recebida. Muitos perguntavam: “mas ele viveu tudo o que diz?” Não tenho idéia, e isto tampouco tem importância – o que conta é a sua maneira de repensar o mundo. Seguem textos de “A Roda do Tempo” (“The Wheel of time”, Laugan Productions), onde o próprio Castaneda selecionou o que lhe parecia mais importante de tudo que publicou:

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 Um guerreiro aceita a responsabilidade de seus atos – mesmo os mais triviais. O homem comum nunca assume seus erros, mas assume qualquer vitória, mesmo que seja dos outros. Ele é um ganhador ou um perdedor, e pode transformar-se em perseguidor ou vítima, mas jamais chegará a condição de guerreiro, porque não merece.
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Um guerreiro  às vezes deve ser disponível, e às vezes deve estar oculto. É inútil para um guerreiro estar todo tempo disponível, assim como é inútil esconder-se quando todos sabem onde ele está escondido. Alternando a disponibilidade com a indisponibilidade, ele não se cansa à toa, e não cansa aqueles que estão ao seu lado.
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Para o homem comum, o mundo é estranho porque, quando não está cansado de viver, está sofrendo por coisas que acredita não merecer. Para um guerreiro, o mundo é estranho porque é estupendo, pavoroso, misterioso, insondável. A arte do guerreiro consiste em equilibrar o terror de ser um homem, com a maravilha de ser um homem. 
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Os atos têm poder. Especialmente quando o guerreiro sabe que cada luta pode ser sua última batalha. Existe uma estranha felicidade em agir com pleno conhecimento da idéia que podemos morrer no próximo minuto. 
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O mais difícil neste mundo é adotar a postura de um guerreiro. De nada serve estar triste, queixar-se, ou dizer que alguém está nos fazendo mal. Ninguém está fazendo nada a ninguém, e muito menos a um guerreiro.
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A confiança do guerreiro não é a confiança do homem comum. O homem comum busca a aprovação nos olhos do espectador, e chama a isso de certeza. O guerreiro busca ser impecável perante si mesmo, e chama a isso de humildade. O homem comum está ligado aos seus semelhantes, o guerreiro está conectado com o infinito. 
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Há muitas coisas que um guerreiro pode fazer em um determinado momento, e que não podia fazer há alguns anos. Não foram as coisas que mudaram; o que mudou foi a idéia que o guerreiro tinha a respeito de si mesmo. 
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O poder sempre coloca ao alcance do guerreiro um centímetro cúbico de sorte. A arte do guerreiro consiste em ser permanentemente fluido, para consegui-lo utilizar.
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Todo mundo dispõe de suficiente poder para conseguir alguma coisa. O segredo do guerreiro consiste em desviar a energia que antes dedicava a suas fraquezas, e utilizá-la em seu propósito nesta vida. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Lenin desce aos infernos

Depois de fazer a Revolução Russa, acabar com as diferenças de classes sociais, e dedicar sua vida inteira ao comunismo, Lenin finalmente morre. Por ser ateu e ter perseguido os religiosos, termina sendo condenado ao inferno. 
Ao chegar lá, descobre que a situação é pior que na Terra: os condenados são submetidos a sofrimentos incríveis, não há alimento para todos, os demônios são desorganizados, Satanás comporta-se como um rei absoluto - sem qualquer respeito por seus empregados ou pelas almas penadas que aguentam o suplício eterno. 
Lenin, indignado, rebela-se contra a situação: organiza passeatas, faz protestos, cria sindicatos com diabos descontentes, incentiva rebeliões. Em pouco tempo, o inferno está de cabeça para baixo: ninguém respeita mais a autoridade de Satanás, os demônios pedem aumento de salário, as sessões de suplício ficam vazias, os encarregados de manter acesas as fornalhas fazem greve.
Satanás já não sabe o que fazer: como seu reino pode continuar funcionando, se aquele rebelde está subvertendo todas as leis? Tenta um encontro com ele, mas Lenin, alegando não conversar com opressores, manda um recado através de um comitê popular, dizendo que não reconhece a autoridade do Chefe Supremo.
Desesperado, Satanás vai até o céu conversar com São Pedro. 
- Vocês lembram daquele sujeito que fez a revolução russa? – diz Satanás. 
- Lembramos muito bem – responde São Pedro. – Comunista. Odiava a religião. 
- Ele é um bom homem – insiste Satanás. – Mesmo que tenha seus pecados, não merece o inferno; afinal, procurou lutar por um mundo mais justo! Na minha opinião, ele devia estar no céu.
São Pedro reflete algum tempo. 
- Acho que você tem razão – diz finalmente. – Todos nós temos nossos pecados, e eu mesmo cheguei a negar Cristo por três vezes. Manda ele para cá. 
Louco de contentamento, Satanás volta sua casa, e envia Lenin direto para o céu. Em seguida, com mão de ferro e alguma violência,  termina com os sindicatos de demônios, dissolve o comitê de almas descontentes, proíbe assembléias e manifestações de condenados. 
O inferno volta a ser o famoso lugar dos tormentos que sempre assustou o homem. Louco de alegria, Satanás fica imaginando o que deve estar acontecendo no céu. 
“Qualquer hora São Pedro vai está batendo aqui, pedindo que Lenin retorne!“, ri consigo mesmo. “Aquele comunista deve ter transformado o paraíso em um lugar insuportável!”
O primeiro mês passa, um ano inteiro passa, e nenhuma notícia do céu. Morto de curiosidade, Satanás resolve ir até lá para ver o que está acontecendo. 
Encontra São Pedro na porta do Paraíso.
- E aí, como vão as coisas? – pergunta. 
- Muito bem – responde São Pedro. 
- Mas está tudo mesmo em ordem?
- Claro! Por que não haveria de estar?
“Este cara deve estar fingindo”, pensa Satanás. “Vai querer me empurrar Lenin de volta”
- Escuta, São Pedro, aquele comunista que eu mandei, tem se comportado bem?
- Muito bem! 
- Nenhuma anarquia?
- Pelo contrário. Os anjos são mais livres que nunca, as almas fazem o que bem desejam, os santos podem entrar e sair sem hora marcada. 
- E Deus, não reclama deste excesso de liberdade?
São Pedro olha, com uma certa piedade, o pobre diabo a sua frente.
- Deus? Camarada, Deus não existe!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Mogo quer melhorar sempre

(Uma bela história enviada pela leitora Shirlei Massapust)

Há muitos anos, vivia na China um jovem chamado Mogo, que ganhava o seu sustento quebrando pedras. Embora são e forte, o rapaz não estava contente com seu destino, e queixava-se noite e dia. Tanto blasfemou contra Deus, que seu anjo da guarda terminou aparecendo.
- Você tem saúde, e uma vida pela frente – disse o anjo. – Todos os jovens começam fazendo algo como você. Por que vive reclamando?
- Deus foi injusto comigo, e não me deu oportunidade de crescer – respondeu Mogo. 
Preocupado, o anjo foi à presença do Senhor, pedindo ajuda para que seu protegido não terminasse perdendo sua alma. 
- Seja feita a tua vontade – disse o Senhor. – Tudo que Mogo quiser, lhe será concedido. 
No dia seguinte, Mogo quebrava pedras quando viu passar uma carruagem levando um nobre, coberto de jóias. Passando as mãos pelo rosto suarento e sujo, Mogo disse com amargura:
- Por que não posso ser nobre também? Este é o meu destino!
- Sê-lo-ás! - murmurou seu anjo, com imensa alegria.
E Mogo transformou-se no  dono de um palácio suntuoso, muitas terras, cercado de servidores e cavalos. Costumava sair todos os dias com seu impressionante cortejo, e gostava de ver seus antigos companheiros alinhados à beira da rua, olhando-o com respeito.
Numa destas tardes, o calor estava insuportável; mesmo debaixo de seu guarda-sol dourado, Mogo transpirava como no tempo em que lascava pedras. Deu-se então conta de que não era tão importante assim: acima dele havia príncipes, imperadores, e ainda mais alto que estes estava o sol, que  não obedecia a ninguém – pois era o verdadeiro rei. 
 - Ah, anjo meu!  Por que não posso ser o sol? Este deve ser meu destino! - lamentou-se Mogo.
- Pois sê-lo-ás! - exclamou o anjo, escondendo sua tristeza diante de tanta ambição.
E Mogo foi sol, como era seu desejo.
Enquanto brilhava no céu, admirado com seu gigantesco poder de amadurecer as colheitas, ou queimá-las a seu bel-prazer, um ponto negro começou a avançar ao seu encontro. A mancha escura foi crescendo – e Mogo reparou que era uma nuvem, estendendo-se a sua volta, e fazendo com que não mais pudesse ver a Terra. 
- Anjo! - gritou Mogo - A nuvem é mais forte do que o sol! Meu destino é ser nuvem!
- Sê-lo-ás! - respondeu o anjo.
Mogo foi transformado em nuvem, e achou que havia realizado o seu sonho.
- Sou poderoso! - gritava, escurecendo o sol.
- Sou invencível! - trovejava, perseguindo as ondas.
Mas, na costa deserta do oceano erguia-se uma imensa rocha de granito, tão velha como o mundo. Mogo achou que a rocha o desafiava, e desencadeou uma tempestade que o mundo nunca antes vira. As ondas, enormes e furiosas, golpeavam a rocha, tentando arrancá-la do solo e atirá-la no fundo do mar.
Mas, firme e impassível, a rocha continuava no seu lugar. 
- Anjo! - soluçava Mogo - a rocha é mais forte que a nuvem! Meu destino é ser uma rocha!
E Mogo transformou-se na rocha.
- Quem poderá vencer-me agora? - perguntava a si mesmo. – Sou o mais poderoso do mundo! 
E assim se passaram vários anos, até que, certa manhã, Mogo sentiu uma lancetada aguda em suas entranhas de pedra, seguida de uma dor profunda, como se uma parte de seu corpo de granito estivesse sendo dilacerada.  Logo ouviu golpes surdos, insistentes, e novamente a dor gigantesca. 
Louco de espanto gritou:
- Anjo, alguém está querendo me matar! Ele tem mais poder que eu, eu quero ser como ele!
- E sê-lo-ás! - exclamou o anjo,  chorando.
E foi assim que Mogo voltou a lascar pedras.