quinta-feira, 26 de julho de 2012

Para uma mulher que é todas as mulheres


llUma semana depois de terminada a feira de livros de Frankfurt de 2003, recebo um telefonema de meu editor da Noruega: os organizadores do concerto a ser realizado para o prêmio Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi, solicitam que eu escreva um texto para o evento. 
É uma honra que eu não devo recusar, já que Shirin Ebadi é um mito: uma mulher de 1,50m de altura, mas com estatura suficiente para fazer com que sua voz, em defesa dos direitos do homem, seja ouvida nos quatro cantos do mundo. Ao mesmo tempo, é uma responsabilidade que me deixa um pouco apreensivo – o evento será transmitido em 110 países, e eu tenho apenas dois minutos para falar sobre alguém que dedicou sua vida inteira ao próximo. Caminho pelas florestas ao lado do moinho onde vivo quando estou na Europa, penso várias vezes em telefonar dizendo que estou sem inspiração. Entretanto, o mais interessante na vida são os desafios que enfrentamos, e termino aceitando o convite.
Viajo para Oslo em 9 de dezembro, e no dia seguinte – um lindo dia de sol – estou na plateia, na cerimônia de entrega do prêmio. As amplas janelas da Prefeitura permitem ver o porto onde mais ou menos na mesma época, 21 anos atrás, eu estava sentado com minha mulher, olhando o mar gelado, comendo camarões que tinham acabado de chegar nos navios pesqueiros. Penso no longo percurso que me levou daquele porto até aquela sala, mas as lembranças do passado são interrompidas pelo soar de trombetas, a entrada da rainha e da família real. O comitê organizador entrega o prêmio, Shirin Ebadi faz um veemente discurso denunciando o uso do terror como justificativa para a criação de um estado policial no mundo.
À noite, no concerto em homenagem ao premiado, Catherine Zetha-Jones anuncia meu texto. Neste momento, aperto um botão do meu celular, o telefone soa no velho moinho (tudo já previamente combinado), e minha mulher passa a estar ali comigo, escutando a voz de Michael Douglas enquanto ele lê minhas palavras.
A seguir, o texto que escrevi – e que penso se aplicar a todos aqueles que lutam por um mundo melhor:
Disse o poeta Rumi: a vida é como se um rei enviasse alguém a um país para realizar determinada tarefa. A pessoa vai e faz uma centena de coisas – mas se não tiver feito aquilo que lhe foi pedido, é como se não tivesse feito absolutamente nada.
Para a mulher que entendeu sua tarefa. 
Para a mulher que olhou para a estrada diante dos seus olhos, e entendeu que sua caminhada ia ser muito difícil. 
Para a mulher que não procurou minimizar estas dificuldades: ao contrário, as denunciou e fez com que fossem visíveis.
Para a mulher que deixou menos solitários os que estão sós, que alimentou os que tinham fome e sede de justiça, que fez o opressor sentir-se tão mal como o oprimido. 
Para a mulher que sempre mantém suas portas abertas, suas mãos trabalhando, seus pés em movimento. 
Para a mulher que personifica os versos de outro poeta persa, Hafez, quando diz: nem mesmo sete mil anos de alegria podem justificar sete dias de repressão.  
Para a mulher que está aqui esta noite: que ela seja cada um de nós, que seu exemplo se multiplique que ela ainda tenha muitos dias difíceis pela frente, de modo que possa completar seu trabalho. Assim, para as próximas gerações, o significado de injustiça será encontrado apenas nas definições dos dicionários, e jamais na vida de seres humanos. 
Que sua caminhada seja lenta, porque seu ritmo é o ritmo da mudança.
E a mudança, a verdadeira mudança, sempre leva muito tempo para acontecer.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O respeito ao mistério


  Gregos foram os grandes mestres em descrever o comportamento humano através de pequenas histórias, que costumamos chamar de “mitos”. Todas as gerações que vieram depois deles, da psicanálise de Freud (com o complexo de Édipo, por exemplo), aos filmes de Hollywood (como o Morpheus de “Matrix”) terminaram por beber desta fonte. 
Durante grande parte de minha vida, uma destas histórias me deixava muito intrigado: o mito de Psyche. 
Era uma vez... uma linda princesa, admirada por todos, mas que ninguém ousava pedir sua mão em casamento. Desesperado, o rei consultou o deus Apolo; esse disse que Psyche deveria ser deixada sozinha, vestida de luto, no alto de uma montanha. Antes que o dia raiasse, uma serpente viria a seu encontro para desposá-la. O rei obedeceu, e por toda à noite a princesa esperou, aterrorizada e morta de frio, a chegada de seu marido. 
Terminou adormecendo; ao despertar, estava em um lindo palácio, transformada em rainha. Todas as noites seu marido vinha a seu encontro, faziam amor, mas ele havia imposto uma única condição: Psyche podia ter tudo o que desejasse, mas devia demonstrar total confiança, e jamais poderia ver seu rosto. 
A moça viveu muito tempo feliz; tinha conforto, carinho, alegria, estava apaixonada pelo homem que lhe visitava todas as noites. Entretanto, vez por outra tinha medo de estar casada com uma serpente horrorosa. Certa madrugada, quando o marido dormia, com uma lanterna iluminou a cama; e viu deitado ao seu lado, Eros (ou Cupido) - um homem de incrível beleza. A luz o despertou, ele descobriu que a mulher que amava não era capaz de cumprir seu único desejo, e desapareceu.
Sempre que eu lia este texto, me perguntava: será que não podemos nunca descobrir a face do amor? 
Foi preciso que muitos anos passassem por debaixo da ponte de minha vida, até compreender que o amor é um ato de fé em outra pessoa, e seu rosto deve continuar envolto em mistério. Ele deve ser vivido e desfrutado a cada momento, mas sempre que tentemos entendê-lo, a magia some. 
Quando aceitei isso, passei também a deixar que minha vida fosse guiada por uma linguagem estranha, que chamo de “sinais”. Sei que o mundo está falando comigo, eu preciso escutá-lo, e se assim fizer, serei sempre guiado em direção ao que existe de mais intenso, mais apaixonado, e mais belo. Claro que não é fácil, e às vezes sinto-me como Psyche no penhasco, com frio e terror; mas se sou capaz de passar aquela noite, e entregar-me ao mistério e à fé na vida, termino sempre por acordar em um palácio. Tudo que preciso é confiar no Amor, mesmo correndo o risco de errar. 
Concluindo o mito grego: Desesperada para ter seu amor de volta, Psyche se submete a uma série de tarefas que Afrodite (ou Vênus), mãe de Cupido (ou Eros), invejosa de sua beleza, lhe impõe – uma dessas tarefas era a de que entregasse um pouco de sua beleza para ela. Psyche fica curiosa com a caixa que conteria a beleza da Deusa e novamente não consegue lidar com o Mistério – resolve abri-la – na caixa nada encontrou de beleza, mas sim um infernal sono que a deixou inerte, sem movimentos. 
Eros/Cupido também está apaixonado, arrependido por não ter sido mais tolerante com sua mulher. Consegue entrar no castelo e despertá-la de seu sono profundo com a ponta de sua flecha e mais uma vez lhe diz – quase morreste devido a sua curiosidade – esta a grande contradição, Psyche que buscava encontrar segurança no conhecimento encontrou insegurança.
 Os dois vão até Júpiter, o deus supremo, implorar que esta união jamais possa ser desfeita. 
Júpiter advogou com empenho a causa dos amantes que conseguiu a concordância de Vênus. A partir deste dia, Psyche (a essência do ser humano) e Eros (o amor) estão para sempre juntos. Quem não aceitar isso, e procurar sempre uma explicação para as mágicas e misteriosas relações humanas, irá perder o que a vida tem de melhor. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O arco, a flecha e o alvo


llTodos nós somos arqueiros da vontade Divina. E, portanto, é indispensável saber que instrumentos temos à nossa disposição. 

llO arco 
O arco é a vida: dele vem toda a energia.
A flecha irá partir um dia. O alvo está longe. 
Mas sua vida permanecerá sempre com você, e é preciso saber cuidá-la.  
Precisa de períodos de inação – um arco que sempre está armado, em estado de tensão, perde sua potência. Portanto, aceite o repouso para recuperar sua firmeza: assim, quando você esticar a corda, estará com sua força intacta. 
O arco não tem consciência: ele é um prolongamento da mão e do desejo do arqueiro. Serve para matar ou para meditar. Portanto, seja sempre claro em suas intenções. 
Um arco tem flexibilidade, mas também tem um limite. Um esforço além da sua capacidade irá quebrá-lo, ou deixar exausta a mão que o segura. Da mesma maneira, não exija mais do seu corpo do que ele pode lhe dar. E entenda que um dia a velhice chegará – e isso é uma benção, e não uma maldição. 
Para manter com elegância o arco aberto, faça com que cada parte dê apenas o necessário, e não disperse suas energias. Assim, você poderá disparar muitas flechas sem se cansar. 

llA flecha
A flecha é a sua intenção. É o que une a força do arco com o centro do alvo. 
A intenção do ser humano tem que ser cristalina, reta, bem equilibrada. 
Uma vez que ela parte, não voltará, então é melhor interromper um processo – porque os movimentos que o levaram até ele não estavam precisos e corretos – do que agir de qualquer maneira, só porque o arco já estava retesado e o alvo estava esperando.  
Mas jamais deixe de manifestar sua intenção se a única coisa que o paralisa é o medo de errar. Se fizer os movimentos corretos, abra sua mão e solte a corda, dê os passos necessários e enfrente seus desafios. Mesmo que não atinja o alvo, você saberá corrigir sua pontaria da próxima vez.  Se não arriscar, jamais saberá quais as mudanças que eram necessárias. 

llO alvo 
O alvo é o objetivo a ser alcançado. 
Foi escolhido por você. Nisso reside à beleza do caminho: você não pode jamais desculpar-se, dizendo que o adversário era mais forte. Porque foi você que escolheu seu alvo, e é responsável por ele.  
Se olhar o alvo como inimigo, poderá até mesmo acertar o seu tiro, mas não conseguirá melhorar nada em você mesmo. Passará sua vida tentando colocar apenas uma flecha no centro de uma coisa de papel ou madeira, o que é absolutamente inútil. E quando estiver com outras pessoas, viverá reclamando que não faz nada de interessante. 
Por isso, você precisa escolher seu objetivo, dar o melhor de si para atingi-lo, olhando-o com respeito e dignidade: precisa saber o que ele significa, quanto custou do seu esforço, do seu treinamento, da sua intuição.
Ao olhar o alvo, não se concentre apenas nele, mas em tudo que acontece ao seu redor: porque a flecha, ao ser disparada, irá encontrar-se com fatores que você não conta, como o vento, o peso, a distância. 
O objetivo só existe, na medida em que um homem é capaz de sonhar, atingi-lo. O que justifica a sua existência é o desejo - ou ele seria uma coisa morta, um sonho distante, um devaneio.  
Assim, da mesma maneira que a intenção busca seu objetivo, o objetivo também busca a intenção do homem, porque é ela que dá sentido a sua existência: já não é mais apenas uma ideia, mas o centro do mundo de um arqueiro. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Da importância do olhar


llNo início Theo Wierema era apenas um sujeito insistente. Durante cinco anos enviava religiosamente um convite para o meu escritório em Barcelona, convidando-me para uma palestra em Haia, na Holanda.
Durante cinco anos meu escritório respondia invariavelmente que a agenda estava completa. Na verdade, nem sempre a agenda está completa; entretanto, um escritor não é necessariamente alguém que consiga falar bem em público. Além do mais, tudo que preciso dizer está nos livros e colunas que escrevo – por isso sempre procuro evitar conferências. 
Theo descobriu que eu iria gravar um programa para um canal de TV na Holanda. Quando desci para as filmagens, ele estava me esperando no saguão do hotel. 
Apresentou-se e pediu para me acompanhar-me, dizendo:
- Não sou uma pessoa incapaz de ouvir “não”. Apenas acredito que estou tentando o meu objetivo da maneira errada. 
Há que se lutar pelos sonhos, mas há que saber também que quando certos caminhos se mostram impossíveis, é melhor guardar suas energias para percorrer outras estradas. Podia simplesmente dizer “não” (já disse e já ouvi várias vezes esta palavra), mas resolvi tentar algo mais diplomático: colocar condições impossíveis de cumprir.   Disse que daria a conferência de graça, mas o ingresso não podia ultrapassar dois euros, e a sala teria que ter no máximo 200 pessoas. 
Theo concordou. 
- Você vai gastar mais do que vai ganhar – alertei. - Pelas minhas contas, só o bilhete de avião e o hotel custam o triplo do que receberá se conseguir lotar a casa. 
Além disso, existem custos de divulgação, aluguel do local...
Theo me interrompeu, dizendo que nada disso tinha importância: estava fazendo isso por causa do que assistia em sua profissão. 
- Organizo eventos porque preciso continuar acreditando que o ser humano está em busca de um mundo melhor. Preciso dar minha contribuição para que isso seja possível. 
Qual era a sua profissão?
- Vendo igrejas.
E continuou, para meu espanto:
- Sou encarregado pelo Vaticano para selecionar compradores, já que há mais igrejas que fiéis na Holanda. E como já tivemos péssimas experiências no passado, vendo lugares sagrados se transformarem em boates, prédios de condomínio, boutiques, e até mesmo sex-shops, o sistema de venda mudou. O projeto tem que ser aprovado pela comunidade, e o comprador tem que dizer o que fará do imóvel: aceitamos geralmente apenas as propostas que incluem um centro cultural, uma instituição de caridade, ou um museu.  
“E o que tem isso a ver com sua conferência, e as outras que estou tentando organizar? As pessoas não estão mais se encontrando. Quando não se encontram, não conseguem crescer”. 
Olhando-me fixamente, concluiu:
- Encontros. Meu erro com você foi justamente esse. Ao invés de ficar mandando correspondência eletrônica, eu devia ter logo mostrado que sou feito de carne e osso. Quando não consegui receber resposta de determinado político, fui bater na sua porta, e ele me disse: se você quiser alguma coisa, precisa antes mostrar seus olhos. Desde então, tenho feito isso, e só tenho colhido bons resultados. Podemos ter todos os meios de comunicação do mundo, mas nada, absolutamente nada, substitui o olhar do ser humano. 
Claro que terminei aceitando a proposta. 
P.S. – Quando fui a Haia para a conferência, sabendo que minha mulher, artista plástica, sempre desejou criar um centro cultural, pedi para ver algumas das igrejas à venda.  Perguntei o preço de uma que normalmente abrigava 500 paroquianos aos domingos: custava € 1 (UM Euro!), embora os gastos de manutenção possam atingir patamares proibitivos.