quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Duas histórias reais na porta de uma igreja

llEncontro na 5ª Avenida
Eu estava saindo da igreja de Saint Patrick, em Nova York, quando um rapaz brasileiro se aproximou.
- Que bom encontrá-lo aqui – disse, sorrindo – Precisava muito dizer alguma coisa. 
Eu também gostei do encontro com um desconhecido. Convidei-o para tomar um café, contei a chatice que foi minha viagem a Denver, sugeri que fosse até o Harlem no domingo, para assistir um serviço religioso.
O rapaz, que devia ter vinte e poucos anos, me escutava sem dizer nada. 
Eu continuei a falar. Disse que acabara de ler um livro de ficção sobre um grupo terrorista que toma de assalto a igreja de Saint Patrick, e o escritor descrevia tão bem o cenário que me chamara a atenção sobre muitas coisas que jamais havia visto em minhas visitas ao local. Assim, tomara a decisão de passar por ali aquela manhã. 
Ficamos quase uma hora juntos, tomamos dois cafés, e eu conduzi a conversa o tempo todo. No final, nos despedimos, e desejei uma excelente viagem ao rapaz.  
- Obrigado – disse ele, afastando-se. 
Foi quando eu notei que seus olhos estavam tristes; alguma coisa tinha dado errada, e eu não sabia exatamente o que. Só depois de caminhar algumas quadras foi que me dei conta: o rapaz se aproximara dizendo que precisava muito falar comigo.
Durante o tempo que passamos juntos, eu assumira o controle da situação.  Em nenhum momento, perguntei o que ele queria; na tentativa de ser simpático, preenchi todos os espaços, não permiti um momento de silêncio, onde o rapaz finalmente pudesse transformar um monólogo em diálogo.
Talvez ele tivesse algo muito importante para compartilhar comigo. Talvez, se naquele momento eu estivesse realmente aberto para a vida, eu também teria algo para entregar ao rapaz. Talvez, tanto minha vida como a dele, tivesse mudado radicalmente depois daquele encontro. Nunca vou saber, e não vou ficar me torturando com o fato de que não soube aproveitar um momento mágico do dia; erros acontecem.  
Mas, desde então procuro manter viva na memória, a cena da minha despedida, e os olhos tristes do rapaz; quando eu não soube receber o que me era destinado, tampouco consegui dar aquilo que eu queria, por mais que me esforçasse.    

llEncontro no Posto Seis
O padre José Roberto, da Igreja da Ressurreição no Rio de Janeiro, saía certa manhã bem cedo, quando seu carro foi cercado por três adolescentes. 
- Passamos a noite em claro, padre – disse um deles, em tom desafiador. – Pode imaginar onde estivemos?
Como qualquer ser humano normal, José Roberto preferiu ficar quieto. Imaginou o que significa uma noite em claro naquela idade, sentiu medo pelos riscos que os garotos devem ter corrido, pensou na preocupação dos pais.
O adolescente que iniciara a conversa terminou por responder à própria pergunta:
- Ficamos na Igreja de N. Sra.Copacabana, adorando a Virgem. Saímos de lá tão eufóricos que viemos caminhando até aqui (aproximadamente 3 km.), cantando alto, rindo, falando com todo mundo. Pelo menos uma das pessoas nos perguntou: “como é que vocês, tão jovens, não têm vergonha de estarem bêbados a esta hora da manhã?”
O padre José Roberto deu partida no seu carro, e seguiu em direção ao seu compromisso. No caminho, se perguntou muitas vezes: “ Eu também me deixei levar pelas aparências, e cometi uma injustiça em meu coração. Será que algum ser humano vai finalmente entender a frase de Jesus, “vocês serão julgados com a mesma medida com que julgam seu próximo?”” 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Roda do Tempo

llHá anos morreu Carlos Castaneda, sem dúvida o mais importante escritor da geração hippie, embora jamais tenha sido aceito pela intelectualidade. Mas Castaneda pouco se importava com isso.  
Na ocasião, publiquei uma coluna com alguns trechos de seus livros editados no Brasil – e foi surpreendente o número de correspondência recebida. Muitos perguntavam: “mas ele viveu tudo o que diz?” Não tenho idéia, e isto tampouco tem importância – o que conta é a sua maneira de repensar o mundo. Seguem textos de “A Roda do Tempo” (“The Wheel of time”, Laugan Productions), onde o próprio Castaneda selecionou o que lhe parecia mais importante de tudo que publicou:

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 Um guerreiro aceita a responsabilidade de seus atos – mesmo os mais triviais. O homem comum nunca assume seus erros, mas assume qualquer vitória, mesmo que seja dos outros. Ele é um ganhador ou um perdedor, e pode transformar-se em perseguidor ou vítima, mas jamais chegará a condição de guerreiro, porque não merece.
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Um guerreiro  às vezes deve ser disponível, e às vezes deve estar oculto. É inútil para um guerreiro estar todo tempo disponível, assim como é inútil esconder-se quando todos sabem onde ele está escondido. Alternando a disponibilidade com a indisponibilidade, ele não se cansa à toa, e não cansa aqueles que estão ao seu lado.
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Para o homem comum, o mundo é estranho porque, quando não está cansado de viver, está sofrendo por coisas que acredita não merecer. Para um guerreiro, o mundo é estranho porque é estupendo, pavoroso, misterioso, insondável. A arte do guerreiro consiste em equilibrar o terror de ser um homem, com a maravilha de ser um homem. 
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Os atos têm poder. Especialmente quando o guerreiro sabe que cada luta pode ser sua última batalha. Existe uma estranha felicidade em agir com pleno conhecimento da idéia que podemos morrer no próximo minuto. 
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O mais difícil neste mundo é adotar a postura de um guerreiro. De nada serve estar triste, queixar-se, ou dizer que alguém está nos fazendo mal. Ninguém está fazendo nada a ninguém, e muito menos a um guerreiro.
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A confiança do guerreiro não é a confiança do homem comum. O homem comum busca a aprovação nos olhos do espectador, e chama a isso de certeza. O guerreiro busca ser impecável perante si mesmo, e chama a isso de humildade. O homem comum está ligado aos seus semelhantes, o guerreiro está conectado com o infinito. 
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Há muitas coisas que um guerreiro pode fazer em um determinado momento, e que não podia fazer há alguns anos. Não foram as coisas que mudaram; o que mudou foi a idéia que o guerreiro tinha a respeito de si mesmo. 
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O poder sempre coloca ao alcance do guerreiro um centímetro cúbico de sorte. A arte do guerreiro consiste em ser permanentemente fluido, para consegui-lo utilizar.
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Todo mundo dispõe de suficiente poder para conseguir alguma coisa. O segredo do guerreiro consiste em desviar a energia que antes dedicava a suas fraquezas, e utilizá-la em seu propósito nesta vida. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Lenin desce aos infernos

Depois de fazer a Revolução Russa, acabar com as diferenças de classes sociais, e dedicar sua vida inteira ao comunismo, Lenin finalmente morre. Por ser ateu e ter perseguido os religiosos, termina sendo condenado ao inferno. 
Ao chegar lá, descobre que a situação é pior que na Terra: os condenados são submetidos a sofrimentos incríveis, não há alimento para todos, os demônios são desorganizados, Satanás comporta-se como um rei absoluto - sem qualquer respeito por seus empregados ou pelas almas penadas que aguentam o suplício eterno. 
Lenin, indignado, rebela-se contra a situação: organiza passeatas, faz protestos, cria sindicatos com diabos descontentes, incentiva rebeliões. Em pouco tempo, o inferno está de cabeça para baixo: ninguém respeita mais a autoridade de Satanás, os demônios pedem aumento de salário, as sessões de suplício ficam vazias, os encarregados de manter acesas as fornalhas fazem greve.
Satanás já não sabe o que fazer: como seu reino pode continuar funcionando, se aquele rebelde está subvertendo todas as leis? Tenta um encontro com ele, mas Lenin, alegando não conversar com opressores, manda um recado através de um comitê popular, dizendo que não reconhece a autoridade do Chefe Supremo.
Desesperado, Satanás vai até o céu conversar com São Pedro. 
- Vocês lembram daquele sujeito que fez a revolução russa? – diz Satanás. 
- Lembramos muito bem – responde São Pedro. – Comunista. Odiava a religião. 
- Ele é um bom homem – insiste Satanás. – Mesmo que tenha seus pecados, não merece o inferno; afinal, procurou lutar por um mundo mais justo! Na minha opinião, ele devia estar no céu.
São Pedro reflete algum tempo. 
- Acho que você tem razão – diz finalmente. – Todos nós temos nossos pecados, e eu mesmo cheguei a negar Cristo por três vezes. Manda ele para cá. 
Louco de contentamento, Satanás volta sua casa, e envia Lenin direto para o céu. Em seguida, com mão de ferro e alguma violência,  termina com os sindicatos de demônios, dissolve o comitê de almas descontentes, proíbe assembléias e manifestações de condenados. 
O inferno volta a ser o famoso lugar dos tormentos que sempre assustou o homem. Louco de alegria, Satanás fica imaginando o que deve estar acontecendo no céu. 
“Qualquer hora São Pedro vai está batendo aqui, pedindo que Lenin retorne!“, ri consigo mesmo. “Aquele comunista deve ter transformado o paraíso em um lugar insuportável!”
O primeiro mês passa, um ano inteiro passa, e nenhuma notícia do céu. Morto de curiosidade, Satanás resolve ir até lá para ver o que está acontecendo. 
Encontra São Pedro na porta do Paraíso.
- E aí, como vão as coisas? – pergunta. 
- Muito bem – responde São Pedro. 
- Mas está tudo mesmo em ordem?
- Claro! Por que não haveria de estar?
“Este cara deve estar fingindo”, pensa Satanás. “Vai querer me empurrar Lenin de volta”
- Escuta, São Pedro, aquele comunista que eu mandei, tem se comportado bem?
- Muito bem! 
- Nenhuma anarquia?
- Pelo contrário. Os anjos são mais livres que nunca, as almas fazem o que bem desejam, os santos podem entrar e sair sem hora marcada. 
- E Deus, não reclama deste excesso de liberdade?
São Pedro olha, com uma certa piedade, o pobre diabo a sua frente.
- Deus? Camarada, Deus não existe!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Mogo quer melhorar sempre

(Uma bela história enviada pela leitora Shirlei Massapust)

Há muitos anos, vivia na China um jovem chamado Mogo, que ganhava o seu sustento quebrando pedras. Embora são e forte, o rapaz não estava contente com seu destino, e queixava-se noite e dia. Tanto blasfemou contra Deus, que seu anjo da guarda terminou aparecendo.
- Você tem saúde, e uma vida pela frente – disse o anjo. – Todos os jovens começam fazendo algo como você. Por que vive reclamando?
- Deus foi injusto comigo, e não me deu oportunidade de crescer – respondeu Mogo. 
Preocupado, o anjo foi à presença do Senhor, pedindo ajuda para que seu protegido não terminasse perdendo sua alma. 
- Seja feita a tua vontade – disse o Senhor. – Tudo que Mogo quiser, lhe será concedido. 
No dia seguinte, Mogo quebrava pedras quando viu passar uma carruagem levando um nobre, coberto de jóias. Passando as mãos pelo rosto suarento e sujo, Mogo disse com amargura:
- Por que não posso ser nobre também? Este é o meu destino!
- Sê-lo-ás! - murmurou seu anjo, com imensa alegria.
E Mogo transformou-se no  dono de um palácio suntuoso, muitas terras, cercado de servidores e cavalos. Costumava sair todos os dias com seu impressionante cortejo, e gostava de ver seus antigos companheiros alinhados à beira da rua, olhando-o com respeito.
Numa destas tardes, o calor estava insuportável; mesmo debaixo de seu guarda-sol dourado, Mogo transpirava como no tempo em que lascava pedras. Deu-se então conta de que não era tão importante assim: acima dele havia príncipes, imperadores, e ainda mais alto que estes estava o sol, que  não obedecia a ninguém – pois era o verdadeiro rei. 
 - Ah, anjo meu!  Por que não posso ser o sol? Este deve ser meu destino! - lamentou-se Mogo.
- Pois sê-lo-ás! - exclamou o anjo, escondendo sua tristeza diante de tanta ambição.
E Mogo foi sol, como era seu desejo.
Enquanto brilhava no céu, admirado com seu gigantesco poder de amadurecer as colheitas, ou queimá-las a seu bel-prazer, um ponto negro começou a avançar ao seu encontro. A mancha escura foi crescendo – e Mogo reparou que era uma nuvem, estendendo-se a sua volta, e fazendo com que não mais pudesse ver a Terra. 
- Anjo! - gritou Mogo - A nuvem é mais forte do que o sol! Meu destino é ser nuvem!
- Sê-lo-ás! - respondeu o anjo.
Mogo foi transformado em nuvem, e achou que havia realizado o seu sonho.
- Sou poderoso! - gritava, escurecendo o sol.
- Sou invencível! - trovejava, perseguindo as ondas.
Mas, na costa deserta do oceano erguia-se uma imensa rocha de granito, tão velha como o mundo. Mogo achou que a rocha o desafiava, e desencadeou uma tempestade que o mundo nunca antes vira. As ondas, enormes e furiosas, golpeavam a rocha, tentando arrancá-la do solo e atirá-la no fundo do mar.
Mas, firme e impassível, a rocha continuava no seu lugar. 
- Anjo! - soluçava Mogo - a rocha é mais forte que a nuvem! Meu destino é ser uma rocha!
E Mogo transformou-se na rocha.
- Quem poderá vencer-me agora? - perguntava a si mesmo. – Sou o mais poderoso do mundo! 
E assim se passaram vários anos, até que, certa manhã, Mogo sentiu uma lancetada aguda em suas entranhas de pedra, seguida de uma dor profunda, como se uma parte de seu corpo de granito estivesse sendo dilacerada.  Logo ouviu golpes surdos, insistentes, e novamente a dor gigantesca. 
Louco de espanto gritou:
- Anjo, alguém está querendo me matar! Ele tem mais poder que eu, eu quero ser como ele!
- E sê-lo-ás! - exclamou o anjo,  chorando.
E foi assim que Mogo voltou a lascar pedras.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Quatro histórias da Cristandade

llNo caminho de cada um
O pastor Olivier era considerado o mais inspirado pregador das redondezas. Falava como se tivesse contato com Deus. 
“Nada pior do que tentar repetir o comportamento dos grandes, se você não tiver a mesma disposição para agir  que eles tiveram”, dizia Olivier. 
Quando morreu, seu filho Andrew ocupou o lugar. Os paroquianos ficaram preocupados; seria difícil suceder um  homem tão conectado com Deus. E, querendo dar um pouco de apoio moral ao jovem, uma mulher tentou consolá-lo.
“Lembre-se que você deve seguir seu próprio  caminho”, disse ela. “Jamais tente ser igual ao seu pai”.
“Ao contrário; eu sou exatamente como meu pai”,  respondeu Andrew. “Ele nunca tentou me imitar; por causa disso, eu jamais tentarei imitá-lo”.
E os paroquianos tiveram certeza de que estavam diante de um grande pregador.

llTambém estou lá fora
Na parábola do Filho Pródigo, o irmão que sempre  obedeceu ao pai fica indignado ao ver que o filho rebelde é  recebido com festa e alegria. Da mesma maneira, muitas pessoas obedientes à palavra do Senhor, terminam se transformando em carrascos impiedosos daqueles que algum dia se afastaram da Lei.  
Na pequena cidade do interior, um conhecido pecador foi impedido de entrar na igreja.
 Indignado, começou a rezar: 
“Jesus, me escuta. Não querem me deixar entrar em sua casa, porque acham que não sou digno”.
“Não se preocupe, meu filho”, respondeu Jesus. “Eu também estou do lado de fora, junto com aqueles com quem sempre estive – os pecadores como você”. 

llSeguindo o impulso
O padre Zeca, da Igreja da Ressurreição em Copacabana, conta que certa vez estava em um ônibus, quando  de repente escutou uma voz dizendo que ele devia levantar-se  e pregar a palavra de Cristo ali mesmo. 
Padre Zeca começou a conversar com a voz: “vão me achar ridículo, isto não é lugar para sermão”, disse.
 Mas algo dentro dele insistia, era preciso falar. “Sou tímido, por favor, não me peça isto”, implorou.  
O  impulso interior persistia. 
Então ele lembrou-se de sua promessa - abandonar-se a todos os desígnios de Cristo. Levantou-se, morrendo de vergonha, e começou a falar do Evangelho. Todos escutaram em silêncio. Ele olhava cada passageiro, e eram raros os que desviavam os olhos.  
Disse tudo que sentia, terminou seu sermão, e sentou-se de novo. Até hoje não sabe que tarefa cumpriu naquele momento; mas tem absoluta certeza de que cumpriu uma tarefa. 

llDo apostolado
Do monge Thomas Merton, no livro “Obra Aberta”:
“O verdadeiro apóstolo não se preocupa em pregar uma doutrina, liderar um movimento, recrutar homens para uma organização; ele apenas fala de Deus, e o resto vem por acréscimo”.
“O apóstolo não tem ambições de converter ninguém,  não quer usar fórmulas já gastas, não tenta vender o que não  tem preço, não se glorifica, não se desculpa. Ele está pregando apenas por amor. Esta é sua forma de expandir o êxtase que sente na presença de Cristo”.  
“Um apóstolo possui uma fé tão profunda, que mesmo que ninguém acreditasse, ele continuaria pregando”.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A história de Buda - I

llSidarta – cujo nome significa “aquele cujo objetivo é atingido” - nasceu em uma família nobre, por volta do ano 560 A . C. ,na cidade de Kapilavastu, no Nepal. 
Conta a lenda que, no momento em que sua mãe fazia amor com seu pai, ela teve uma visão: seis elefantes, cada um com uma flor de lótus nas costas, caminhavam em sua direção. No instante seguinte, Sidarta era concebido.
Durante sua gestação, a rainha Maya, sua mãe, resolveu chamar os sábios de seu reino para interpretar a visão que tivera, e eles foram unânimes em afirmar: a criança que estava para vir ao mundo seria um grande rei ou um grande sacerdote. 
Sidarta teve uma infância e uma adolescência muito semelhante à nossa: seus pais não queriam, de jeito nenhum, que ele tomasse conhecimento da miséria do mundo. Assim, vivia confinado entre os muros do gigantesco palácio onde seus pais habitavam, e onde tudo parecia perfeito e harmonioso. Casou, teve um filho, e conhecia apenas os prazeres e as delícias da vida. 
Entretanto, quando completou 29 anos, pediu certa noite a um dos guardas que o levasse até a cidade. O guarda reclamou, já que o rei podia ficar furioso, mas Sidarta foi tão insistente que o homem terminou por ceder, e os dois saíram. 
A primeira coisa que viram foi um velho mendigo, de olhar triste, pedindo esmolas. Mais adiante, encontrou um grupo de leprosos, e logo em seguida, um cortejo fúnebre passou. “Nunca tinha visto isso!”, deve ter comentado com o guarda, que possivelmente replicou: “Pois trata-se de velhice, doença, e morte.” Voltando para o palácio, cruzaram com um homem santo, de cabeça raspada e vestido apenas com um manto amarelo, que dizia: “ a vida me aterroriza, então renunciei a tudo, de modo que não precise encarnar-me novamente e sofrer mais uma vez a velhice, a doença e a morte”. 
Na noite seguinte, Sidarta esperou que a mulher e o filho dormissem. Entrou silenciosamente no quarto, beijou-os, e pediu de novo ao guarda que o conduzisse fora do palácio; ali, entregou-lhe sua espada com o punho cheio de pedras preciosas, sua roupa feita do tecido mais fino que a mão humana podia tecer, pedindo para que devolvesse tudo a seu pai; em seguida, raspou a cabeça, cobriu o corpo com um manto amarelo, e partiu em busca de uma resposta para as dores do mundo. 
Por muitos anos vagou pelo norte da Índia, encontrando-se com monges e homens santos que caminhavam por ali, e aprendendo as tradições orais que falavam de reencarnação, ilusão, e pagamento dos pecados de vidas passadas (carma). Quando julgou que já tinha aprendido o bastante, construiu para si mesmo um abrigo na margem do Rio Nairanjana, onde vivia fazendo penitência e meditando. 
Seu estilo de vida e sua força de vontade terminaram atraindo a atenção de outros homens em busca da verdade, que vieram ao seu encontro em busca de conselhos espirituais. Mas, depois de seis longos anos, tudo que Sidarta podia perceber era que seu corpo estava cada vez mais fraco, e as constantes infecções não lhe permitiam meditar como devia. 
Conta a lenda que, certa manhã, ao entrar no rio para fazer sua higiene pessoal, já não teve forças para levantar-se; quando ia morrendo afogado, uma árvore curvou seus ramos, permitindo que ele se agarrasse, e não fosse levado pela correnteza. Exausto, conseguiu chegar até a margem, onde desmaiou. 
Horas depois, passou pelo local um camponês que vendia leite, e ofereceu-lhe um pouco de alimento; Sidarta aceitou, para horror dos outros homens que ali viviam com ele. Achando que aquele santo não tinha conseguido mais forças para resistir à tentação, resolveram deixá-lo de imediato. Mas ele bebeu de bom grado o leite que lhe era oferecido, achando que ali estava um sinal de Deus e uma benção dos céus. 

(termina na próxima semana)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Duas histórias reais

O velho que atrapalhava tudo
G.I. Gurdjeff foi uma das mais intrigantes personalidades deste século. Bastante conhecido nos círculos que estudam ocultismo, é ainda ignorado como um importante estudioso da psicologia humana. 
A história a seguir passa-se quando ele, já morando em Paris, criou seu famoso Instituto para o desenvolvimento do homem. 
As aulas eram sempre bem concorridas. Mas entre os alunos, havia um velho – sempre de mau humor – que não parava de criticar o que ali era ensinado. Dizia que Gurdjeff era um charlatão, seus métodos não tinham qualquer base científica, e o fato de considerar-se um “mago” nada tinha a ver com sua verdadeira condição. Os alunos sentiam-se importunados pela presença daquele velho, mas Gurdjeff parecia não se importar. 
Um belo dia, ele abandonou o grupo. Todos se sentiram aliviados, achando que dali por diante as aulas seriam mais tranquilas e produtivas. Para surpresa dos alunos, porém, Gurdjeff foi até a casa do homem, e pediu para que voltasse a frequentar o Instituto. 
O velho recusou-se no início, e só aceitou quando lhe foi oferecido um salário para assistir as aulas. 
A história logo se espalhou. Os estudantes, revoltados, queriam saber como um mestre podia recompensar alguém que não tinha aprendido coisa alguma. 
- Na verdade, eu o estou pagando para que continue a dar suas aulas – foi a resposta. 
- Como? – insistiram os alunos. – Tudo que ele faz vai totalmente contra aquilo que o senhor nos está ensinando!
- Exatamente – comentou Gurdjeff. – Sem ele por perto, vocês custariam muito a aprender o que é raiva, intolerância, impaciência, falta de compaixão. 
“Entretanto, com este velho servindo de exemplo vivo, mostrando que tais sentimentos tornam a vida de qualquer comunidade um inferno, o aprendizado é muito mais rápido”. 
“Vocês me pagam para aprender a viver em harmonia, e eu contratei este homem para ajudar a ensiná-los – pelo caminho oposto”.

Como atingir a imortalidade
Ainda  jovem,  Beethoven resolveu  escrever  alguns  improvisos sobre músicas de Pergolesi. Dedicou-se durante meses ao trabalho, e finalmente teve coragem de divulgá-lo.
Um crítico publicou uma página inteira num jornal alemão, atacando com ferocidade a música do compositor. 
Beethoven, porém, não se abalou com os comentários. Quando seus amigos insistiram para que respondesse ao crítico, ele apenas comentou:
- O que preciso fazer é continuar meu trabalho. Se a música que componho for tão boa como penso, ela irá sobreviver ao jornalista. Se tiver a profundidade que espero que tenha, ela irá sobreviver ao próprio jornal. Então, se este ataque feroz ao que faço for lembrado no futuro, será apenas para ser usado como exemplo da imbecilidade dos críticos. 
Beethoven estava certíssimo. Mais de cem anos depois, a tal crítica foi lembrada num programa de rádio em São Paulo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pequeno sítio e a vaca

Existem certas histórias que circulam pela Internet de uma maneira quase obsessiva. Eu mesmo já recebi várias vezes, coisas que escrevi neste espaço. Um interessante intercâmbio tem se estabelecido entre os leitores e a coluna, e isso só enriquece o meu trabalho. 
A seguinte história merece ser recontada:
Um filósofo passeava por uma floresta com um discípulo, conversando sobre a importância dos encontros inesperados. Segundo o mestre, tudo que está diante de nós nos dá uma chance de aprender ou ensinar. 
Neste momento, cruzavam a porteira de um sítio que, embora muito bem localizado, tinha uma aparência miserável. 
- Veja este lugar – comentou o discípulo. – O senhor tem razão: acabo de aprender que muita gente está no Paraíso mas não se dá conta, e continua a viver em condições miseráveis. 
- Eu disse aprender e ensinar – retrucou o mestre. – Constatar o que acontece não basta: é preciso verificar as causas, pois só entendemos o mundo quando entendemos as causas. 
Bateram à porta, e foram recebidos pelos moradores: um casal e três filhos, com as roupas rasgadas e sujas. 
- O senhor está no meio desta floresta, e não há qualquer comércio nas redondezas – disse o mestre para o pai de família. – Como sobrevivem aqui?
 E o senhor, calmamente,  respondeu: 
 -  Meu amigo, nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos; com a outra parte nós produzimos queijo, coalhada, manteiga para o nosso consumo. E assim vamos sobrevivendo. 
 O filósofo agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos, e foi embora. No meio do caminho, disse ao discípulo: 
 - Pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali em frente, e jogue-a lá em baixo.
- Mas ela é a única forma de sustento daquela família!
O filósofo permaneceu mudo. Sem ter outra alternativa, o rapaz fez o que lhe era pedido, e a vaca morreu na queda.
A cena ficou marcada em sua memória. Depois de muitos anos, quando já era um empresário bem sucedido, resolveu voltar ao mesmo lugar, contar tudo à família, pedir perdão, e ajudá-los financeiramente. 
Qual foi sua surpresa ao ver o local transformado num belo sitio, com árvores floridas, carro na garagem,  e algumas crianças brincando no jardim. Ficou desesperado, imaginando que a família humilde tivera que vender o sítio para sobreviver. 
Apertou o passo, e foi recebido por um caseiro muito simpático.
- Para onde foi a família que vivia aqui há dez anos? – perguntou. 
- Continuam donos do sitio – foi a resposta. 
 Espantado, ele entrou correndo na casa, e o senhor o reconheceu. Perguntou como estava o filósofo, mas o rapaz estava ansioso demais para saber como conseguira melhorar o sítio, e ficar tão bem de vida:
- Bem, nós tínhamos uma vaca, mas ela caiu no precipício e morreu – disse o senhor. – Então, para sustentar minha família, tive que plantar ervas e legumes. As plantas demoravam a crescer, e comecei a cortar madeira para venda. Ao fazer isto, tive que replantar as árvores, e necessitei comprar mudas. Ao comprar mudas, lembrei-me da roupa ade meus filhos, e pensei que podia talvez cultivar algodão. Passei um ano difícil, mas quando a colheita chegou, eu já estava exportando legumes, algodão, ervas aromáticas. 
Nunca havia me dado conta de todo o meu potencial aqui: ainda bem que aquela vaquinha morreu!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Final: Manuel vai ao Paraíso

llNas duas colunas anteriores, analisei a vida de Manuel, sempre ocupado, achando que trabalhar – seja no que for – dá um sentido a vida, e jamais se perguntando qual é este sentido. 
Mais tarde, Manuel se aposenta. Desfruta um pouco a liberdade de não ter hora para acordar, e poder usar seu tempo para fazer o que quiser. Mas logo cai em depressão: sente-se inútil, afastado da sociedade que ajudou a construir, abandonado pelos filhos que cresceram, incapazes de entender o sentido da vida – já que jamais se preocupou em responder à famosa pergunta: “O que estou fazendo aqui?”
Bem, nosso querido, honesto, dedicado Manuel, termina morrendo um dia – o que irá acontecer com todos os Manuéis, Paulos, Marias, Monicas da vida. E neste caso, eu deixo a palavra a Henry Drummond, em seu brilhante livro “O Dom Supremo”, para descrever o que se passa daí por diante:

Todos nós, em algum momento, já fizemos a mesma pergunta que todas as gerações fizeram:
Qual é a coisa mais importante da nossa existência?
Queremos empregar nossos dias da melhor maneira, pois ninguém mais pode viver pela gente. Então, precisamos saber: para onde devemos dirigir nossos esforços, qual o supremo objetivo a ser alcançado?
Estamos acostumados a escutar que o tesouro mais importante do mundo espiritual é a Fé. Nesta simples palavra se apóiam muitos séculos de religião.
Consideramos a Fé a coisa mais importante do mundo? Pois bem, estamos completamente errados.
Em sua epistola aos Corintios, capitulo XIII, (São) Paulo nos conduz aos primeiros tempos do Cristianismo. E termina dizendo: “permanecem a Fé, a Esperança, e o Amor, estes três. Porém, o mais importante é o Amor”.
Não se trata de uma opinião superficial de (São) Paulo, autor destas frases. Afinal de contas, ele estava falando de Fé um momento antes, na mesma carta. Ele dizia:
“Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver Amor, nada serei”.
Paulo não fugiu do assunto; pelo contrário, comparou a Fé com o Amor. E concluiu:
“(...) o maior destes é o Amor”.
Mateus nos dá uma descrição clássica do Juízo Final: o Filho do Homem senta-se em um trono, e separa, como um pastor, os cabritos das ovelhas.
Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?”
Será, isto sim: “Como amei?”
O  teste final de toda busca da Salvação, será o Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.
Nada disso nos será cobrado. O que nos será cobrado: nossa maneira de amar o próximo.
Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Seremos julgados pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão, de que Seu Filho morreu inutilmente.

Neste caso, nosso Manuel é salvo no momento de sua morte, porque apesar de jamais ter dado um sentido à sua vida, foi capaz de amar, prover a sua família, e ter dignidade naquilo que fazia. Entretanto, mesmo que o final seja feliz, o resto de seus dias na terra foi muito complicado. 
Repetindo uma frase que escutei de Shimon Peres no Fórum Mundial de Davos: “tanto o otimista como o pessimista terminam  morrendo. Mas os dois aproveitaram a vida de maneira completamente distinta”. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Segundo capítulo: Manuel é um homem livre

llManuel trabalha 30 anos sem parar, educa seus filhos, dá bom exemplo, dedica-se o tempo inteiro ao trabalho, e jamais pergunta: “será que tem sentido o que estou fazendo?” Sua única preocupação é achar que, quanto mais ocupado estiver, mais importante será aos olhos da sociedade. 
Seus filhos crescem e saem de casa, é promovido no trabalho, um dia em que ganha um relógio ou uma caneta como recompensa por todos estes anos de dedicação, os amigos vertem algumas lágrimas, e chega o momento tão esperado: está aposentado, livre para fazer o que quiser! Nos primeiros meses, ele visita uma vez por outra o escritório onde trabalhou, conversa com os antigos amigos, e dá-se ao prazer de fazer algo que sempre sonhou: acordar mais tarde. Passeia na praia ou na cidade, tem sua casa de campo comprada com muito suor, descobriu a jardinagem, e vai aos poucos penetrando no mistério das plantas e das flores. Manuel tem tempo, todo o tempo do mundo. Viaja usando parte do dinheiro que conseguiu juntar. Visita museus, aprende em duas horas o que pintores e escultores de diferentes épocas levaram séculos para desenvolver, mas pelo menos fica com a sensação de que está aumentando sua cultura. Tira muitas centenas, milhares de fotos, e manda para os amigos – afinal, eles precisam saber o quanto é feliz! 
Outros meses se passam. Manuel aprende que o jardim não segue exatamente as mesmas regras que o homem – o que plantou vai demorar a crescer, e não adianta tentar ver se a roseira já tem botões. Em um momento de sincera reflexão, descobre que tudo que viu em suas viagens foi uma paisagem do lado de fora do ônibus de turismo, monumentos que agora estão guardados em fotos 6x9, mas na verdade não conseguiu sentir nenhuma emoção especial – estava mais  preocupado em contar para os amigos do que viver a experiência mágica de estar em um país estrangeiro. 
Continua assistindo a todos os noticiários de televisão, lê mais jornais (porque tem mais tempo), julga-se uma pessoa extremamente bem informada, capaz de discutir coisas que antes não tinha tempo para estudar. 
Procura alguém para dividir suas opiniões – mas todos estão imersos no rio da vida, trabalhando, fazendo alguma coisa, invejando Manuel por sua liberdade, e ao mesmo tempo contentes por serem úteis a sociedade, e estarem “ocupados” com alguma coisa importante. 
Manuel busca conforto nos filhos. Estes sempre o tratam com muito carinho – foi um excelente pai, um exemplo de honestidade e dedicação – mas também eles têm outras preocupações, embora considerem um dever participar do almoço de domingo. 
Manuel é um homem livre, com uma situação financeira razoável, bem informado, um passado impecável, mas e agora? O que fazer desta liberdade tão arduamente conquistada? Todos o cumprimentam, o elogiam, mas ninguém tem tempo para ele. Pouco a pouco, Manuel começa a sentir-se triste, inútil – apesar dos muitos anos servindo ao mundo e à sua família. 
Certa noite, um anjo aparece em seu sonho: “o que você fez da sua vida? Você procurou vivê-la de acordo com seus sonhos?”
Manuel acorda suando frio. Que sonhos? Seu sonho era esse: ter um diploma, casar, ter filhos, educá-los, aposentar-se, viajar. Por que o anjo fica perguntando coisas sem sentido? 
Um novo e longo dia começa: os jornais, o noticiário na TV, o jardim e o almoço. Dormir um pouco, fazer o que tem vontade e, neste momento, descobre que não tem vontade de fazer nada. Manuel é um homem livre e triste, a um passo da depressão, porque estava ocupado demais para pensar no sentido da sua vida, enquanto os anos corriam por debaixo da ponte. Lembra-se dos versos de um poeta: “passou pela vida/não viveu”. 
Mas  como é tarde demais para aceitar isso, melhor mudar de assunto. A liberdade, tão duramente conseguida, não passa de um exílio disfarçado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Manuel é um homem importante e necessário

llManuel precisa estar ocupado. Caso contrário, acha que sua vida não tem sentido, está perdendo seu tempo, a sociedade não precisa dele, ninguém o ama, ninguém o quer. 
Portanto, assim que acorda, tem uma série de tarefas: assistir o noticiário na televisão (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa durante o dia de ontem), pedir à mulher que não deixe as crianças se atrasarem para a escola, pegar um carro, um táxi, um ônibus, um metrô, mas sempre concentrado, olhando o vazio, olhando o relógio, se possível dando alguns telefonemas em seu celular – e fazendo questão que todos vejam que é um homem importante, útil para o mundo. 
Manuel chega no trabalho, debruça-se sobre a papelada que o espera. Se for um funcionário, faz o possível para que  chefe veja que chegou na hora. Se for patrão, coloca todos para trabalhar imediatamente; caso não existam tarefas importantes, Manuel irá desenvolvê-las, cria-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de ação. 
Manuel vai almoçar – mas jamais sozinho. Se for patrão, senta-se com os amigos, discute novas estratégias, fala mal dos concorrentes, sempre tem uma carta escondida na manga, queixa-se (com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel for funcionário, também senta-se com os amigos, queixa-se do chefe, diz que está fazendo muita hora extra, afirma com desespero (e com muito orgulho) que várias coisas na empresa dependem dele. 
Manuel – patrão ou empregado – trabalha a tarde inteira. De vez em quando olha o relógio, está chegando a hora de voltar para casa, mas falta resolver um detalhe aqui, assinar um documento ali. É um homem honesto, quer fazer jus ao seu salário, às expectativas dos outros, aos sonhos de seus pais, que tanto se esforçaram para lhe dar educação necessária. 
Finalmente volta para casa. Toma banho, coloca uma roupa mais confortável, vai jantar com a família. Pergunta pelos deveres dos filhos, as atividades da mulher. De vez em quando fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo – porque não costuma trazer preocupações para casa. O jantar termina, os filhos – que não estão nem aí para exemplos, deveres, ou coisas similares – saem logo da mesa e vão para frente do computador. Manuel, por sua vez, vai também sentar-se diante daquele velho aparelho de sua infância, chamado televisão. De  novo vê os noticiários (pode ter acontecido alguma coisa de tarde) 
Vai deitar-se sempre com um livro técnico na mesa de cabeceira – sendo patrão ou empregado, sabe que a concorrência é grande, e quem não se atualiza, corre o risco de perder o emprego e ter que enfrentar a pior das maldiçoes: ficar desocupado. 
Conversa alguma coisa com sua mulher – afinal, é um homem gentil, trabalhador, amoroso,  que cuida de sua família e está pronto para defendê-la em qualquer circunstância. O sono vem logo, Manuel dorme, sabendo que no dia seguinte estará muito ocupado, e é preciso recuperar as energias. 
Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo lhe pergunta: “por que você faz isso?” Ele responde que é um homem responsável. 
O anjo continua: “você seria capaz de, pelo menos durante quinze minutos do seu dia, parar um pouco, olhar o mundo, olhar você mesmo, e simplesmente não fazer nada?” Manuel diz que adoraria, mas não tem tempo para isso. “Você está me enganando”, diz o anjo. “Todo mundo tem tempo para isso, o que falta é coragem. Trabalhar é uma benção quando isso nos ajuda a pensar no que estamos fazendo. Mas torna-se uma maldição quando sua única utilidade é evitar que pensemos no sentido de nossa vida”.
Manuel acorda no meio da noite, suando frio. Coragem? Como é que um homem que se sacrifica pelos seus, não tem coragem de parar quinze minutos? 
É melhor dormir de novo, tudo não passa de um sonho, estas perguntas não levam a nada, e amanhã vai estar muito, muito ocupado. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quando o proibido é proibido

llLogo depois de uma palestra em Haia, na Holanda, um grupo de leitores se aproximou. Queriam que visitasse a cidade onde vivem, já que, segundo eles, ali estavam fazendo uma experiência única na Europa. 
Estou vacinado contra “experiências únicas no mundo”, mas ao mesmo tempo, adoro conversar com desconhecidos. Marcamos para o dia seguinte, já que meu vôo para Paris saía apenas no final da tarde. 
Os leitores – duas moças e quatro rapazes, que se comprometeram a me deixar ao aeroporto assim que eu tivesse visto algo “único na Europa”, me levaram até a cidade de Drachten. Saímos do carro, eles beberam cerveja, eu tomei um café. Me olhavam surpresos, mas eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Depois de algum tempo, um deles perguntou:
- Não reparou nada diferente?
Uma cidade pequena, bonita, com gente andando pela rua, em um outono que ainda parecia verão. Fora disso, igual a todas as outras cidades que conheço no mundo. Eles pagaram a conta, atravessamos a rua para ir a outro bar, pediram que olhasse de novo – e continuei achando Drachten muito simpática, e muito igual ao resto da Europa. 
- - Você me decepcionou – disse uma das moças. – Achei que acreditava em sinais. 
- Claro que acredito.
- E você viu algum sinal aqui?
- Não. 
- Pois é justamente isso! Drachten é uma cidade sem qualquer sinal!
Seu namorado completou:
- De tráfego!
De repente, me dei conta que eles tinham absoluta razão: não havia a famosa placa “Stop”, as faixas de pedestre, as marcas de cruzamento e de “ceda a passagem”. Não havia um só aparelho daqueles que chamamos de sinais, ou semáforos, com suas luzes vermelhas, amarelas e verdes! E, para minha surpresa, nem sequer existia a divisão entre a calçada e a rua. O movimento estava longe de ser pequeno: caminhões, carros, bicicletas (onipresentes na Holanda), pedestres, todos pareciam estar perfeitamente organizados no meio de um lugar onde não havia nada para colocar ordem no trânsito. Em momento algum ouvi um impropério, escutei freiadas súbitas, ou buzinas ensurdecedoras. 
No caminho para o aeroporto, eles me contaram um pouco mais sobre a experiência, que – preciso concordar – é realmente singular.  A idéia nasceu de um engenheiro, Hans Mondermann. Ele trabalhava para o governo holandês na década de 70, quando começou a pensar que a única maneira de diminuiu o crescimento constante de acidentes, era dar ao motorista total responsabilidade pelo que fazia. 
Sua primeira providência foi diminuir a largura das estradas que passavam por vilarejos, usar tijolos vermelhos ao invés de asfalto, tirar a linha central que separa as duas mãos, destruir os meio-fios, e encher as alamedas com fontes e paisagens relaxantes – de modo que as pessoas, presas em engarrafamentos, pudessem distrair-se enquanto esperavam. Logo em seguida veio a decisão radical: tirar os sinais de transito, e acabar com um limite de velocidade. 
Ao entrarem na cidade, os 6.000 motoristas que passavam ali por dia, ficavam assustados: onde posso dobrar? De quem é a via preferencial? E assim, passavam a prestar o dobro de atenção ao que acontecia em volta. Duas semanas depois, a velocidade média era abaixo dos 30 km/h permitido em locais como Drachten. Monderman apostava alto:
“Se um pedestre vai atravessar a rua, claro que o carro terá que parar: nossos avós nos ensinaram as regras de cortesia”.
Até o momento, isso tem dado certo. Cheguei no aeroporto pensando que Monderman não fez apenas uma experiência de transito, mas algo muito mais profundo. Afinal, é sua a frase: 
 “Se você tratar uma pessoa como idiota, ela se comporta conforme o regulamento, e nada mais. Mas se você lhes der responsabilidade, ela saberá usá-la”. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As palavras e o ser humano

“No início, era o Verbo”: todos nós conhecemos esta frase da Bíblia. O mais interessante é que Deus não é comparado com uma figura, um efeito da natureza, e sim com uma expressão gramatical. No meu ofício de escritor, sou obrigado a concentrar-me na importância das palavras, mas creio que todo ser humano deva sempre prestar atenção ao que diz e ao que ouve. 
Precisamos dividir. Mesmo que sejam informações que  todos já saibam, é importante não se deixar levar pelo pensamento egoísta de chegar sozinho ao fim da jornada. Quem faz isto, descobre um paraíso vazio, sem qualquer interesse especial - e em breve estará morrendo de tédio.
Não podemos pegar as luzes que iluminam o caminho e carregar conosco. Se agirmos assim, vamos encher nossas  mochilas com lanternas, e teremos que nos livrar do alimento que nos dá força para seguir adiante: amor.
Precisamos receber: estímulos, conselhos, informações. Mas às vezes, por insegurança, interrompemos uma conversa no meio, com medo de mostrar ao nosso interlocutor que desconhecemos aquele assunto. Qual o problema de aprender? Por que nos sentimos humilhados quando alguém toca em temas que desconhecemos? Ninguém tem obrigação de conhecer tudo.
Disse Albert Einstein:  "cem vezes por dia eu me lembro que minha vida interior e minha vida exterior dependem do trabalho que outros homens estão fazendo agora. Por causa disso, preciso me esforçar para retribuir pelo menos uma parte desta generosidade – e não posso deixar nenhum minuto vazio”. 
E, enquanto não inventarem um novo processo de comunicação mais direto que a palavra, teremos que nos contentar com ela, mesmo que às vezes seja pobre demais para descrever o que sentimos. O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade diz, em uma carta ao seu neto:
“Admiro que ame nos vegetais a carga de silêncio,  Luis Maurício / Mas há que tentar o diálogo, quando a solidão é um vício”.
Conheço pessoas que não dão importância à palavra. Mas conheço também pessoas que têm medo das palavras.
Sim, é verdade que às vezes dizemos: "puxa, faz tempo que não discuto com fulano"; ou "nunca mais tive uma gripe". De repente, no dia seguinte, pegamos uma gripe ou discutimos com fulano. 
Então concluímos: se comentarmos as coisas boas que  acontecem conosco, isto trará má sorte. 
Nada disso. Na verdade, antes de qualquer problema, a Alma do Mundo nos mostra quanto tempo ficamos sem nos aborrecer com determinada coisa. Ela quer nos dizer como a vida tem sido generosa até aquele momento – e continuará sendo, se superarmos com bravura o obstáculo.
Fale. Dialogue. Participe. Nada mais desprezível que o “observador” acomodado e covarde. Sua coragem em expressar opiniões vai lhe ajudar a crescer em qualquer dificuldade. Fale das coisas boas da sua vida para todos que quiserem ouvir: a Alma do Mundo precisa muito de sua alegria; Deus ficará contente ao ver seu sorriso. Fale dos momentos difíceis que pode estar vivendo: dê uma chance aos outros de dar aquilo que você precisa, nem que seja apenas uma frase de conforto. 
A palavra é poder. As palavras transformam o mundo e o homem. Os vencedores falam com orgulho dos milagres de suas vidas. Quanto mais energia positiva ao seu redor, mais energia positiva será atraída, e mais alegres vão ficar aqueles que lhe querem bem. Quanto aos invejosos, aos derrotados - estes só poderão lhe causar algum dano se você lhes der este poder.
“Minha dança, minha bebida, e meu canto, são o colchão onde minha alma repousará, quando voltar ao mundo dos espíritos”, diz um sábio indonésio.
Portanto, use verbos, sujeitos, predicados, e cante suas alegrias e tristezas, mas cante todos os dias de sua vida. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A busca da árvore da imortalidade

Conta o famoso poeta persa Rumi que certo dia, em uma aldeia do norte do atual Irã, apareceu um homem contando histórias maravilhosas sobre uma árvore cujos frutos davam imortalidade a quem os comesse. 
A notícia logo chegou aos ouvidos do rei, mas antes que ele pudesse pedir a localização exata de tal prodígio da natureza, o viajante já havia partido. 
O rei, entretanto, estava decidido a tornar-se imortal, pois queria ter tempo suficiente de transformar o seu reino em um exemplo para todos os povos do mundo. Quando ainda jovem, sonhara em fazer desaparecer a pobreza, ensinar a justiça, alimentar cada um dos seus súditos, mas logo se deu conta que este trabalho durava mais de uma geração. Entretanto, a vida tinha lhe dado uma chance, e não iria deixar que ela lhe escapasse.   
Chamou o homem mais corajoso da sua corte, e encarregou-o de encontrar a árvore. 
O homem partiu no dia seguinte, munido de dinheiro suficiente para conseguir informações, comida, e todo o  necessário para atingir sua meta. Percorreu cidades, planícies, montanhas, perguntando e oferecendo recompensas; as pessoas honestas diziam que tal árvore não existia, os cínicos demonstravam um respeito irônico, e alguns trapaceiros terminavam lhe enviando a lugares remotos, apenas com o objetivo de conseguir algumas moedas em troca. 
Depois de muitas decepções, o homem resolveu renunciar à sua busca; embora tivesse uma imensa admiração por seu soberano, iria voltar com as mãos vazias. Sabia que com isso perderia sua honra, mas estava cansado, e convencido de que a tal árvore não existia.  
No caminho de volta, ao subir uma pequena colina, lembrou-se que ali vivia um sábio. E pensou: “não tenho mais esperança de encontrar o que queria, mas pelo menos posso pedir sua benção, e implorar para que reze pelo meu destino”.
Ao chegar diante do sábio, não agüentou e caiu em prantos. 
- Por que estás tão desesperado, meu filho? – perguntou o homem santo. 
- O rei me encarregou de encontrar uma árvore que era única no mundo; seu fruto nos faz viver para sempre. Sempre cumpri minhas tarefas com lealdade e coragem, mas desta vez estou voltando com as mãos vazias. 
O sábio começou a rir:
- Isto que você está buscando existe, e é feito da água da Vida que provém do infinito oceano de Deus. O seu erro foi tentar buscar uma forma, com um nome. 
“Às vezes isso se chama ”árvore”, outras vezes “sol”, outras vezes “nuvem”, e a podemos chamar de qualquer coisa que exista sobre a face da terra. Entretanto, para conseguir encontrar este fruto, é preciso renunciar à forma, e buscar o conteúdo. 
“Qualquer coisa onde está a presença da Criação é eterna em si mesma. Nada pode ser destruído; quando nosso coração para de bater, ainda assim nossa essência se transforma na natureza ao redor. Podemos virar árvores, gotas de chuva, plantas, ou até mesmo outro ser humano”.
“Por que deter-se na palavra “árvore”, e esquecer que somos imortais? Renascemos sempre em nossos filhos, no amor que manifestamos para com o mundo, em cada um dos gestos de generosidade e caridade que praticamos. 
“Volta e diga ao rei que ele não precisa se preocupar em encontrar um fruto de uma árvore mágica: cada atitude e decisão que tomar agora, irá permanecer por muitas gerações. Peça, portanto, que seja justo com seu povo; se ele fizer seu trabalho com dedicação, ninguém o esquecerá, e seu exemplo irá influenciar a história do seu povo, e estimular seus filhos e netos a agirem sempre da melhor maneira possível”.
“E diz ainda o seguinte: todo aquele que busca apenas um nome, sempre permanecerá ligado à aparência, sem jamais descobrir o mistério oculto das coisas, e o milagre da vida”. 
“Todas as lutas que enfrentamos são por causa de nomes: propriedade, ciúme, riqueza, imortalidade. Entretanto, quando nos esquecemos do nome e buscamos a realidade que se esconde atrás das palavras, teremos tudo que desejamos – e, além disso, teremos paz de espírito”.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Aceitando a si mesmo

Quando você ganhar, comemore: celebrar uma conquista é um importante rito de passagem. Esta vitória custou momentos difíceis, noites de dúvidas,  intermináveis dias de espera. Desde os tempos antigos, alegrar-se com um triunfo faz parte do próprio ritual da vida. 
A comemoração marca o final de uma etapa, embora - por incrível que pareça - muita gente recusa-se a isso, por medo de decepção, de atrair "mau-olhado", etc. Quem age assim, não se beneficia do melhor presente que a vitória nos dá: confiança. 
Devemos, sempre que possível, comemorar hoje as pequenas vitórias de ontem, por mais insignificantes que pareçam. Amanhã, uma nova luta se aproxima, e irá exigir  nossa atenção e esforço: a lembrança de um êxito nos faz mais fortes para a próxima batalha.
A seguir, algumas pequenas histórias a respeito.

Aceitando que merece o melhor
O famoso pianista Arthur Rubinstein (1887-1982) atrasou-se para um almoço num importante restaurante de New York. Seus amigos começaram a ficar preocupados - mas Rubinstein finalmente apareceu, ao lado de uma loura espetacular, com um terço de sua idade. 
Conhecido por seu pão-durismo, nesta tarde ele pediu os pratos mais caros, os vinhos mais raros e sofisticados. No final, pagou a conta com um sorriso nos lábios.
- Sei que vocês devem estar estranhando - disse Rubinstein. - Mas hoje fui ao advogado fazer meu testamento. Dei uma boa quantia para minha filha, para meus parentes, fiz generosas doações para obras de caridade. De repente, me dei conta que eu não estava incluído no meu testamento: era tudo dos outros!
“A partir daí, resolvi me tratar com mais generosidade”.

Aceitando que merece o presente
A jornalista Belisa Ribeiro estava colocando a maquilagem para ir a uma festa, quando parou o que estava fazendo, e se olhou no espelho.
- Eis como me vi - conta ela.  - Tentava equilibrar nas mãos o batom, o delineador, o blush, o rímel. Fiquei pensando: por que estou agindo assim? Por que seguro tantas coisas, se só posso usar uma delas de cada vez?
“Coloquei tudo na penteadeira, e recomecei de novo. Procurei me lembrar de tantas vezes na minha vida em que agi deste modo - vivendo um momento e pensando em outro, ficando estressada com coisas que tinham dia e hora certos para serem vividas. A partir daquele momento, eu prometi que cada minuto de minha vida teria sua própria benção, e eu estaria completamente concentrada nela”.

Aceitando que merece os dons
Durante uma palestra na Austrália, uma jovem se aproxima. “Quero lhe contar algo”, me diz.
“Sempre acreditei que tinha o Dom da cura, mas nunca tive coragem de utilizá-lo com ninguém.  Um dia, meu marido estava com muita dor na perna esquerda; não havia ninguém por perto para ajudar, e resolvi -  morrendo de vergonha – colocar minhas mãos sobre sua perna e pedir que a dor fosse embora.”  
“Agi sem acreditar que seria capaz de ajudá-lo. De repente, escutei-o rezando:” “Permite, Senhor, que minha mulher seja mensageira da Tua luz, de Tua força”, dizia ele.  Minha mão começou a esquentar, e as dores logo passaram.
“Depois perguntei por que havia rezado daquela maneira. Ele respondeu que não lembrava ter dito nada. Mas hoje sou capaz de curar, porque ele acreditou que era possível”. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A volta ao mundo depois de morta


Sempre pensei no que acontece enquanto espalhamos um pouco de nós mesmos pela Terra. Já cortei cabelos em Tokyo, unhas na Noruega, vi meu sangue correr de uma ferida ao subir uma montanha na França. Em meu primeiro livro, “Os Arquivos do Inferno” (que jamais foi reeditado), especulava um pouco sobre o tema, como se fosse necessário semear um pouco do próprio corpo em diversas partes do mundo, de modo que, numa futura vida, algo nos parecesse familiar.  Um dia li no jornal francês “Le Figaro” um artigo assinado por Guy Barret, sobre um caso real acontecido em junho de 2001,  quando alguém levou às últimas consequências esta idéia. 
Trata-se da americana Vera Anderson, que passou toda a sua vida na cidade de Medford, Oregon. Já avançada em idade, foi vítima de um acidente cardiovascular, agravado por um enfisema do pulmão, o que a obrigou passar anos inteiros dentro do quarto, sempre conectada a um balão de oxigênio. O fato em si já é um suplício, mas no caso de Vera a situação era ainda mais grave, porque tinha sonhado percorrer o mundo, e guardara suas economias para fazê-lo quando já estivesse aposentada. 
Vera conseguiu ser transferida para o Colorado, de modo que pudesse passar o resto de seus dias na companhia do seu filho, Ross. Ali, antes que fizesse sua última viagem – aquela da qual jamais voltamos – tomou uma decisão. Já que nunca conseguira sequer conhecer seu país, iria então viajar depois de morta. 
Ross foi até o tabelião local e registrou o testamento da mãe: quando morresse, gostaria de ser incinerada. Até aí, nada demais. Mas o testamento continua: suas cinzas deviam ser colocadas em 241 pequenas sacolas, que seriam enviadas aos chefes dos serviços de correios nos 50 estados americanos, e a cada um dos 191 países do mundo – de modo que pelo menos uma parte do seu corpo terminasse visitando os lugares que sempre sonhou.
 Assim que Vera partiu, Ross cumpriu seu último desejo com a dignidade que se espera de um filho. A cada remessa, incluía uma pequena carta, onde pedia que dessem uma sepultura digna para sua mãe. 
Todas as pessoas que receberam as cinzas de Vera Anderson trataram o pedido de Ross com respeito. Nos quatro cantos da Terra, criou-se uma silenciosa cadeia de solidariedade, onde simpatizantes desconhecidos organizaram cerimônias ritos os mais diversos, sempre levando em conta o lugar que a falecida senhora gostaria de conhecer. 
Desta maneira, as cinzas de Vera foram aspergidas no lago Titicaca, na Bolívia, seguindo antigas tradições dos índios Aymara; no rio diante do palácio real de Estocolmo, na margem do Choo Praya na Tailândia, em um templo xintoísta no Japão,  nas geleiras da Antártida, no deserto do Saara. As irmãs de caridade de um orfanato na América do Sul (a matéria não cita em que país) rezaram por uma semana, antes de espalhar as cinzas no jardim – e depois decidiram que Vera Anderson deveria ser considerada uma espécie de anjo da guarda do lugar. 
Ross Anderson recebeu fotos dos cinco continentes, de todas as raças, de todas as culturas, mostrando homens e mulheres honrando o último desejo de sua mãe.
Quando vemos um mundo tão dividido como hoje, onde acreditamos que ninguém se preocupa com o outro, esta última viagem de Vera Anderson nos enche de esperança ao saber que ainda existe respeito, amor, e generosidade na alma de nosso próximo, por mais distante que ele esteja.