quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Final: Manuel vai ao Paraíso

llNas duas colunas anteriores, analisei a vida de Manuel, sempre ocupado, achando que trabalhar – seja no que for – dá um sentido a vida, e jamais se perguntando qual é este sentido. 
Mais tarde, Manuel se aposenta. Desfruta um pouco a liberdade de não ter hora para acordar, e poder usar seu tempo para fazer o que quiser. Mas logo cai em depressão: sente-se inútil, afastado da sociedade que ajudou a construir, abandonado pelos filhos que cresceram, incapazes de entender o sentido da vida – já que jamais se preocupou em responder à famosa pergunta: “O que estou fazendo aqui?”
Bem, nosso querido, honesto, dedicado Manuel, termina morrendo um dia – o que irá acontecer com todos os Manuéis, Paulos, Marias, Monicas da vida. E neste caso, eu deixo a palavra a Henry Drummond, em seu brilhante livro “O Dom Supremo”, para descrever o que se passa daí por diante:

Todos nós, em algum momento, já fizemos a mesma pergunta que todas as gerações fizeram:
Qual é a coisa mais importante da nossa existência?
Queremos empregar nossos dias da melhor maneira, pois ninguém mais pode viver pela gente. Então, precisamos saber: para onde devemos dirigir nossos esforços, qual o supremo objetivo a ser alcançado?
Estamos acostumados a escutar que o tesouro mais importante do mundo espiritual é a Fé. Nesta simples palavra se apóiam muitos séculos de religião.
Consideramos a Fé a coisa mais importante do mundo? Pois bem, estamos completamente errados.
Em sua epistola aos Corintios, capitulo XIII, (São) Paulo nos conduz aos primeiros tempos do Cristianismo. E termina dizendo: “permanecem a Fé, a Esperança, e o Amor, estes três. Porém, o mais importante é o Amor”.
Não se trata de uma opinião superficial de (São) Paulo, autor destas frases. Afinal de contas, ele estava falando de Fé um momento antes, na mesma carta. Ele dizia:
“Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver Amor, nada serei”.
Paulo não fugiu do assunto; pelo contrário, comparou a Fé com o Amor. E concluiu:
“(...) o maior destes é o Amor”.
Mateus nos dá uma descrição clássica do Juízo Final: o Filho do Homem senta-se em um trono, e separa, como um pastor, os cabritos das ovelhas.
Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?”
Será, isto sim: “Como amei?”
O  teste final de toda busca da Salvação, será o Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.
Nada disso nos será cobrado. O que nos será cobrado: nossa maneira de amar o próximo.
Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Seremos julgados pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão, de que Seu Filho morreu inutilmente.

Neste caso, nosso Manuel é salvo no momento de sua morte, porque apesar de jamais ter dado um sentido à sua vida, foi capaz de amar, prover a sua família, e ter dignidade naquilo que fazia. Entretanto, mesmo que o final seja feliz, o resto de seus dias na terra foi muito complicado. 
Repetindo uma frase que escutei de Shimon Peres no Fórum Mundial de Davos: “tanto o otimista como o pessimista terminam  morrendo. Mas os dois aproveitaram a vida de maneira completamente distinta”. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Segundo capítulo: Manuel é um homem livre

llManuel trabalha 30 anos sem parar, educa seus filhos, dá bom exemplo, dedica-se o tempo inteiro ao trabalho, e jamais pergunta: “será que tem sentido o que estou fazendo?” Sua única preocupação é achar que, quanto mais ocupado estiver, mais importante será aos olhos da sociedade. 
Seus filhos crescem e saem de casa, é promovido no trabalho, um dia em que ganha um relógio ou uma caneta como recompensa por todos estes anos de dedicação, os amigos vertem algumas lágrimas, e chega o momento tão esperado: está aposentado, livre para fazer o que quiser! Nos primeiros meses, ele visita uma vez por outra o escritório onde trabalhou, conversa com os antigos amigos, e dá-se ao prazer de fazer algo que sempre sonhou: acordar mais tarde. Passeia na praia ou na cidade, tem sua casa de campo comprada com muito suor, descobriu a jardinagem, e vai aos poucos penetrando no mistério das plantas e das flores. Manuel tem tempo, todo o tempo do mundo. Viaja usando parte do dinheiro que conseguiu juntar. Visita museus, aprende em duas horas o que pintores e escultores de diferentes épocas levaram séculos para desenvolver, mas pelo menos fica com a sensação de que está aumentando sua cultura. Tira muitas centenas, milhares de fotos, e manda para os amigos – afinal, eles precisam saber o quanto é feliz! 
Outros meses se passam. Manuel aprende que o jardim não segue exatamente as mesmas regras que o homem – o que plantou vai demorar a crescer, e não adianta tentar ver se a roseira já tem botões. Em um momento de sincera reflexão, descobre que tudo que viu em suas viagens foi uma paisagem do lado de fora do ônibus de turismo, monumentos que agora estão guardados em fotos 6x9, mas na verdade não conseguiu sentir nenhuma emoção especial – estava mais  preocupado em contar para os amigos do que viver a experiência mágica de estar em um país estrangeiro. 
Continua assistindo a todos os noticiários de televisão, lê mais jornais (porque tem mais tempo), julga-se uma pessoa extremamente bem informada, capaz de discutir coisas que antes não tinha tempo para estudar. 
Procura alguém para dividir suas opiniões – mas todos estão imersos no rio da vida, trabalhando, fazendo alguma coisa, invejando Manuel por sua liberdade, e ao mesmo tempo contentes por serem úteis a sociedade, e estarem “ocupados” com alguma coisa importante. 
Manuel busca conforto nos filhos. Estes sempre o tratam com muito carinho – foi um excelente pai, um exemplo de honestidade e dedicação – mas também eles têm outras preocupações, embora considerem um dever participar do almoço de domingo. 
Manuel é um homem livre, com uma situação financeira razoável, bem informado, um passado impecável, mas e agora? O que fazer desta liberdade tão arduamente conquistada? Todos o cumprimentam, o elogiam, mas ninguém tem tempo para ele. Pouco a pouco, Manuel começa a sentir-se triste, inútil – apesar dos muitos anos servindo ao mundo e à sua família. 
Certa noite, um anjo aparece em seu sonho: “o que você fez da sua vida? Você procurou vivê-la de acordo com seus sonhos?”
Manuel acorda suando frio. Que sonhos? Seu sonho era esse: ter um diploma, casar, ter filhos, educá-los, aposentar-se, viajar. Por que o anjo fica perguntando coisas sem sentido? 
Um novo e longo dia começa: os jornais, o noticiário na TV, o jardim e o almoço. Dormir um pouco, fazer o que tem vontade e, neste momento, descobre que não tem vontade de fazer nada. Manuel é um homem livre e triste, a um passo da depressão, porque estava ocupado demais para pensar no sentido da sua vida, enquanto os anos corriam por debaixo da ponte. Lembra-se dos versos de um poeta: “passou pela vida/não viveu”. 
Mas  como é tarde demais para aceitar isso, melhor mudar de assunto. A liberdade, tão duramente conseguida, não passa de um exílio disfarçado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Manuel é um homem importante e necessário

llManuel precisa estar ocupado. Caso contrário, acha que sua vida não tem sentido, está perdendo seu tempo, a sociedade não precisa dele, ninguém o ama, ninguém o quer. 
Portanto, assim que acorda, tem uma série de tarefas: assistir o noticiário na televisão (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa durante o dia de ontem), pedir à mulher que não deixe as crianças se atrasarem para a escola, pegar um carro, um táxi, um ônibus, um metrô, mas sempre concentrado, olhando o vazio, olhando o relógio, se possível dando alguns telefonemas em seu celular – e fazendo questão que todos vejam que é um homem importante, útil para o mundo. 
Manuel chega no trabalho, debruça-se sobre a papelada que o espera. Se for um funcionário, faz o possível para que  chefe veja que chegou na hora. Se for patrão, coloca todos para trabalhar imediatamente; caso não existam tarefas importantes, Manuel irá desenvolvê-las, cria-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de ação. 
Manuel vai almoçar – mas jamais sozinho. Se for patrão, senta-se com os amigos, discute novas estratégias, fala mal dos concorrentes, sempre tem uma carta escondida na manga, queixa-se (com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel for funcionário, também senta-se com os amigos, queixa-se do chefe, diz que está fazendo muita hora extra, afirma com desespero (e com muito orgulho) que várias coisas na empresa dependem dele. 
Manuel – patrão ou empregado – trabalha a tarde inteira. De vez em quando olha o relógio, está chegando a hora de voltar para casa, mas falta resolver um detalhe aqui, assinar um documento ali. É um homem honesto, quer fazer jus ao seu salário, às expectativas dos outros, aos sonhos de seus pais, que tanto se esforçaram para lhe dar educação necessária. 
Finalmente volta para casa. Toma banho, coloca uma roupa mais confortável, vai jantar com a família. Pergunta pelos deveres dos filhos, as atividades da mulher. De vez em quando fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo – porque não costuma trazer preocupações para casa. O jantar termina, os filhos – que não estão nem aí para exemplos, deveres, ou coisas similares – saem logo da mesa e vão para frente do computador. Manuel, por sua vez, vai também sentar-se diante daquele velho aparelho de sua infância, chamado televisão. De  novo vê os noticiários (pode ter acontecido alguma coisa de tarde) 
Vai deitar-se sempre com um livro técnico na mesa de cabeceira – sendo patrão ou empregado, sabe que a concorrência é grande, e quem não se atualiza, corre o risco de perder o emprego e ter que enfrentar a pior das maldiçoes: ficar desocupado. 
Conversa alguma coisa com sua mulher – afinal, é um homem gentil, trabalhador, amoroso,  que cuida de sua família e está pronto para defendê-la em qualquer circunstância. O sono vem logo, Manuel dorme, sabendo que no dia seguinte estará muito ocupado, e é preciso recuperar as energias. 
Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo lhe pergunta: “por que você faz isso?” Ele responde que é um homem responsável. 
O anjo continua: “você seria capaz de, pelo menos durante quinze minutos do seu dia, parar um pouco, olhar o mundo, olhar você mesmo, e simplesmente não fazer nada?” Manuel diz que adoraria, mas não tem tempo para isso. “Você está me enganando”, diz o anjo. “Todo mundo tem tempo para isso, o que falta é coragem. Trabalhar é uma benção quando isso nos ajuda a pensar no que estamos fazendo. Mas torna-se uma maldição quando sua única utilidade é evitar que pensemos no sentido de nossa vida”.
Manuel acorda no meio da noite, suando frio. Coragem? Como é que um homem que se sacrifica pelos seus, não tem coragem de parar quinze minutos? 
É melhor dormir de novo, tudo não passa de um sonho, estas perguntas não levam a nada, e amanhã vai estar muito, muito ocupado. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quando o proibido é proibido

llLogo depois de uma palestra em Haia, na Holanda, um grupo de leitores se aproximou. Queriam que visitasse a cidade onde vivem, já que, segundo eles, ali estavam fazendo uma experiência única na Europa. 
Estou vacinado contra “experiências únicas no mundo”, mas ao mesmo tempo, adoro conversar com desconhecidos. Marcamos para o dia seguinte, já que meu vôo para Paris saía apenas no final da tarde. 
Os leitores – duas moças e quatro rapazes, que se comprometeram a me deixar ao aeroporto assim que eu tivesse visto algo “único na Europa”, me levaram até a cidade de Drachten. Saímos do carro, eles beberam cerveja, eu tomei um café. Me olhavam surpresos, mas eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Depois de algum tempo, um deles perguntou:
- Não reparou nada diferente?
Uma cidade pequena, bonita, com gente andando pela rua, em um outono que ainda parecia verão. Fora disso, igual a todas as outras cidades que conheço no mundo. Eles pagaram a conta, atravessamos a rua para ir a outro bar, pediram que olhasse de novo – e continuei achando Drachten muito simpática, e muito igual ao resto da Europa. 
- - Você me decepcionou – disse uma das moças. – Achei que acreditava em sinais. 
- Claro que acredito.
- E você viu algum sinal aqui?
- Não. 
- Pois é justamente isso! Drachten é uma cidade sem qualquer sinal!
Seu namorado completou:
- De tráfego!
De repente, me dei conta que eles tinham absoluta razão: não havia a famosa placa “Stop”, as faixas de pedestre, as marcas de cruzamento e de “ceda a passagem”. Não havia um só aparelho daqueles que chamamos de sinais, ou semáforos, com suas luzes vermelhas, amarelas e verdes! E, para minha surpresa, nem sequer existia a divisão entre a calçada e a rua. O movimento estava longe de ser pequeno: caminhões, carros, bicicletas (onipresentes na Holanda), pedestres, todos pareciam estar perfeitamente organizados no meio de um lugar onde não havia nada para colocar ordem no trânsito. Em momento algum ouvi um impropério, escutei freiadas súbitas, ou buzinas ensurdecedoras. 
No caminho para o aeroporto, eles me contaram um pouco mais sobre a experiência, que – preciso concordar – é realmente singular.  A idéia nasceu de um engenheiro, Hans Mondermann. Ele trabalhava para o governo holandês na década de 70, quando começou a pensar que a única maneira de diminuiu o crescimento constante de acidentes, era dar ao motorista total responsabilidade pelo que fazia. 
Sua primeira providência foi diminuir a largura das estradas que passavam por vilarejos, usar tijolos vermelhos ao invés de asfalto, tirar a linha central que separa as duas mãos, destruir os meio-fios, e encher as alamedas com fontes e paisagens relaxantes – de modo que as pessoas, presas em engarrafamentos, pudessem distrair-se enquanto esperavam. Logo em seguida veio a decisão radical: tirar os sinais de transito, e acabar com um limite de velocidade. 
Ao entrarem na cidade, os 6.000 motoristas que passavam ali por dia, ficavam assustados: onde posso dobrar? De quem é a via preferencial? E assim, passavam a prestar o dobro de atenção ao que acontecia em volta. Duas semanas depois, a velocidade média era abaixo dos 30 km/h permitido em locais como Drachten. Monderman apostava alto:
“Se um pedestre vai atravessar a rua, claro que o carro terá que parar: nossos avós nos ensinaram as regras de cortesia”.
Até o momento, isso tem dado certo. Cheguei no aeroporto pensando que Monderman não fez apenas uma experiência de transito, mas algo muito mais profundo. Afinal, é sua a frase: 
 “Se você tratar uma pessoa como idiota, ela se comporta conforme o regulamento, e nada mais. Mas se você lhes der responsabilidade, ela saberá usá-la”.