quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A princesa adotada


A história - real- me foi contada pelo escritor e amigo Arnaldo Niskier. Ao estudar sua árvore genealógica para a elaboração de um livro sobre a tradição judaica, Niskier descobriu no rabino Shabbetai Ben Meir Ha-Kohen (1621-1663) um parentesco em linha direta com a sua avó Rifka Rapaport Topel.

Enquanto estudava e escrevia, o rabino Shabse (seu nome simplificado), que nasceu na Lituânia, jamais esquecia os seus compromissos familiares. Casado com a filha de outro rabino, que era muito rico, pôde dedicar-se aos estudos do código civil judaico. A única coisa que o afligia era a invasão periódica dos cossacos comandados por Bogdan Chminiecki; eram violentíssimos. De uma feita, chegaram a matar 10 mil judeus, pela simples razão de que eram judeus. Pode se conceber isso?

Em uma dessas invasões, Shabse enrolou sua recém- nascida filha Ester num cobertor, e embrenhou-se pela floresta, para tentar escapar à violência. Um dia depois, sentiu que a criança estava desfalecendo, e provavelmente iria morrer; sem conhecimentos médicos, colocou-a delicadamente no chão e partiu à procura de socorro.

Antes que pudesse voltar, os cossacos se retiraram da região e o rei da Polônia entrou na cidade, vindo pela floresta. O corpo da menina foi descoberto por um soldado, que chamou o médico da corte para dar o seu diagnóstico; ela estava muito fraca, e necessitava de socorro urgente. Foi conduzida ao palácio real, onde se recuperou depois de alguns meses de tratamento.

Tornou-se, dali para frente, íntima amiga da filha do rei, a princesa Maria; cresceram juntas até os seis anos de idade. Ester foi tratada como uma "princesa adotada", com as mesmas regalias da princesa verdadeira. Mas não concordou em ser convertida à religião católica, pois ao saber da sua história, certificou-se de que era judia - e assim quis permanecer.

Ester foi então devolvida ao pai, cresceu junto a sua família, e os tempos do palácio se transformaram em uma doce, mas longínqua lembrança. Até que, para fazer frente à nova guerra, o governo taxou os judeus da região, cobrando-lhes impostos exagerados. Se as coisas continuassem daquela maneira, todos iriam à falência. Surgiu a idéia de recorrer a Ester. Afinal, ela não era amiga da princesa? Não se viam há muito tempo, mas não custava tentar. Ester pediu a audiência. Maria concordou, pois sentia saudades da amiga de infância.
O reencontro foi cheio de alegria e emoção. Quando Ester contou à princesa o que se passava, logo encontrou solidariedade. Maria falou com o pai, que resolveu atender à solicitação da filha - e também da "princesa adotada".

“Porque o amor fraternal não é jamais destruído pelo tempo ou pelas diferenças, a comunidade israelita pôde ser salva.”

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O círculo da alegria

Conta Bruno Ferrero que, certo dia, um camponês bateu com força na porta de um convento. Quando o irmão porteiro abriu, ele lhe estendeu um magnífico cacho de uvas. 
- Caro irmão porteiro, estas são as mais belas produzidas pelo meu vinhedo. E venho aqui para dá-las de presente. 
- Obrigado! Vou levá-las imediatamente ao Abade, que ficará alegre com esta oferta. 
- Não! Eu as trouxe para você.
- Para mim? – o irmão ficou vermelho, porque achava que não merecia tão belo presente da natureza.
- Sim! – insistiu o camponês. – Porque sempre que bati na porta, você abriu. Quando precisei de ajuda porque a colheita foi destruída pela seca, você me dava um pedaço de pão e um copo de vinho todos os dias. Eu quero que este cacho de uvas traga-lhe um pouco do amor do sol, da beleza da chuva, e do milagre de Deus, que o fez nascer tão belo. 
O irmão porteiro colocou o cacho diante de si, e passou a manhã inteira a admirá-lo: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao Abade, que sempre o havia estimulado com palavras de sabedoria.
O Abade ficou muito contente com as uvas, mas lembrou-se que havia no convento um irmão que estava doente, e pensou:
“Vou dar-lhe o cacho. Quem sabe, pode trazer alguma alegria à sua vida.”
E assim fez. Mas as uvas não ficaram muito tempo no quarto do irmão doente, porque este refletiu:
“O irmão cozinheiro tem cuidado de mim por tanto tempo, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho certeza que se alegrará com isso.”
Quando o irmão cozinheiro apareceu na hora do almoço, trazendo sua refeição, ele entregou-lhe as uvas. 
- São para você – disse o irmão doente. – Como sempre está em contacto com os produtos que a natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.
O irmão cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho, e fez com que o seu ajudante reparasse a perfeição das uvas. Tão perfeitas, pensou ele, que ninguém para apreciá-las melhor que o irmão sacristão; como era ele o responsável pela guarda do Santíssimo Sacramento, e muitos no mosteiro o viam como um homem santo seria capaz de valorizar melhor aquela maravilha da natureza.  
O sacristão, por sua vez, deu as uvas de presente ao noviço mais jovem, de modo que este pudesse entender que a obra de Deus está nos menores detalhes da Criação. Quando o noviço o recebeu, o seu coração encheu-se da Glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tão lindo. Na mesma hora lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro, e da pessoa que lhe tinha aberto a porta; fora este gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.
Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas para o irmão porteiro. 
- Coma e aproveite – disse. – Porque você passa a maior parte do tempo aqui sozinho, e estas uvas o fará muito feliz. 
O irmão porteiro entendeu que aquele presente tinha lhe sido realmente destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho, e dormiu feliz. 
Desta maneira, o círculo foi fechado; o círculo de felicidade e alegria, que sempre se estende em torno das pessoas generosas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O sufismo

Em muitas destas colunas, eu já contei histórias sufi, algumas das quais onde seu principal personagem – Nasrudin, o louco que sempre consegue ser mais inteligente que os sábios – consegue sempre surpreender o leitor com seus atos. Hoje eu gostaria de deixar um pouco de lado estas histórias, e procurar escrever um pouco sobre o tema em si.

A definição enciclopédica descreve o sufismo o esoterismo islâmico – e, por esta razão, sempre foi muito mal recebido no mundo muçulmano. Nasceu por volta do século X, e parte do seguinte princípio: através de uma série de práticas religiosas não convencionais, o fiel pode ter uma relação direta com Deus. A mais comum destas práticas é a dança, e a transmissão da filosofia se faz através de pequenas lendas. 

No meu segundo dia de visita ao Iran, em 2001, fui convidado para assistir uma cerimônia sufi. Num pequeno apartamento em Teerã, com as luzes apagadas, as velas acesas, os instrumentos de percussão soando, foi possível ver como esta tradição espiritual pode conservar sua pureza até hoje.

O encontro começou às nove da noite. Por quase meia hora, um homem – usando um tom de voz que parecia sair do fundo da alma – cantava de uma maneira quase monótona. Quando ele parou de cantar, começaram os instrumentos de percussão, com um ritmo muito semelhante ao que estamos acostumados a ver nas cerimônias de religiões afro-brasileiras. 

Foi então que, seguindo a mesma linha ritual destas religiões que conhecemos tão bem, alguns homens levantaram-se (nós estávamos todos sentados em torno de um espaço vazio no meio da sala) e começaram a girar em torno de si mesmos. 

A cerimônia toda durou uma hora, durante a qual os dançarinos riam alto, diziam palavras incompreensíveis (mesmo para as pessoas que falam persa), e demonstravam estar em um profundo transe. Aos poucos, foram parando de girar, a percussão diminuiu, e as luzes da sala foram acesas.

Perguntei a um deles o que havia sentido. 

- Estive em contacto com a energia do Universo - respondeu. - Deus passou por minha alma.

- É preciso fazer algo mais? Ter uma crença especial, uma prática constante? – perguntei.

- Segundo um dos mais importantes teólogos do Islã, o sufismo não é uma doutrina, nem um sistema de crenças. É uma tradição de iluminação através de tudo que é dinâmico.

Abu Muhammad Mutaish diz: “O sufi é aquele cujo pensamento caminha na mesma velocidade que seu pé". Ou seja, sua alma está onde está o seu corpo, e vice-versa. Onde um sufi está, ali se encontra também tudo aquilo que ele é: o trabalhador, o místico, o intelectual, o contemplativo, o que se diverte. 

O sufismo é universal na medida em que aceita que a sabedoria foi transmitida ao homem através de grandes profetas, como Jesus, Moisés, Salomão, e seres iluminados de outras culturas. Entretanto, sua raiz permanece totalmente enterrada no Islã e na concepção islâmica do mundo. 

O sistema de aprendizado do sufi é semelhante ao das chamadas ordens ocultas - envolvendo um mestre, discípulos, revelação de práticas à medida que se progride no treinamento, graças especiais (baraka), etc. O mestre precisa ter o que chamamos de “Carisma”, ou seja, uma força que pode unir-se com o coração de quem o encontra. 

Um dos grandes conhecedores do sufismo na atualidade, conhecido pelas iniciais A. M., diz:“O método central do sufismo é o desenvolvimento de nossa percepção para aceitar o Amor. O Amor é a única coisa que ativa a inteligência e a criatividade, algo que nos purifica e nos liberta. Ser um sufi é ser capaz de amar, e estar atento às necessidades daquele a quem amamos (o Deus Todo Poderoso), e usar cada gesto para aproximar-se Dele, durante as 24 horas do dia".

Como eu disse no início, a maior parte dos ensinamentos sufi vem através de histórias populares, cheias de ironia. Para não fugir à tradição, termino esta coluna com uma delas. 

Nasrudin, o mestre louco do sufismo, tinha um búfalo. Os chifres afastados faziam-no pensar que, se conseguisse sentar entre eles, seria o mesmo que estar em um trono. Certo dia, quando o animal estava distraído, ele foi até lá e fez o que imaginava. Na mesma hora, o búfalo levantou-se e atirou-o longe.

Sua mulher, ao ver aquilo, começou a chorar.

“Não chore”, disse Nasrudin, assim que conseguiu recuperar-se. “Tive meu sofrimento, mas ao menos realizei também o meu desejo”.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O pranto do deserto

Assim que chegou a Marrakesh, o missionário resolveu que passearia todas as manhãs pelo deserto que ficava nos limites da cidade. Na sua primeira caminhada, notou um homem deitado nas areias, com a mão acariciando o solo, e o ouvido colado na terra. 

“É um louco”, disse para si mesmo.

Mas a cena se repetiu todos os dias, e passado um mês, intrigado por aquele comportamento estranho, ele resolveu dirigir-se ao estranho. Com muita dificuldade – já que ainda não falava árabe fluentemente – ajoelhou-se ao seu lado. 

- O que você está fazendo?

- Faço companhia ao deserto, e o consolo por sua solidão e suas lágrimas.

- Não sabia que o deserto era capaz de chorar.

- Ele chora todos os dias, porque tem o sonho de tornar-se útil ao homem, e transformar-se num imenso jardim, onde se pudesse cultivar cereal, flores, e carneiros. 

- Pois diga ao deserto que ele cumpre bem sua missão – comentou o missionário. – Cada vez que caminho por aqui, entendo a verdadeira dimensão do ser humano, pois o seu espaço aberto me permite ver como somos pequenos diante de Deus.  

“Quando olho suas areias, imagino as milhões de pessoas no mundo, que foram criadas iguais, embora nem sempre o mundo seja justo com todos. As suas montanhas me ajudam a meditar. Ao ver o sol nascendo no horizonte, minha alma se enche de alegria, e me aproximo do Criador.”

O missionário deixou o homem, e voltou para os seus afazeres diários. Qual foi sua surpresa, na manhã seguinte, ao encontrá-lo no mesmo lugar, e na mesma posição.

- Você comentou com o deserto tudo que lhe disse? – perguntou. 

O homem acenou afirmativamente com a cabeça. 

- E mesmo assim ele continua chorando?

- Posso escutar cada um de seus soluços. Agora ele chora porque passou milhares de anos pensando que era completamente inútil, e desperdiçou todo este tempo blasfemando contra Deus e seu destino. 

- Pois conte para ele que, apesar do ser humano ter uma vida muito mais curta, também passa muitos de seus dias pensando que é inútil. Raramente descobre a razão do seu destino, e acha que Deus foi injusto com ele. Quando chega o momento em que, finalmente, algum acontecimento lhe mostra o porquê de ter nascido, acha que é muito tarde para mudar de vida, e continua sofrendo. E como o deserto, culpa-se pelo tempo que perdeu.

- Não sei se o deserto ouvirá – disse o homem. – Ele já está acostumado com a dor, e não consegue ver as coisas de outra maneira. 

- Então vamos fazer aquilo que eu sempre faço quando sinto que as pessoas perderam a esperança. Vamos rezar. 

Os dois ajoelharam-se e rezaram; um virou-se em direção a Meca porque era muçulmano, o outro colocou as mãos juntas em prece, porque era católico. Rezaram cada um para o seu Deus, que sempre foi o mesmo Deus, embora as pessoas insistissem em chamá-lo por nomes diferentes. 

No dia seguinte, quando o missionário retomou a sua caminhada matinal, o homem não estava mais lá. No lugar onde costumava abraçar a areia, o solo parecia molhado, já que uma pequena fonte tinha nascido. Nos meses que se seguiram, esta fonte cresceu, e os habitantes da cidade construíram um poço em torno dela.

Os beduínos chamam o lugar de “Poço das lágrimas do deserto”. Dizem que todo aquele que beber de sua água, irá conseguir transformar o motivo do seu sofrimento, na razão da sua alegria; e terminará encontrando seu verdadeiro destino.