sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Histórias sobre a velhice


llUm guerreiro da luz nunca tem pressa. O tempo trabalha a seu favor; ele aprende a dominar a impaciência, e evita gestos impensados.
Andando devagar, nota a firmeza de seus passos. Sabe que participa de um momento decisivo da história da humanidade, e precisa mudar a si mesmo antes de transformar o mundo. 
Um guerreiro da luz nunca colhe o fruto enquanto ele ainda está verde porque sabe que o tempo é seu aliado, e não seu inimigo. 

Descobri um novo método
llUm velho caçador de raposas – considerado o melhor da região – resolveu finalmente se aposentar. Juntou seus pertences e resolveu partir em direção ao sul do país, onde o clima era mais ameno. 
Entretanto, antes que terminasse de empacotar suas coisas, recebeu a visita de um jovem.
- Quero aprender suas técnicas – disse o recém-chegado. – Em troca, compro a sua loja, a sua licença de caçador, e ainda pagarei por todos os segredos que o senhor conhece. 
O velho concordou; assinaram o contrato, e ensinou ao rapaz tudo que sabia sobre o tema. Com o dinheiro recebido comprou uma bela casa no sul, onde passou o inverno inteiro sem precisar preocupar-se em juntar lenha para calefação, já que o clima era muito agradável. 
Na primavera, sentiu saudades de sua aldeia, e resolveu voltar para ver os seus amigos. 
Lá chegando, cruzou no meio da rua com o jovem que, alguns meses antes, resolvera pagar uma fortuna por seus segredos. 
- E então? – perguntou. – Como foi a temporada de caça?
- Não consegui pegar uma só raposa. 
O velho ficou surpreso e confuso:
- Mas você seguiu meus conselhos?
Com os olhos fixos no chão, o rapaz respondeu:
- Bem, na verdade não segui. Achei que seus métodos estavam ultrapassados e terminei desenvolvendo – por mim mesmo – uma melhor maneira de caçar raposas. 

Descobrindo o Amazonas
llO jesuíta Anthony Mello nos conta a história de um homem que, depois de muito viver e muito viajar, voltou ao seu povo. Reuniu os amigos, e começou a discorrer sobre as maravilhas da Amazônia. 
Todos ficaram muito entusiasmados, e o explorador deixou com eles um mapa, sugerindo que visitassem o local. 
Anos depois, voltou a sua terra, e viu o mapa emoldurado na prefeitura.
Um funcionário lhe disse:
- Isto é o Amazonas.
- Não, isto é um mapa do Amazonas! Vocês não foram visitá-lo?
- Para que? - respondeu o funcionário. – Já estamos velhos, decoramos cada cachoeira, rio, montanha. Por que perder tempo indo até lá?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Politicamente incorreto: casamento


llComo já aconteceu outras vezes, é importante abrir de vez em quando espaço nesta coluna para olhar o mundo de uma perspectiva diferente, mas incorreta. 
Hoje o tema central é o casamento, que começa sendo ilustrado por uma história: 
Adão caminhava pelos jardins do Paraíso com uma expressão bastante deprimida. Neste momento, ouviu a voz de Deus, que perguntava:
- O que está errado em sua vida?
Adão respondeu que não tinha ninguém com quem conversar. 
Deus, que gostaria de vê-lo contente, resolve que criaria uma companheira, a qual daria o nome de “mulher”.
- Farei o melhor possível – continuou Deus. – Esta nova criatura irá cozinhar, lavar, e sempre estar de acordo com qualquer coisa que você decidir. Ela irá lhe dar herdeiros, mas jamais o acordará no meio da noite para cuidar deles. 
“Não terá ciúmes, será a primeira a admitir que está errada (mesmo que não esteja), e encherá todas as suas horas de carinho, amor, e ternura.”
- Quanto isso vai me custar? – perguntou Adão. 
- Uma perna e um braço. 
- Muito caro. O que posso receber em troca de uma costela? 
O resto, como sabemos, é história. E deu origem a uma série de provérbios (também politicamente incorretos) que transcrevo a seguir:
“O diabo coloca o homem em cima da mulher no começo, para depois colocar a mulher em cima do homem” (provérbio da Córsega).
“Existem três tipos de homem que não compreendem as mulheres: os velhos, os jovens, e os que estão entre estas duas idades“ (provérbio irlandês).
“O casamento não é uma loteria, porque na loteria sempre existem vencedores” (G. Bernard Shaw).
“O amor é como a sopa: as primeiras colheres são desagradáveis porque queimam, e as últimas são horríveis porque estão sempre muito frias” (Jeanne Moreau).
“O amor é cego, mas o casamento faz com que possamos recuperar a visão” (provérbio alemão).
“A teoria da relatividade é o seguinte: uma hora perto de uma mulher bonita parece durar um minuto. Um minuto perto de uma mulher feia, parece durar uma hora” (Albert Eistein).
 “Jamais faça amor sábado à noite, porque o domingo vai chegar, e você não saberá como ocupar seu tempo” (Sacha Guitry).
“Os homens se casam porque estão cansados de procurar. As mulheres se casam porque tem medo de continuar procurando. Ambos terminam tristes com o resultado” (Oscar Wilde).
“As mulheres terminam vivendo sempre mais que os homens – sobretudo quando elas ficam viúvas” (Clemenceau)
“As mulheres dividem nosso prazer, dobram nossa inquietação, e triplicam nossas despesas” (Oscar Wilde).
“O divórcio é uma doença contagiosa, cujos primeiros sintomas surgem no dia de nosso casamento” (Elisabeth Taylor).
“O casamento é o único tipo de prisão perpétua cuja sentença só pode ser suspensa por má conduta” (de novo, Oscar Wilde).
  E para terminar esta coluna politicamente incorreta, conto a história do homem que, por não pagar imposto de renda, foi condenado a passar o resto da eternidade no inferno, casado com uma mulher horrível. Dois anos depois encontra outro amigo, que havia sonegado mais dinheiro que ele, vivendo com uma mulher mais feia ainda. 
 Os dois, conformados com o destino, encontram de repente um terceiro amigo – com uma loura inteligentíssima, belíssima, capaz de matar todos de inveja. 
- Mas como você conseguiu isso? – perguntam.
- Não tenho a menor ideia – responde o amigo. – Só sei que, cada vez que nos beijamos, ela grita: “maldito imposto de renda!”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Duas histórias sobre pedras


llA Internet continua sendo um grande manancial de histórias. A seguir, duas histórias sobre pedras, retiradas da rede. 

O seixo correto
O homem ouviu falar que certo alquimista perdera, num deserto muito próximo, o resultado de anos de seu trabalho: a famosa pedra filosofal, que transformava em ouro todo metal que tocava. 
Impulsionado pelo desejo de achá-la e ficar rico, o homem dirigiu-se ao deserto. Como não sabia exatamente o aspecto da pedra filosofal, começou a pegar todos os seixos que encontrava, colocando-os em contacto com a fivela do seu cinto, e vendo o que acontecia. 
Passou-se um ano, mais um, e nada. O homem, entretanto, seguia obstinadamente no desejo de recuperar a mágica pedra. Assim, automaticamente, caminhava pelos diversos vales e montanhas do deserto, esfregando um seixo atrás do outro em seu cinto.
Certa noite, antes de dormir, deu-se conta que a fivela havia se transformado em ouro!
Mas qual das pedras tinha sido? Será que o milagre acontecera de manhã, ou na parte da noite? Há quanto tempo, realmente, não olhava o resultado do seu esforço? O que antes era uma busca de um objetivo determinado, tinha se transformado num exercício mecânico, sem qualquer atenção ou prazer. O que era uma aventura, transformou-se numa obrigação aborrecida. 
Agora já não tinha como descobrir a pedra exata, pois a fivela já era de ouro, e nenhuma outra transformação aconteceria. Percorrera o caminho certo, e deixara de prestar atenção ao milagre que o esperava. 

As pedras maiores
 O mestre colocou, em cima da mesa, um vaso de vidro. 
Em seguida, retirou de um saco uma dezena de pedras do tamanho de uma laranja, e começou a enfiá-las, uma a uma dentro do jarro.
Quando o jarro já estava com pedras até a borda, perguntou aos seus alunos:
- Está cheio?
Todos disseram que sim. O mestre, porém, retirou de outro saco um cascalho, e sacudindo as pedras grandes dentro do jarro, conseguiu colocar bastante cascalho ali dentro. 
- Está cheio? – perguntou de novo.
Os alunos disseram que, desta vez, estava cheio. Foi quando o mestre abriu um terceiro saco, cheio de areia fina, e começou a derramá-la no jarro. A areia foi preenchendo o espaço vazio entre as pedras e o cascalho, até que chegou ao topo. 
- Muito bem – disse o mestre – agora o jarro está cheio. Qual o ensinamento que eu quis demonstrar?
- Que, não importa o quanto você esteja ocupado, sempre há espaço para fazer alguma coisa a mais – disse um aluno. 
- Nada disso.  Na verdade, esta pequena demonstração nos faz ver o seguinte: se não colocamos as pedras grandes antes, não poderemos colocá-las depois. 
“Então, quais são as coisas importantes na nossa vida? Quais os projetos que adiamos, as aventuras que não vivemos, os amores pelo qual não lutamos?      Perguntem quais são pedras grandes, sólidas, que mantém acesa em vocês a chama de Deus. E coloquem rápido no vaso de suas decisões, ou em pouco tempo já não encontrarão lugar para elas.” 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A história do lápis


llO menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:
- Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?
A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:
- Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele, quando crescesse.
O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial. 
- Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!
- Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo. 
“Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade”.
“Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas lhe farão ser uma pessoa melhor”. 
“Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça”. 
“Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você”.
“Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação”.

Vai ou não vai chover?
Depois de quatro anos de seca na pequenina aldeia do Nordeste, o pároco reuniu todos para uma peregrinação até a montanha; ali fariam uma oração coletiva, pedindo a chuva de volta.
No grupo, o padre notou um garoto, coberto por uma capa de chuva.
"Você enlouqueceu?", perguntou. “Nesta região não chove há cinco anos, e a subida vai lhe matar de calor!” 
"Estou resfriado, padre. Se vamos pedir chuva a Deus, já imaginou a volta da montanha? Vai ser tal a enxurrada que preciso estar preparado".
Neste momento, ouviu-se um grande estrondo no céu e as primeiras gotas começaram a cair. Bastou a fé de um menino para realizar um milagre que mesmo os mais preparados não estavam realmente acreditando. 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Como sobrevivemos?


llRecebo pelo correio três litros de produtos que substituem o leite. Uma companhia norueguesa quer saber se estou interessado em investir na produção deste novo tipo de alimento, já que, conforme o parecer do especialista David Rietz, “TODO (as maiúsculas são dele) leite de vaca tem 59 hormônios ativos, muita gordura, colesterol, dioxinas, bactérias e vírus”. 
Penso no cálcio que, desde criança, minha mãe me dizia que era bom para os ossos, mas o especialista se adiantou a mim: “Cálcio? Como é que as vacas conseguem adquirir suficiente cálcio para sua volumosa estrutura óssea? Das plantas!” Claro, o novo produto é feito à base de plantas, e o leite é condenado com base em um sem número de estudos feitos nos mais diversos institutos espalhados pelo mundo. 
E a proteína? David Rietz é implacável: “sei que chamam o leite de carne líquida (nunca ouvi esta expressão, mas ele deve saber o que está falando) por causa da alta dose de proteína ali contida. Mas é a proteína que faz com que o cálcio não possa ser absorvido pelo organismo. Países que tem uma dieta rica em proteínas também tem um alto índice de osteoporose (ausência de cálcio nos ossos)”.
Nesta mesma tarde, recebo de minha mulher um texto encontrado na internet: 
“As pessoas que hoje tem entre 40 e 60 anos andavam em carros que não tinham cinto de segurança, apoio de cabeça, ou airbag. As crianças iam soltas no banco de trás, fazendo a maior arruaça e se divertindo aos pulos”. 
“Os berços eram pintados com tintas coloridas”, “duvidosas”, já que podiam ter chumbo ou outro elemento perigoso.”
Eu por exemplo, sou parte de uma geração que fazia os famosos carrinhos de rolimã (não sei como explicar isso para a geração de hoje – digamos que eram bolas de metal presas entre dois aros de ferro) e descíamos as ladeiras de Botafogo, usando os sapatos como freio, caindo, se machucando, mas orgulhosos da aventura em alta velocidade. 
O texto continua:
“Não havia celular, nossos pais não tinham como saber onde estávamos: como era possível? As crianças jamais tinham razão, viviam de castigo, e nem por isso tinham problemas psicológicos de rejeição ou falta de amor. Na escola existiam os bons e os maus alunos: os primeiros passavam para a próxima etapa, os segundos eram reprovados. Não se procurava um psicoterapeuta para estudar o caso – exigiam apenas que se repetisse o ano”.
E mesmo assim sobrevivemos com alguns joelhos arranhados, e poucos traumas. Não apenas sobrevivemos, como nos lembramos, com saudade, do tempo em que leite não era veneno, em que a criança precisava resolver seus problemas sem ajuda, brigar quando necessário, e passar grande parte do dia sem jogos eletrônicos, inventando brincadeiras com os amigos. 
Mas voltemos ao tema inicial da coluna: resolvi experimentar o novo e milagroso produto que substitui o leite assassino. 
Não consegui passar do primeiro gole.
Pedi que minha mulher e minha empregada experimentassem, sem explicar o que era aquilo, e as duas disseram que jamais tinham provado algo tão ruim na vida. 
Fico preocupado com as crianças de amanhã, com seus jogos eletrônicos, pais com celulares, psicoterapeutas ajudando em cada derrota, e – sobretudo – sendo obrigadas a beber esta “poção mágica” que as manterão sem colesterol, osteoporose, 59 hormônios ativos, toxinas. 
Viverão com muita saúde, muito equilíbrio, e, quando crescerem, descobrirão o leite (a esta altura, possivelmente uma bebida fora da lei). Quem sabe um cientista de 2050 se encarregará de resgatar algo que é consumido desde o início dos tempos? 
Ou o leite será obtido apenas através de traficantes de drogas?