quinta-feira, 24 de março de 2011

Diálogo com o Mestre – III

O Mistério
(Continuo reproduzindo aqui alguns trechos de conversas com meu mestre, no período de 1982 a 1986)
- O que estamos fazendo nesta Terra?
- Sinceramente? Não sei. Já procurei em muitos cantos, em lugares iluminados e escuros; hoje estou convencido que ninguém sabe – apenas Deus. 
- Não é uma boa resposta, para um mestre. 
- É uma resposta honesta. Conheço muita gente que irá explicar-lhe em detalhes a razão da existência. Não acredite, são pessoas ainda presas à antiga linguagem, e só acreditam nas coisas que tem explicação.
- Quer dizer que não há uma razão para viver?
- Você não entendeu o que estou dizendo. Eu disse que não sei a razão. Mas claro que existe um motivo para estar aqui, e Deus o conhece. 
- Por que não nos revela?
- Revela a cada um de nós, mas numa linguagem que às vezes não aceitamos, porque ela não é lógica – e estamos por demais acostumados a receitas e fórmulas. 
“O nosso coração sabe por que estamos aqui. Quem escutar o coração, seguir os sinais, e viver sua Lenda Pessoal, vai entender que está participando de algo, mesmo que não compreenda racionalmente. Diz a tradição que, no segundo antes da nossa morte, a gente se dá conta da verdadeira razão da existência. E neste momento, nasce o Inferno e o Paraíso. 
- Não entendi.
- O Inferno é, nesta fração de segundo, olhar para trás e saber que desperdiçamos uma oportunidade de honrar a Deus e dignificar o milagre da vida. O Paraíso é poder dizer, neste momento: “Cometi alguns erros, mas não fui covarde: vivi minha vida, e fiz o que devia fazer.” Tanto o Inferno como o Paraíso irão nos acompanhar por muito tempo, mas não para sempre. 
- Como posso saber se estou vivendo minha vida?
- Porque, ao invés de amargura, você sente entusiasmo. Essa é a única diferença. De resto, há que respeitar o Mistério, e aceitar – com humildade – que Deus tem um plano para nós. Um plano generoso, que nos conduz em direção a Sua presença, e que justifica estes milhões de estrelas, planetas, buracos negros, etc. que estamos vendo nesta noite, aqui em Oslo (estávamos na Noruega). 
- É muito difícil viver sem uma explicação.
- Você pode explicar porque o homem necessita de dar e receber amor? Não. E você vive com isso, não vive? Não apenas você vive com isso, como é a coisa mais importante da vida: o amor. E não existe explicação nenhuma. 
“Da mesma forma, tampouco há explicação para a vida. Mas existe uma razão para estarmos aqui, e você precisa ser humilde o suficiente para aceitar isso. Confie em minhas palavras; a vida de cada um dos seres humanos tem um sentido, embora ele cometa o erro de passar grande parte do seu tempo na terra buscando uma resposta, enquanto se esquece de viver.
“Posso lhe dar um exemplo de uma época em que cheguei perto de entender tudo isso. Eu tinha comparecido a festa de comemoração dos 50 anos da minha formatura do ginásio. Ali, na escola onde estudei enquanto adolescente, encontrei muitos amigos. Bebemos, fizemos as mesmas piadas de meio século atrás.
Em um dado momento, olhei para o pátio da escola. Então, me vi criança, brincando com eles, olhando a vida com surpresa e intensidade. De repente, aquela criança que eu fui pareceu ganhar forma e se aproximou - se de mim.” 
“Olhou-me nos olhos, e sorriu. Então, eu entendi que não havia traído os meus sonhos de infância. Que a criança que tinha sido um dia, ainda estava orgulhosa de mim. Que a mesma razão que eu tinha para viver quando criança, continuava viva em meu coração. 
“Procure viver com a mesma intensidade de uma criança. Ela não pede explicações; mergulha em cada dia como se fosse uma aventura diferente e, de noite, dorme cansada e feliz”. 

sexta-feira, 18 de março de 2011

Diálogos com o Mestre – I

A Viagem
Durante recente mudança para o novo apartamento, descobri uma série de anotações de conversas minhas com J., que pertence à ordem R.A.M. , uma pequena confraria dedicada a estudar a tradição oral e a linguagem simbólica do mundo. Estas notas cobrem nossos encontros no período de Fevereiro, 1982 até 1997. 
Recentemente perguntei a ele se poderia compartilhar parte destes textos; ele concordou, e vou dedicar as próximas cinco colunas a descrever alguns de nossos encontros (período 1982-1986). Transformei os textos em diálogos para melhor compreensão, e que as palavras de J. não são exatamente as que ele usou, embora o conteúdo seja absolutamente fiel ao que escutei. 
Os textos não estão em ordem exata. Resolvi começar com algumas de nossas conversas de 1986, quando ele insistia para que eu fizesse o Caminho de Santiago. 

- Você diz que fazer o Caminho de Santiago é importante. Para isso, preciso largar tudo por algum tempo: família, emprego, projetos. E não sei se vou encontrar a mesma situação quando voltar.
- Espero que não encontre. 
- Então, devo arriscar-me a perder tudo que consegui até agora?
- Perder o quê? Um homem só tem sua alma para ser ganha ou perdida; além da vida, ele não possui mais nada. Não importa as vidas passadas ou futuras – no momento você está vivendo esta, e deve fazê-lo com compreensão silenciosa, alegria, e entusiasmo. O que você não pode perder é o entusiasmo. 
- Eu tenho uma mulher, que amo.
- (rindo) Esta é sempre a desculpa mais comum, e a mais tola possível. O amor nunca impediu o homem de seguir seus sonhos. Se ela realmente o ama, vai querer o melhor para você. Além do mais, você não tem uma mulher que ama; a mulher não é sua. O que é seu é a energia do amor, que você dirige para ela. Você pode fazer isso de qualquer lugar. 
- E se eu não tivesse dinheiro para fazer a peregrinação?
- Viajar não é sempre uma questão de dinheiro, mas de coragem. Você passou grande parte da sua vida correndo o mundo como hippie: que dinheiro tinha, então? Nenhum. Mal dava para pagar a passagem, e mesmo assim acredito que foram alguns dos melhores anos de sua vida – comendo mal, dormindo em estações de trem, incapaz de se comunicar por causa da língua, sendo obrigado a depender dos outros até mesmo para descobrir um abrigo onde passar a noite. 
“Viajar é sagrado; a humanidade viaja desde a noite dos tempos, em busca de caça, de pasto, de climas mais amenos. São raros os homens que conseguem compreender o mundo sem sair de suas cidades. Quando você viaja – e eu não estou falando em turismo, mas na experiência solitária da viagem - quatro coisas importantes acontecem em sua vida: 
A] você está em um lugar diferente. Então, as barreiras protetoras já não existem mais. No começo isso dá muito medo, mas em pouco tempo você se acostuma, e passa a entender quanta coisa interessante existe além dos muros de seu jardim.
b] porque a solidão pode ser muito grande e opressora, você está mais aberto com pessoas com quem nunca trocaria uma palavra, se estivesse em sua casa – garçons, outros viajantes, empregados de hotel, o passageiro sentado ao seu lado no ônibus. 
c] você passa a depender dos outros para tudo: arranjar um hotel, comprar algo, saber como tomar o próximo trem. Descobre então que nada há de errado em depender dos outros – muito pelo contrário, isto é uma bênção.
d] você está falando uma língua que não compreende, usando um dinheiro que não sabe o valor, caminhando por ruas que nunca passou antes. Você sabe que o seu Eu antigo, com tudo que aprendeu, é absolutamente inútil diante destes novos desafios – e começa a descobrir que, enterrado lá no fundo do eu inconsciente, existe alguém muito mais interessante, aventureiro, aberto para o mundo e para experiências novas.
“Viajar é a experiência de deixar de ser quem você se esforça para ser, e se transformar naquilo que você é.”
(continua na próxima semana)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Em busca do caminho perdido

Saímos pelo mundo em busca de nossos sonhos e ideais, embora sabendo que muitas vezes colocamos em lugares inacessíveis tudo aquilo que está ao alcance das mãos. Quando descobrimos o erro, começamos a achar que perdemos muito tempo buscando longe o que estava perto; e por isso nos deixamos invadir pelo sentimento de culpa, pelos passos errados, pela procura inútil, pelo desgosto que causamos.
Não é bem assim: embora o tesouro esteja enterrado na sua casa, você só irá descobri-lo quando se afastar. Se Pedro não tivesse experimentado a dor da negação, não teria sido escolhido como chefe da Igreja. Se o filho pródigo não tivesse abandonado tudo, jamais seria recebido com festa por seu pai.
Existem certas coisas em nossas vidas que tem um selo dizendo: “você só irá entender meu valor quando me perder - e me recuperar”. Não adianta querer encurtar este caminho.
No Japão, fui convidado a visitar Guncan-Gima, onde existe um templo zen-budista.  Quando cheguei lá, fiquei surpreso: a belíssima estrutura está situada no meio de uma imensa floresta, mas com um gigantesco terreno baldio ao lado. Perguntei a razão daquele terreno, e o encarregado explicou: 
- É o local da próxima construção.  A cada vinte anos, destruímos este templo que você está vendo, e o reconstruímos ao lado. 
“Desta maneira, os monges carpinteiros, pedreiros e arquitetos, tem possibilidade de estar sempre exercendo suas habilidades, e ensiná-las - na prática - aos seus aprendizes. Mostramos também que nada na vida é eterno - e até mesmo os templos estão num processo de constante aperfeiçoamento.”
Se o que você está percorrendo é o caminho dos seus sonhos, comprometa-se com ele. Não deixe a porta de saída aberta, através da desculpa: “ainda não é bem isto que eu queria”. Esta frase - tão utilizada - guarda dentro dela a semente da derrota.
Assuma o seu caminho. Mesmo que precise dar passos incertos, destruir e construir constantemente, mesmo que saiba que pode fazer melhor o que está fazendo. Se você aceitar suas possibilidades no presente, com toda certeza vai melhorar no futuro. 
O Mestre Achaan Chah recebeu uma bela área de terra, para que pudesse edificar um mosteiro.  Chah precisava viajar por algum tempo e deixou a construção a cargo de seus discípulos.
Quando voltou – cinco meses depois – nada havia sido feito. Os discípulos já haviam encomendado vários estudos aos arquitetos locais.
Um deles perguntou para Chah: 
_ Qual dos projetos devemos levar adiante? Como devemos proceder para tomar a decisão certa? 
Chah respondeu: 
- Quando se quer o bem, os resultados são sempre bons.
Libertos do medo de errar, a decisão foi tomada e o resultado foi magnífico.
Enfrente seu caminho com coragem, não tenha medo da crítica dos outros. E - sobretudo - não se deixe paralisar por sua própria crítica. 
Deus é o Deus dos valentes.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Do padre cisterciense Marcos Garcia, em Burgos, na Espanha: “Às vezes Deus retira uma determinada benção para que a pessoa possa compreendê-Lo além dos favores e dos pedidos. Ele sabe até que ponto pode provar uma alma – e nunca vai além deste ponto.”
“Nestes momentos, jamais digamos ‘Deus me abandonou’. Ele jamais faz isto; nós é que podemos, às vezes, abandoná-lo. Se o Senhor nos coloca uma grande prova, também sempre nos dá as graças suficientes – eu diria, mais que suficientes – para ultrapassá-la”.

A esse respeito, a leitora Camila Galvão Piva me envia uma interessante história, intitulada “As duas jóias”:

Um rabino muito religioso vivia feliz com sua família – uma esposa admirável e dois filhos queridos. Certa vez, por causa de seu trabalho, teve que se ausentar de casa por vários dias. Justamente quando estava fora, um grave acidente de carro matou os dois meninos. 

Sozinha, a mãe sofreu em silêncio. Mas sendo uma mulher forte, sustentada pela fé e pela confiança em Deus, suportou o choque com dignidade e bravura. Entretanto, como dar ao esposo a triste notícia? Embora também sendo um homem de fé, ele já tinha sido internado por problemas cardíacos no passado, e a mulher temia que o conhecimento da tragédia acarretasse também a sua morte.

Restava apenas rezar para que Deus lhe aconselhasse a melhor maneira de agir. Na véspera da chegada do marido, orou muito – e recebeu a graça de uma resposta.  

No dia seguinte, o rabino retornou ao lar, abraçou longamente a esposa, e perguntou pelos filhos. A mulher disse que não se preocupasse com isso, tomasse seu banho, descansasse. 
Horas depois os dois sentaram-se para almoçar. Ela lhe pediu detalhes sobre a viagem, ele contou tudo o que tinha vivido, falou sobre a misericórdia de Deus – mas tornou a perguntar pelos meninos. 

A esposa, numa atitude um tanto embaraçada, respondeu ao marido:

- Deixe os filhos, depois nos preocuparemos com eles. Primeiro quero que me ajude a resolver um problema que considero grave.

O marido, já preocupado, perguntou:

- O que aconteceu? Notei você abatida! Fale tudo o que lhe passa pela alma, e tenho certeza que resolveremos juntos qualquer problema, com a ajuda de Deus.

- Enquanto você esteve ausente, um amigo nosso visitou-me e deixou duas jóias de valor incalculável, para que as guardasse. São jóias muito preciosas! Jamais vi algo tão belo! Ele vem buscá-las e eu não estou disposta a devolvê-las, pois já me afeiçoei a elas. O que você me diz?

- Ora mulher! Não estou entendendo o seu comportamento! Você nunca cultivou vaidades!

- É que nunca havia visto jóias assim! Não consigo aceitar a idéia de perdê-las para sempre! 

E o rabino respondeu com firmeza:

- Ninguém perde o que não possui. Retê-las equivaleria a roubo! Vamos devolvê-las, eu a ajudarei a superar a falta delas. Faremos isso juntos, hoje mesmo.

- Pois bem, meu querido, seja feita a sua vontade. O tesouro será devolvido. Na verdade isso já foi feito.
“As jóias preciosas eram nossos filhos. Deus os confiou a nossa guarda, e durante a sua viagem veio buscá-los. Eles se foram...”

O rabino compreendeu na mesma hora. Abraçou a esposa, e juntos derramaram muitas lágrimas – mas tinha entendido a mensagem, e a partir daquele dia lutaram para superar juntos a perda.