quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Do autor e seu compromisso

llNo dia 29 de maio de 2002, horas antes de eu colocar um ponto final no meu novo livro, fui até a Gruta de Lourdes, na França, encher alguns galões de água milagrosa na fonte que ali se encontra. Já dentro do terreno da catedral, um senhor de aproximadamente 70 anos me disse: “Sabe que você parece com o Paulo Coelho? ” Eu respondi que era o próprio. 
O homem me abraçou, me apresentou a sua esposa e sua neta. Falou da importância de meus livros em sua vida, concluindo: “Eles me fazem sonhar.”
Já escutei esta frase várias vezes, e ela sempre me deixa contente. Naquele momento, entretanto, fiquei muito assustado – porque sabia que “Onze minutos”  falava de um assunto delicado, contundente, chocante; o percurso de uma prostituta brasileira em busca do encontro com sua alma. Caminhei até a fonte, enchi os galões, voltei,  perguntei onde morava (no norte da França, perto da Bélgica) e anotei o seu nome.
Na mesma hora, tomei a decisão de dedicar o livro a este senhor, Maurice Gravelines. Tenho uma obrigação para com ele, sua mulher, sua neta, e comigo: falar daquilo que me preocupa, e não do que todos gostariam de escutar. 
Alguns livros nos fazem sonhar, outros nos trazem a realidade, mas nenhum pode fugir daquilo que é mais importante para um autor: a honestidade com o que escreve. Escrever sobre sexo, para mim, era um desafio que me acompanhava desde minha juventude, quando a revolução hippie criou uma série de novos comportamentos a este respeito, às vezes indo até o limite do bom-senso. Depois destes anos loucos,  passamos por um período conservador, pelo advento das doenças mortais, por aquela pergunta que sempre voltava: “mas sexo é mesmo tão importante assim?” 
Vivemos em um mundo de comportamento padrão: padrão de beleza, de qualidade, de inteligência, de eficiência. Achamos que existe um modelo para tudo, e achamos também que, seguindo este modelo, estaremos seguros. 
E por causa disso, estabelecemos um “padrão sexo”, que na verdade é composto de uma série de mentiras: orgasmo vaginal, virilidade acima de tudo, melhor fingir que deixar o outro decepcionado, etc. Como consequência direta, este tipo de atitude tem deixado milhões de pessoas frustradas, infelizes, culpadas. E tem provocado todo tipo de aberração, como a pedofilia, o incesto, ou o estupro.  Por que nos comportamos assim com algo tão importante? 
Da mesma maneira que um autor não sabe jamais o percurso que irá percorrer com seus livros – e por isso permite que seus textos caminhem em direções inesperadas - nós também precisamos viver nossas contradições, principalmente em áreas tão sensíveis como o sexo e o amor. O homem que quer seguir um padrão o tempo todo, será obrigado a pensar hoje o que pensava ontem, e usar sempre a gravata combinando com a meia; existe algo de mais aborrecido? 
A sociedade que hoje aborda o comportamento sexual com o “padrão”, sem respeitar as diferenças individuais, deve procurar lembrar-se de um dos mais belos poemas sobre a condição humana, o hino a Isis descoberto  Nag Hammadi, que os peritos datam entre os séculos III e IV de nossa era:

Porque eu sou a primeira e a última
Eu sou a  venerada e a desprezada
Eu sou a prostituta e a santa
Eu sou a esposa e a virgem
Eu sou a mãe e a filha
Eu sou os braços de minha mãe
Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos
Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou
Eu sou a esposa e o esposo
E foi meu homem quem me gerou em seu ventre
Eu sou a mãe do meu pai
Sou a irmã de meu marido
E ele é o meu filho rejeitado
Respeitem-me sempre
Porque eu sou a escandalosa e a discreta. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Do medo da alegria

llPor incrível que pareça, muita gente tem medo da felicidade. Para estas pessoas, estar de bem com a vida significa mudar uma série de hábitos – e perder sua própria identidade.
Muitas vezes nos julgamos indignos das coisas boas que acontecem conosco. Não aceitamos os milagres – porque aceitá-los nos dá a sensação de que estamos devendo alguma coisa a Deus. Além disso, temos medo de nos “acostumar” com a felicidade.
Pensamos: “é melhor não provar o cálice da alegria, porque, quando este nos faltar, iremos sofrer muito”.
Por medo de diminuir, deixamos de crescer,  por medo de chorar, deixamos de rir. A seguir, algumas histórias a respeito:

Nos passos de Moisés
O rabino Zuya queria descobrir os mistérios divinos. Por isso, resolveu imitar a vida de Moisés. 
Durante anos, tentou comportar-se como o profeta   - sem conseguir os resultados esperados. Certa noite,  exausto de tanto estudar, terminou adormecendo. 
No sonho, Deus lhe apareceu:
- Por que você está tão perturbado, meu filho? - perguntou. 
- Meus dias na Terra terminarão, e estou longe de chegar a ser como Moisés. - respondeu Zuya. 
-  Se eu precisasse de outro Moisés,  já o teria criado -  disse Deus. - Quando você  aparecer diante de mim para o julgamento, não perguntarei porque não foi como Moisés, mas quem você foi. Procure ser um bom Zuya. 
O jumento morre de cansaço
Nasrudin resolveu procurar novas técnicas de meditação. Selou seu jumento, foi à Índia, a China, a Mongólia, conversou com todos os grandes mestres, mas nada conseguiu. 
Escutou falar que havia um sábio no Nepal: viajou até lá, mas quando subia a montanha para encontrá-lo, seu jumento morreu de cansaço. Nasrudin enterrou-o ali mesmo, e chorou de tristeza. Alguém passou, e comentou: 
- Você buscava um santo, e este deve ser seu túmulo. Na certa, está lamentando sua morte.
- Não, é o lugar onde enterrei meu jumento, que morreu de cansaço.
- Não acredito – disse o recém-chegado. – Ninguém chora por um jumento morto. Isso deve ser um lugar onde os milagres acontecem, e você quer guardá-lo só para si mesmo.
Por mais que Nasrudin argumentasse, não adiantou. O homem foi até a aldeia vizinha, espalhou a história de um grande mestre que realizava curas em seu túmulo, e logo os peregrinos começaram a chegar. 
Aos poucos, a notícia da descoberta do Sábio do Luto Silencioso  se espalhou por todo o Nepal – e multidões acorreram ao lugar. Um homem rico foi até ali, achou que tinha sido recompensado, e mandou construir um imponente monumento onde Nasrudin enterrara “seu mestre”.
Em vista disto, Nasrudin resolveu deixar as coisas como estavam. Mas aprendeu de uma vez por todas que, quando alguém quer acreditar numa mentira, ninguém lhe convencerá ao contrário.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A busca da diferença

Você sabe exatamente onde está agora? Você está numa cidade, junto com muita gente, e neste momento existe uma grande chance de várias pessoas abrigarem em seus corações as mesmas esperanças e desesperanças que você abriga.
Vamos adiante: você é um pontinho microscópico na superfície de uma bola. Esta bola gira em torno de outra, que por sua vez está localizada num cantinho de uma galáxia, junto com milhões de bolas semelhantes. 
Esta galáxia faz parte de algo chamado Universo, cheio de gigantescos aglomerados estelares. Ninguém sabe exatamente onde começa e onde termina o que chamam de Universo.
Mesmo assim, você é o máximo; luta, se esforça, e tenta melhorar, tem sonhos, fica alegre ou triste por causa do Amor. Se você não estivesse vivo, algo ia estar faltando. 
A seguir, algumas histórias sobre o nosso direito de sermos únicos. 

A árvore gigantesca
Um carpinteiro e seus auxiliares viajavam pela província de Qi, em busca de material para construções. Viram uma árvore gigantesca; cinco homens de mãos dadas não conseguiam abraçá-la, e seu topo era tão alto que quase tocava as nuvens. 
- Não vamos perder nosso tempo com esta árvore - disse o mestre carpinteiro. - Para cortá-la, demoraremos muito. Se quisermos fazer um barco, ele afundará, de tão pesado o seu tronco. Se resolvermos usá-la para a estrutura de um teto,  as paredes terão que ser exageradamente resistentes.
O grupo seguiu adiante. Um dos aprendizes comentou: 
- É uma árvore tão grande e não serve para nada! 
 - Você está enganado – disse o mestre carpinteiro. - Ela seguiu seu destino a sua maneira. Se fosse igual às outras, nós já a teríamos cortado. Mas porque teve coragem de ser diferente, permanecerá viva e forte por muito tempo.
Quero ser um anjo
O abade João Pequeno pensou: “estou cansado de ser um homem como os outros, preciso ser igual aos anjos, que nada fazem, e vivem contemplando a glória de Deus”. Naquela noite, abandonou o mosteiro de Sceta e foi para o deserto.
Uma semana depois, voltou para o convento. O Irmão Porteiro escutou-o bater na porta, e perguntou quem era.
 - Sou o abade João - respondeu. - Estou com fome.
- Não pode ser - disse o Irmão Porteiro. - O abade João está no deserto, se transformando em anjo. Já não sente mais fome, e não precisa trabalhar para sustentar-se.
- Perdoa meu orgulho - respondeu o abade João. 
- Os anjos ajudam a humanidade;  este é o trabalho deles, e por isso não precisam comer, apenas contemplar. 
“Mas eu sou um homem. A única maneira de contemplar esta mesma glória é fazendo o que os anjos fazem – ajudando meu próximo. O jejum não adianta nada.”
Ouvindo o gesto de humildade, o Irmão Porteiro tornou a abrir a porta do convento.

Qual o melhor exemplo
Perguntaram a Dov Beer de Mezeritch:
- Qual o melhor exemplo a seguir? O dos homens piedosos, que dedicam sua vida a Deus sem perguntar por quê? Ou o dos homens cultos, que procuram entender a vontade do Altíssimo?
- O melhor exemplo é a criança - respondeu Dov Beer. 
- A criança não sabe nada. Ainda não aprendeu o que é a realidade! - foi o comentário geral. 
- Vocês estão muito enganados, porque ela possui quatro qualidades que nunca devíamos nos esquecer. Está sempre alegre sem razão. Está sempre ocupada. 
Quando deseja qualquer coisa, sabe exigi-la com insistência e determinação. Finalmente, consegue parar de chorar muito rápido.  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Como se fosse a primeira vez

Eu quero acreditar que vou olhar cada dia como se fosse a primeira vez. Ver as pessoas que me cercam com surpresa e espanto, alegre por descobrir que estão ao meu lado dividindo algo chamado amor, muito falado, pouco entendido. 
Entrarei no primeiro ônibus que passar, sem perguntar em que direção está indo, e saltarei assim que olhar algo que me chame atenção. Passarei por um mendigo que me pedirá uma esmola. Talvez eu dê, talvez eu ache que irá gastar em bebida, e siga adiante – escutando seus insultos, e entendendo que esta é sua forma de comunicar-se comigo. Passarei por alguém que está tentando destruir uma cabine telefônica. Talvez eu tente impedi-lo, talvez eu entenda que faz isso porque não tem ninguém com quem conversar do outro lado da linha, e desta maneira procura espantar sua solidão. 
Eu olharei tudo e todos como se fosse a primeira vez – principalmente as pequenas coisas, com as quais já estou habituado, e esqueci-me da magia que me cerca. As teclas do meu computador, por exemplo, que se movem com uma energia que eu não compreendo. O papel que aparece na tela, e que há muito tempo não se manifesta de maneira física, embora eu acredite que esteja escrevendo em uma folha branca, onde é fácil corrigir apertando apenas uma tecla. Ao lado da tela do computador acumulam-se alguns papéis que não tenho paciência de colocar em ordem, mas se eu achar que escondem novidades, todas estas cartas, lembretes, recortes, recibos, ganharão vida própria, e terão histórias curiosas – do passado e do futuro – para me contar. Tantas coisas no mundo, tantos caminhos percorridos, tantas entradas e saídas na minha vida. 
Vou colocar uma camisa que costumo usar sempre, e pela primeira vez vou prestar atenção à sua etiqueta, a maneira como foi costurada, e vou procurar imaginar as mãos que a desenharam, e as máquinas que transformaram este desenho em algo material, visível. 
E mesmo as coisas com as quais estou habituado – como o arco e as flechas, a xícara de café da manhã, as botas que se transformaram em uma extensão de meus pés depois de muito uso – serão revestidas do mistério da descoberta. Que tudo que minha mão tocar, meus olhos virem, minha boca provar, seja diferente agora, embora tenha sido igual por muitos anos. Assim, elas deixarão de ser natureza morta, e passarão a me transmitir o segredo de estarem comigo por tanto tempo, e manifestarão o milagre do reencontro com emoções que já tinham sido desgastadas pela rotina. 
Quero olhar pela primeira vez o sol, se amanhã fizer sol; o tempo nublado, se amanhã estiver nublado. Acima de minha cabeça existe um céu que a humanidade inteira, em milhares de anos de observação, já deu uma série de explicações razoáveis. Pois eu esquecerei todas as coisas que aprendi a respeito das estrelas, e elas se transformarão de novo em anjos, ou em crianças, ou em qualquer coisa que eu sentir vontade de acreditar no momento. 
O tempo e a vida foram transformando tudo em algo perfeitamente compreensível – e eu preciso do mistério, do trovão que é a voz de um deus enraivecido, e não uma simples descarga elétrica que provoca vibrações na atmosfera. Eu quero encher de novo minha vida de fantasia, porque um deus enraivecido é muito mais curioso, aterrador, e interessante, que um fenômeno físico. 
E, finalmente, que eu olhe a mim mesmo como se fosse a primeira vez que estivesse em contato com meu corpo e minha alma. Que eu olhe esta pessoa que caminha, que sente, que fala como qualquer outra, que eu fique admirado com seus gestos mais simples, como conversar com o carteiro, abrir a correspondência, contemplar sua mulher dormindo ao lado, perguntando a si mesmo com o que ela estará sonhando. 
E assim, permanecerei o que sou e o que gosto de ser, uma constante surpresa para mim mesmo. Este eu que não foi criado nem por meu pai, nem por minha mãe, nem pela minha escola, mas por tudo aquilo que vivi até hoje, que esqueci de repente, e estou descobrindo de novo.