quinta-feira, 30 de junho de 2011

O valor e o dinheiro

Ciccone German conta a história de um homem que, graças à sua imensa riqueza e sua infinita ambição, resolveu comprar tudo que estava ao seu alcance. Depois de encher suas  muitas casas de roupas, móveis, automóveis, jóias, o homem resolveu comprar outras coisas.
Comprou a ética e a moral, e neste momento foi criada a corrupção. 
Comprou a solidariedade e a generosidade – e então a indiferença foi criada. 
Comprou a justiça e suas leis – fazendo nascer na mesma hora a impunidade. 
Comprou o amor e os sentimentos, e surgiu a dor e o remorso. 
O homem mais poderoso do mundo comprou todos os bens materiais que queria possuir, e todos os valores que desejava dominar. Até que um dia, já embriagado por tanto poder, resolveu comprar a si mesmo. 
Apesar de todo o dinheiro, não conseguiu realizar seu intento. Então, a partir deste momento, criou-se na consciência da Terra um único bem que nenhuma pessoa pode colocar um preço: seu próprio valor. 

Sempre correndo
O monge Shuan sempre alertava aos discípulos para a importância do estudo de filosofia ancestral. Um deles, conhecido pela sua força de vontade, anotava todos os ensinamentos de Shuan, e passava o resto do dia refletindo sobre os pensadores antigos. 
Depois de um ano de estudos o discípulo adoeceu, mas continuou frequentando as aulas. 
“- Mesmo doente, continuarei estudando. Estou atrás da sabedoria e não há tempo a perder.” - disse ele ao mestre.
Shuan indagou: 
- Como você sabe que a sabedoria está na sua frente, e que é preciso estar sempre correndo atrás dela? Talvez ela esteja caminhando atrás de você, querendo alcançá-lo, e de alguma maneira você não está deixando. Relaxar e deixar os pensamentos fluírem, também é uma maneira de atingir a sabedoria.

Começando onde devia ter começado
Conta um leitor que as palavras a seguir estão escritas no túmulo de um bispo anglicano, em uma catedral na Inglaterra: 
“Quando eu era jovem, e minha imaginação não tinha limites, sonhava mudar o mundo. 
Quando fiquei mais velho e mais sábio, descobri que o mundo não mudaria: então restringi um pouco minhas ambições, e resolvi mudar apenas meu país. 
Mas o país também me parecia imutável. 
No ocaso da vida, em uma última e desesperada tentativa, quis mudar minha família, mas eles não se interessavam nem um pouco, dizendo que eu sempre repeti os mesmos erros. 
“Em meu leito de morte, enfim descobri: se eu tivesse começado por corrigir meus erros e  mudar a mim mesmo, meu exemplo poderia transformar minha família. O exemplo de minha família talvez contagiasse a vizinhança, e assim eu teria sido capaz de melhorar meu bairro, minha cidade, o país, e - quem sabe? - mudar o mundo.”

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Descobrindo o verdadeiro medo

Um sultão decidiu fazer uma viagem de navio com alguns de seus melhores cortesãos. Embarcaram no porto de Dubai, e seguiram em direção ao mar aberto. 
Entretanto, assim que o navio se afastou da terra, um dos súditos – que jamais tinha visto o mar, e passara grande parte de sua vida nas montanhas começou a ter um ataque de pânico. 
Sentado no porão do navio ele chorava, gritava, e recusava-se a comer ou dormir. Todos procuravam acalmá-lo, dizendo que a viagem não era tão perigosa assim, mas embora as palavras dos outros chegassem aos seus ouvidos, não atingiam o seu coração. O sultão não sabia o que fazer, e a linda viagem por mares calmos e céu azul tornou-se um tormento para os passageiros e a tripulação. 
Dois dias se passaram sem que ninguém pudesse dormir com os gritos do homem. O sultão já estava prestes a mandar o barco de volta ao porto, quando um de seus ministros, conhecido por ser um homem sábio, aproximou-se:
- Sua Alteza, com sua permissão, eu conseguirei acalmá-lo. 
Sem hesitar um momento, o sultão disse que não apenas permitia, mas que o ministro seria recompensado se conseguisse resolver o problema. 
O sábio então pediu que o homem fosse atirado ao mar. Na mesma hora, contentes porque aquele pesadelo estava prestes a terminar, um grupo de tripulantes agarrou o homem que se debatia no porão, e o atiraram no oceano. 
O cortesão começou a se debater, afundou, engoliu água salgada, voltou à superfície, gritou mais forte ainda, afundou de novo, e de novo conseguiu voltar à tona. Neste momento, o ministro pediu para que o alçassem de novo até o barco. 
A partir daquele momento, ninguém ouviu mais qualquer reclamação do homem, que passou o resto da viagem em silêncio, chegando mesmo a comentar com um dos passageiros que nunca tinha visto nada tão belo como o céu e o mar que se juntavam no horizonte. A viagem - que antes era um tormento para todos que se encontravam no barco - transformou-se de novo em uma experiência de harmonia e tranquilidade. 
Pouco antes de retornarem ao porto, o Sultão foi procurar o ministro:
- Como é que você podia adivinhar que, jogando aquele pobre homem no mar, ele ia ficar mais calmo? 
- Por causa do meu casamento – respondeu o ministro. – Eu vivia apavorado com a idéia de perder a minha mulher, e meu ciúme era tão grande, que eu não parava de chorar e gritar como este homem. 
“Um dia ela não aguentou mais, foi embora – e eu pude experimentar o terrível que seria a vida sem ela. Só voltou depois que eu prometi que jamais tornaria a atormentá-la com meus medos.”
“Da mesma maneira, este homem jamais havia provado água salgada, e jamais tinha se dado conta da agonia de um homem prestes a afogar-se. Depois que conheceu isso, entendeu perfeitamente que maravilha é sentir as tábuas de um navio debaixo de seus pés. 
- Sábia atitude – comentou o sultão.
- Está escrito em um livro sagrado dos cristãos, a Bíblia: “tudo aquilo que eu mais temia, terminou me acontecendo.” Certas pessoas só conseguem valorizar o que tem, quando experimentam a sensação da perda.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Aprendendo com os mais velhos

Era uma vez um jovem chamado Aurangzeb, cujo trabalho era viajar de cidade em cidade, vendendo chapéus. 
Certa tarde de verão, Aurangzeb atravessava uma longa e monótona planície, quando se sentiu cansado e resolveu tirar um cochilo. Encontrou uma mangueira, colocou o saco com chapéus ao seu lado, deitou-se na sombra refrescante da árvore, e dormiu. 
Ao acordar, descobriu que todos os chapéus haviam sumido. “Não! Não!” disse para si mesmo. “Com tanta gente rica por aí, por que os ladrões decidiram roubar um homem com uma mercadoria de tão pouco valor?”
Ao olhar para cima, porém, viu que a mangueira estava repleta de macacos, todos usando os seus chapéus. 
Aurangzeb gritou irritado para os macacos, que também retornaram seu grito. 
Aurangzeb fez sinais agressivos com as mãos, e os macacos o imitaram. Saltou para ver se conseguia pegar alguns deles, mas os macacos também saltaram. Começou a jogar pedras na direção da árvore, mas recebeu de volta uma chuva de mangas que os bichos lhe atiraram. 
“Que droga! Nunca vou conseguir recuperar minha mercadoria!”, gritou.  
Irritado, ele jogou seu chapéu no chão, e – qual a sua surpresa – todos os macacos fizeram a mesma coisa. Rapidamente, Aurangzeb recolheu tudo, e seguiu seu caminho.
Contou a história na cidade seguinte, e “Aurangzeb engana os macacos” tornou-se uma lenda muito conhecida na região, passando de pai para filho. 
Cinquenta anos mais tarde, o jovem Habib, neto do famoso vendedor de chapéus Aurangzeb, ainda trabalhava no negócio da família. Costumava seguir os passos do avô, e ainda percorria as mesmas cidades. 
Certa tarde, depois de uma longa caminhada, sentiu-se cansado, encontrou a sombra de uma bela mangueira, colocou o saco de chapéus ao seu lado, e deitou-se para dormir um pouco. 
Quando acordou, horas depois, descobriu que sua mercadoria havia desaparecido. Blasfemou um pouco, mas - ao olhar para cima - viu um bando de macacos usando os chapéus. Por alguns instantes, sentiu-se frustrado, mas logo se lembrou da história de Aurangzeb.
“Vou irritar um pouco estes macacos estúpidos”, pensou consigo mesmo. 
Habib assobiou para os macacos, e estes assobiaram de volta. Acenou as mãos, puxou as orelhas, dançou, e os animais repetiram cada um de seus gestos. Assoou o nariz, e escutou o ruído de vários narizes sendo assoados. 
Vendo que tudo funcionava perfeitamente, jogou seu chapéu no chão, esperando que todos fizessem a mesma coisa.
Um macaco desceu da árvore, pegou o chapéu que ele havia atirado no chão, caminhou até Habib, bateu no seu ombro e disse:
“Você acha que é o único que conseguiu aprender alguma coisa com os mais velhos?” 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Hércules e a decisão

Todos nós já escutamos falar de Hércules, o famoso herói da Grécia antiga. O texto a seguir é uma adaptação feita pelo escritor americano James Baldwin sobre um dos episódios que marcou a juventude daquele que, segundo a mitologia, iria realizar doze trabalhos em nome da justiça. 
Hércules era ainda jovem, inexperiente, tinha uma longa vida diante de si, mas seu coração vivia insatisfeito. Olhava a sua volta e via que alguns de seus amigos passavam a maior parte do tempo divertindo-se, bebendo, e saindo com moças, enquanto ele era obrigado a trabalhar de sol a sol, para ajudar no sustento de sua casa. 
Certa manhã, seu padrasto pediu que fosse até uma cidade próxima, para  comprar fermento de pão. Hércules obedeceu, mas como era a primeira vez que  andava por aquele caminho, chegou a uma encruzilhada e não soube que direção tomar. 
O caminho da direita era acidentado e cheio de pedras, sem qualquer beleza  natural, mas Hércules notou que conduzia a uma bela cordilheira de montanhas  azuis no horizonte. O caminho da esquerda era largo e plano; estava ladeado por um rio de águas claras, contornava uma plantação de árvores frutíferas, e pássaros cantavam em toda a sua extensão. Entretanto, uma bruma matinal não deixava ver onde o caminho ia dar. 
Enquanto o jovem meditava, procurando descobrir a melhor decisão para cumprir a missão que lhe fora conferida, notou que duas lindas mulheres se aproximavam, cada qual por um dos caminhos. A que vinha da vereda arborizada chegou primeiro, já que a trilha era mais fácil de percorrer; Hércules notou que tinha o rosto dourado de sol, olhos brilhantes, e se dirigiu a ele com uma voz doce e persuasiva:
- Olá, rapaz de imensa força e atitude correta! – disse. – Segue-me e te conduzirei por lugares amenos, onde não há tormentas para castigar teu corpo, ou problemas para entristecer tua alma. Viverás como teus amigos, em uma ronda incessante de música e alegria, e nada te faltará: nem o vinho que refresca, nem as camas confortáveis, nem as mais belas moças da região. Vem comigo, e a tua vida será um sonho. 
A esta altura, a outra mulher – que vinha pela trilha da montanha – também havia chegado à encruzilhada. E disse para Hércules:
- Não tenho nada disso para prometer. Tudo que encontrarás neste meu caminho é aquilo que podes conseguir com tua força e tua vontade. A trilha por onde te conduzirei é irregular e amedrontadora, às vezes com subidas muito inclinadas, às vezes com vales onde os raios de sol nunca conseguem entrar. As paisagens que verás podem ser majestosas e imponentes, mas também solitárias e assustadoras. 
“No entanto, este é o caminho que conduz até as montanhas azuis da fama e da conquista, que podes ver à distância. Não podes chegar a elas sem esforço, e tudo que desejares deve ser fruto do teu trabalho. Se quiseres comer, é preciso plantar. Se quiseres o amor, é preciso amar. Se quiseres o Céu, deves ser digno de entrar pelos seus portões. Se quiseres que se lembrem de ti, deves estar pronto para lutar a cada minuto da tua vida.“
- Como você se chama? – perguntou Hércules. 
- Alguns me chamam Trabalho – respondeu a mulher. _ Mas outros me chamam Virtude, e eu prefiro este nome. 
Hércules então se voltou à outra mulher.
- E qual o seu nome?
- Alguns me chamam Prazer – disse aquela que viera do caminho florido. –  Mas prefiro que me chamem de Sorte. 
- Prazer, eu não posso ver até onde conduz a trilha para a qual me convidas –  comentou Hércules. – Por outro lado, a Virtude me mostra as montanhas no horizonte, e onde pode chegar com o resultado dos meus esforços. 
E pegando na mão da Virtude, entrou com ela no caminho que conduzia ao seu próprio destino.