sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Histórias da América Latina


O poder da imagem
llUma lenda peruana nos fala de uma cidade onde todos eram felizes. Todos faziam o que desejavam, e se entendiam bem - menos o prefeito, que vivia infeliz porque não conseguia governar nada. A prisão estava vazia, o tribunal nunca era usado, e o tabelião não dava nenhum lucro porque a palavra valia mais que o papel. 
"Falta autoridade aqui", pensava o prefeito. E tentava, de todas as maneiras, fazer com que as pessoas obedecessem a leis absurdas criadas pelo governo central. Ninguém dava bola. 
Até que o prefeito teve uma ideia. Mandou vir operários de longe, que fecharam o centro da praça principal da cidadezinha com um tapume, e começaram a construir algo. Durante uma semana, ouviu-se martelos batendo, serras cortando madeira, vozes de comando dos capatazes.
 Certa tarde, o prefeito convidou a todos da cidade para a inauguração. Com toda solenidade, os tapumes foram retirados, e apareceu... uma forca. 
Novinha em folha, com a corda balançando ao vento, e as ferragens do alçapão bem lubrificadas. 
 A partir daquele momento, todo mundo que passava pela praça via a forca. As pessoas foram ficando tristes, sem ter certeza de que estavam agindo certo. Começaram a se perguntar o que aquela forca estava fazendo ali - e, com medo, passaram a ir na justiça resolver qualquer coisa que antes era resolvida de comum acordo. Passaram a ir ao tabelião, registrar documentos que antes eram substituídos pela palavra. E passaram a escutar o prefeito em tudo, com medo de ferir a lei.
A lenda termina dizendo que a forca nunca foi usada. Mas bastou sua presença para mudar tudo.  

Amaldiçoando à toa 
Um feiticeiro mexicano conduz seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho caminha com agilidade, enquanto seu aprendiz escorrega e cai a todo instante.  
O aprendiz blasfema, levanta-se, cospe no chão traiçoeiro, e continua a acompanhar seu mestre. 
Depois de longa caminhada, chegam a um lugar sagrado. Sem parar, o feiticeiro dá meia-volta e começa a viagem de volta.
  "Você não me ensinou nada hoje", diz o aprendiz, levando mais um tombo.
 "Ensinei sim, mas você parece que não aprende", responde o feiticeiro. "Estou tentando lhe ensinar como se lida com os erros da vida”.
 "E como lidar com eles?" 
 "Como deveria lidar com seus tombos. Ao invés de ficar amaldiçoando o lugar onde caiu, devia procurar aquilo que provocou a queda".

Dar também um pouco
Um grupo de estudantes uruguaios estava reunido numa casa de campo, quando o caseiro chegou - contando uma tragédia nas redondezas: uma casa incendiou-se, deixando mãe e filha desabrigadas. Imediatamente, uma das estudantes iniciou uma coleta, para ajudar a família a reconstruir sua casa.
 Entre os presentes estava um escritor pobre, e a moça resolveu não lhe pedir nada.
"Um momento", disse o escritor, quando ela ia passando adiante. 
"Também quero contribuir".
No minuto seguinte, escreveu em um papel o que havia acontecido, e colocou-o dentro do pote que estava sendo usado para arrecadar o dinheiro.
 "Quero dar a todos esta tragédia. Que ela seja sempre lembrada quando pensarmos nos pequenos incidentes de nossas vidas".

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Relembrando o feiticeiro mexicano


ll“Quando nasce o sol, eu vou trabalhar. Quando o sol se põe, volto para casa e descanso. Cavei o poço de onde tiro água para beber, e cultivo o campo que me dá o alimento. Agindo assim, estou em perfeita comunhão com o Criador – e nenhum rei pode fazer melhor que isso“.
Este antigo texto chinês também serve para sintetizar a filosofia de um dos mais importantes pensadores de minha geração, Carlos Castaneda. Seus ensinamentos, condensados em uma série de livros, sempre foram objeto de críticas e dúvidas – mas tiveram um impacto muito grande em minha vida. Como hoje em dia as pessoas já praticamente não sabem quem é Castaneda, transcrevo e comento alguns de seus trechos pelo menos uma vez por ano. Não sei se com isso conseguirei que não o esqueçam; mas pelo menos, ao folhear suas páginas, me deparo com uma obra que se renova a cada leitura. 

A energia está na busca da liberdade
Liberdade é a única verdadeira força que conheço. Liberdade de voar além dos próprios limites. Liberdade de deixar-se levar pelo vento, de dissolver-se. Liberdade de ser como a chama de uma vela que, apesar de estar sendo contemplada por bilhões de estrelas, não se deixa intimidar nem finge ser nada além do que é – uma simples vela.

A energia vem de aceitar-se a si mesmo
Não tem a menor importância o que você esconde ou mostra ao seu semelhante – porque você sabe quem é. E se não se aceita como tal, mesmo o mais profundo ensinamento filosófico será incapaz de ter qualquer efeito. Mas quem é você? 
Será que entende que neste momento está cercado pela eternidade, e pode usar sua energia a seu favor? 
Partindo do princípio que conhece suas limitações, passe também a conhecer todas as suas possibilidades, e poderá ser chamado de um guerreiro impecável. 
A diferença entre um guerreiro impecável e os outros, é que aquele sabe como usar a sua força. 

A energia do silêncio
Quando estamos quietos, nos damos conta de que alguém (ou alguma coisa) está procurando nos ensinar. Sempre que conseguimos parar nosso diálogo interior, algo de extraordinário termina acontecendo em nossas vidas. Descobrimos coisas que jamais pensamos conscientemente, mas que estão ali, prontas para nos ajudar. 
Entretanto, o difícil mesmo é conseguir atingir este silêncio – nossa cabeça vive ocupada com músicas, listas, coisas para fazer, preocupações, notícias de jornais, cálculos matemáticos sobre nossas possibilidades financeiras. 
Se conseguirmos deter este fluxo inútil de reflexões que não nos conduzem a lugar nenhum, tudo passa a ser possível. 

A energia é ação
Para um homem de conhecimento, só existe o Aqui e o Agora. Portanto, ele entende que cada vez que age, está aumentando o seu poder e sua força. Ao fazer isso, observa com cuidado tudo aquilo que o cerca, e sabe que cada coisa, por menor ou mais insignificante que seja, está carregada de energia, e pode lhe ensinar algo: plantas, pregos, folhas caídas, tudo isso precisa de uma gigantesca energia para manter os átomos em seu lugar, de modo que possam ser percebidas e tocadas. 
Um verdadeiro guerreiro consegue absorver esta força, e usá-la a seu favor. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

As línguas que Deus fala


llUm missionário espanhol visitava uma ilha quando encontrou três sacerdotes astecas.
– Como vocês rezam? – perguntou o padre.
– Temos apenas uma oração – respondeu um dos astecas. – Nós dizemos: “Deus, Tu És três, nós somos três. Tende piedade de nós”.
– Bela oração – disse o missionário. – Mas ela não é exatamente a prece que Deus escuta. Vou lhes ensinar uma muito melhor.
O padre ensinou uma oração católica, e seguiu seu caminho de evangelização. Anos depois, já no navio que o levava de volta à Espanha, precisou passar de novo por aquela ilha. Do convés, viu os três sacerdotes na praia – e fez um aceno de despedida. 
Neste momento, os três começaram a caminhar pela água, em direção a ele.
– Padre! Padre! – gritou um deles, aproximando-se do navio. – Nos ensina de novo a oração que Deus escuta, porque não conseguimos lembrar!
– Não importa – disse o missionário, vendo o milagre. E pediu perdão a Deus, por não ter entendido antes que Ele falava todas as línguas.
A seguir, algumas destas preces:

Dhammapada 
(atribuída a Buda) 
Melhor que, ao invés de mil palavras,
Houvesse apenas uma, mas que trouxesse Paz.
Melhor que, ao invés de mil versos,
Houvesse apenas um, mas que mostrasse o Belo. 
Melhor que, ao invés de mil canções, 
Houvesse apenas uma, mas que espalhasse alegria. 
Mevlana Jelaluddin Rumi, século XIII.
Lá fora, além do que está certo e do que está errado, existe um campo imenso.  Nos encontraremos ali. 
Profeta Mohammed, 
século VII.
Oh Alá! Eu te consulto porque sabes tudo, e conheces mesmo aquilo que está escondido. 
Se o que estou fazendo é bom para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, então que a tarefa seja fácil e abençoada. 
Se o que estou fazendo agora é mau para mim e para minha religião, para minha vida agora e depois, mantenha-me longe desta tarefa. 

Jesus de Nazaré, 
Mateus 7; 7-8.
Pedi, e receberás. 
Procure, e encontrarás. 
Bate, e a porta se abrirá. 
Porque quem pede, recebe; quem procura, acha; quem bate, a porta se abre.

Prece Judaica para a Paz
Vamos à montanha do Senhor, onde poderemos caminhar com Ele. Transformemos nossas espadas em arados, e nossas lanças em coletores de frutos. 
Que nenhuma nação levante sua espada contra outra, e que jamais aprendamos a arte da guerra. 
E ninguém deve temer ao seu vizinho, porque assim disse o Senhor. 

Lao Tsu, China - 
século VI A.C.
Para haver paz no mundo, é necessário que as nações vivam em paz.
Para haver paz entre as nações, as cidades não devem se levantar uma contra a outra. 
Para haver paz nas cidades, os vizinhos precisam se entender. 
Para haver paz entre os vizinhos, é preciso que reine harmonia no lar.
Para haver paz em casa, é preciso encontrá-la em seu próprio coração.