quinta-feira, 31 de maio de 2012

Apenas 45 minutos


llEm todos os serviços e produtos que encontramos hoje no mercado, há sempre a possibilidade de reclamar, escolher outra marca, ter sua queixa ouvida por algum órgão do governo. Mas existe uma coisa que está acima do bem e do mal: viagem de avião. 
No momento em que escrevo estas linhas, estou em um céu lindo, sendo bem atendido pelos comissários, fazendo uma viagem de 45 minutos entre Paris e Viena. Hoje, porém, resolvi cronometrar tudo. Saí de casa duas horas antes, porque é um voo internacional. Precisei ficar, junto com outra centena de passageiros, 32 minutos na fila de checagem de segurança: a mulher encarregada estava conversando, e ai de alguém que ousasse dizer alguma coisa. Em seguida – isso jamais tinha acontecido, preciso reconhecer – os mais de 100 passageiros ficaram como sardinha em lata em um ônibus, por 52 minutos, já que o avião tinha chegado tarde e não conseguira uma passarela livre. 
Um senhor idoso reclamou, tudo que conseguiu foi o comentário “se não está satisfeito, pode desembarcar”. O senhor ameaçou fazer isso, mas todos nós, na lata de sardinha, imploramos para que mudasse de ideia. Um passageiro que desiste depois de registrado irá causar um transtorno para todos os outros – já que suas malas terão que ser retiradas, o avião perderá sua janela de decolagem (aqueles minutos que lhe foram generosamente concedidos por uma autoridade também acima do bem e do mal) e isso pode resultar em outra hora de espera, até que exista de novo o pequeno espaço livre em uma quantidade interminável de decolagens e pousos.
A companhia em que geralmente viajo me deu um cartão especialíssimo, que - se não me engano - apenas dois mil passageiros possuem. É renovado anualmente, enviado para meu apartamento no Brasil – e como estou em trânsito há algum tempo, ainda não pude tê-lo comigo. Claro, minhas informações estão no computador, e o homem que está me registrando sabe disso, mas resolveu pedir uma prova física, já que o cartão que tenho comigo está com sua data de validade vencida. Cheguei ontem de Kiev, vindo de Lviv, e agora estou indo para Viena, e em seguida para Toulouse. No início do mês estava em Londres; como passei por muitos controles de segurança, atrasos, esperas, gente mal-encarada, uma ameaça de bomba (por sinal ninguém disse nada – apenas mencionaram que naquele dia as malas iriam em outro voo porque o avião estava lotado, e precisavam de combustível extra), uma evacuação de terminal por causa de uma mala desacompanhada, não tive paciência para discutir. Como dois cowboys no velho Oeste, nos encaramos. Ele pisca primeiro - diz que “confia em mim, mas que da próxima vez trouxesse o cartão correto”. Digo que não desejo absolutamente que confie em mim, é a primeira vez que nos vemos. Ia mais adiante, mas resolvo parar por ali. 
Estamos a poucos minutos de aterrissar, preciso desligar o computador. Sobrevoamos Paris, a Suíça, vimos o MontBlanc, o lago de Constanza. Meu garfo caiu no chão, o comissário educadíssimo trouxe imediatamente outro. Começo a pensar em outros problemas este ano – a respeitável companhia suíça que não tinha sequer um sanduíche para servir, e quando o senhor ao meu lado começou a gritar que até nas companhias low budget a gente pode pelo menos comprar algo para comer, a aeromoça chorou. O guarda aduaneiro que chamou o superintendente, porque o meu rosto era muito familiar, em que lista de procurados eu estava? (o superintendente apenas riu, pediu desculpas e um autógrafo); a mulher explicando ao senhor na minha frente que ele não podia levar sua bagagem para dentro da cabine porque isso “podia desequilibrar o avião, e fazê-lo pender para um lado” (acho que foi a desculpa mais criativa que vi), e por aí vai. 
Penso nas duas ou três vezes em que resolvi reclamar, e tudo que consegui foi uma carta do presidente da companhia aérea pedindo desculpas (se você resolver reclamar, também irá receber a carta do presidente, seja qual for a companhia aérea). Com relação a aeroportos, creio que eles não têm presidentes, portanto é melhor ficar calmo, não discutir, não ameaçar sair do ônibus. Afinal, são apenas 45 minutos de viagem, não é verdade?
Claro que não é verdade: hoje foram quase cinco horas para que estes 45 minutos fossem possíveis. Mas, descontando tudo isso – e temos que descontar – no fundo viajar de avião é maravilhoso, e...
Gentilmente me pedem de novo que desligue o computador. Eu sorrio, peço desculpas, vou desligar agora. Espero que consigam um lugar nas passarelas.  Outro ônibus hoje iria estragar o dia.    

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O sineiro do interior


llAlmir Ghiaronni, um leitor assíduo desta coluna, envia uma interessante história, e faz a ressalva de que não conhece o autor da mesma. “O sineiro do interior me faz lembrar de várias coisas que aconteceram em minha vida e que na época encarei como derrotas  – mas que no decorrer dos anos se transformaram em verdadeiras bênçãos.” 
Dou um exemplo concreto: quando o “Alquimista” foi oferecido aos grandes grupos editoriais da França, nenhum se interessou. Uma pequena editora, que acabara de abrir suas portas, resolveu assinar o contrato com o tal autor brasileiro desconhecido, colocar todos os seus esforços para distribuí-lo bem – e o livro se transformaria em uma das melhores vendas de todos os tempos no mercado francês, batendo o recorde de permanência nas listas de mais vendidos do país. 
Hoje, conhecendo melhor o mercado internacional, tenho certeza que se tivesse sido publicado por um destes grandes conglomerados, minhas chances seriam quase nulas, já que estaria concorrendo com outros grandes e renomados autores em seus catálogos. Mas fui publicado por um editor iniciante, entusiasmado (no caso uma editora, Anne Carriere, que mais tarde escreveu um livro a este respeito), e isso fez toda a diferença.  
E é mais ou menos sobre isso que se trata a história enviada por Almir:
Um homem humilde, sem qualquer instrução, trabalhava na igreja em uma pequena cidade no interior do Brasil. Sua tarefa se resumia a tocar os sinos nos horários determinados pelo padre. 
Mas as leis mudaram: o bispo da região resolveu exigir que todos os funcionários das paróquias submetidas ao seu controle tivessem no mínimo o curso primário. Pensava desta maneira estar estimulando a educação pública; mas para o velho sineiro, que era analfabeto e velho demais para começar tudo de novo, aquilo foi o fim do seu trabalho.
 Recebeu uma pequena indenização, os agradecimentos de sempre, e uma carta dando por terminadas suas atividades na igreja. 
Na manhã seguinte, como não tinha nada a fazer, sentou-se no banco da praça para preparar seu cigarro de palha – e notou que o tabaco estava no final. Pediu um pouco emprestado dos amigos aposentados que se encontravam por ali, mas todos estavam com o mesmo problema: era preciso ir até a cidade vizinha comprar mais fumo. 
“Você tem tempo de sobra” - disse um dos amigos. “Pode ir comprá-los, e nós lhe pagaremos uma comissão”.
O ex-sineiro passou a fazer isso regularmente, mas  com o tempo viu que faltavam muitas outras coisas em sua pequena cidade, e começou a trazer isqueiros, jornais, até que foi obrigado a montar uma loja, já que lhe encomendavam cada vez mais coisas.  
Como era um homem de bem, interessado na satisfação dos seus clientes, a loja prosperou, ele ampliou seus negócios, e terminou se transformando em um dos mais respeitados empreendedores da região. 
Mas lidava com muito dinheiro, e um belo dia foi necessário abrir uma conta bancária.  
O gerente recebeu-o de braços abertos, o velho retirou um saco repleto  de notas de alto valor, sua ficha foi preenchida, e no final pediram sua assinatura.
- Desculpe – disse ele. – Mas não sei escrever. 
O gerente ficou muito espantado: 
- Então o senhor conseguiu tudo isso sendo analfabeto?
- Consegui com esforço e dedicação. 
- Meus parabéns! E tudo sem frequentar o colégio!  Imagine o que seria de sua vida se tivesse conseguido estudar!
O velho sorriu:
- Posso imaginar muito bem. Se eu tivesse estudado, ainda estaria tocando sinos naquela pequena igreja que o senhor pode ver de sua janela.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um tradicional conto sufi


llHá muitos anos, numa pobre aldeia chinesa, vivia um lavrador com seu filho. Seu único bem material, além da terra e da pequena casa de palha, era um cavalo que havia sido herdado de seu pai. 
Um belo dia, o cavalo fugiu, deixando o homem sem o animal para lavrar a terra. Seus vizinhos – que o respeitavam muito por sua honestidade e diligência – vieram até sua casa para dizer o quanto lamentavam o ocorrido. Ele agradeceu a visita, mas perguntou: 
- Como vocês podem saber que o que ocorreu foi uma desgraça na minha vida? 
Alguém comentou baixinho com um amigo: “ele não quer aceitar a realidade, deixemos que pense o que quiser, desde que não se entristeça com o ocorrido”. 
E os vizinhos foram embora, fingindo concordar com o que haviam escutado. 
Uma semana depois, o cavalo retornou ao estábulo, mas não vinha sozinho; trazia uma bela égua como companhia. Ao saber disso, os habitantes da aldeia – alvoroçados, porque só agora entendiam a resposta que o homem lhes havia dado – retornaram à casa do lavrador, para cumprimentá-lo pela sua sorte.
- Você antes tinha apenas um cavalo, e agora possui dois. Parabéns! – disseram. 
- Muito obrigado pela visita e pela solidariedade de vocês – respondeu o lavrador. 
– Mas como vocês podem saber que o que ocorreu é uma benção na minha vida?
Desconcertados, e achando que o homem estava ficando louco, os vizinhos foram embora, comentando no caminho “será que este homem não entende que Deus lhe enviou um presente? “
Passado um mês, o filho do lavrador resolveu domesticar a égua. Mas o animal saltou de maneira inesperada, e o rapaz caiu de mau jeito – quebrando uma perna. 
Os vizinhos retornaram à casa do lavrador – levando presentes para o moço ferido. O prefeito da aldeia, solenemente, apresentou as condolências ao pai, dizendo que todos estavam muito tristes com o que tinha acontecido.
O homem agradeceu a visita e o carinho de todos. Mas perguntou:
- Como vocês podem saber se o que ocorreu foi uma desgraça na minha vida?
Esta frase deixou a todos estupefatos, pois ninguém pode ter a menor dúvida que um acidente com um filho é uma verdadeira tragédia. Ao saírem da casa do lavrador, diziam uns aos outros: “o homem enlouqueceu mesmo; seu único filho pode ficar coxo para sempre, e ele ainda tem dúvidas se o que ocorreu é uma desgraça”.
Alguns meses transcorreram, e o Japão declarou guerra contra a China. Os emissários do imperador percorreram todo o país, em busca de jovens saudáveis para serem enviados à frente de batalha. Ao chegarem na aldeia, recrutaram todos os rapazes, exceto o filho do lavrador, que estava com uma perna quebrada.
Nenhum dos rapazes retornou vivo. O filho se recuperou, os dois animais deram crias que foram vendidas e renderam um bom dinheiro. O lavrador passou a visitar seus vizinhos para consolá-los e ajudá-los – já que tinham se mostrados solidários com ele em todos os momentos. 
Sempre que algum deles se queixava, o lavrador dizia: “como sabe se isso é uma desgraça?” Se alguém se alegrava muito, ele perguntava: “Como sabe se isso é uma benção?” E os homens daquela aldeia entenderam que, além das aparências, a vida tem outros significados.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sobre os reis e seus sábios


llO reino deste mundo
Um velho ermitão foi certa vez convidado para ir até a corte do rei mais poderoso daquela época.
- Eu invejo um homem santo, que se contenta com tão pouco – comentou o soberano. 
 - Eu invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos que eu - respondeu o ermitão.
- Como você me diz isto, se todo este país me pertence? - disse o rei, ofendido.
- Justamente por isso. Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a lua e o sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém, tem apenas este reino.

llOs ossos do ancestral
Havia um rei da Espanha que se orgulhava muito de seus ancestrais, e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos. 
Certa vez, caminhava com sua comitiva por um campo de Aragón, onde - anos antes - havia perdido seu pai em uma batalha, quando encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.
- O que você está fazendo aí? - perguntou o rei.
- Honrada seja Vossa Majestade - disse o homem santo.  
- Quando soube que o rei da Espanha vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos. Entretanto, por mais que procure, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos.

llChame outro tipo de médico
Um poderoso monarca chamou um santo padre - que todos diziam ter poderes curativos - para ajudá-lo com as dores na coluna.
- Deus nos ajudará -  disse o homem santo.  
- Mas antes vamos entender a razão destas dores. Sugiro que Sua Majestade se confesse agora, pois a confissão faz o homem enfrentar seus problemas, e o liberta de muitas culpas.
Aborrecido por ter que pensar em tantos problemas, o rei disse:
- Não quero falar destes assuntos; preciso de alguém que cure sem fazer perguntas.
O sacerdote  saiu e voltou meia-hora depois com outro homem.
- Eu acredito que a palavra pode aliviar a dor, e me ajudar a descobrir o caminho certo para a cura - disse. - Entretanto, o senhor não deseja conversar, e não posso ajudá-lo. Mas eis aqui quem o senhor precisa: meu amigo é veterinário, e não costuma conversar com seus pacientes.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A importância do gato na meditação


llTendo escrito um livro sobre a loucura, vi-me obrigado a perguntar o quanto das coisas que fazemos nos foi imposta por necessidade, ou por absurdo. Por que usamos gravata? Por que o relógio gira no “sentido horário?” Se vivemos num sistema decimal, porque o dia tem 24 horas de 60 minutos cada? 
O fato é que, muitas das regras que obedecemos hoje em dia não têm nenhum fundamento. Mesmo assim, se desejemos agir diferente, somos considerados “loucos” ou “imaturos”.
Enquanto isso, a sociedade vai criando alguns sistemas que, no decorrer do tempo, perdem a razão de ser, mas continuam impondo suas regras. Uma interessante história japonesa ilustra o que quero dizer:
Um grande mestre zen budista, responsável pelo mosteiro de Mayu Kagi,  tinha um gato, que era sua verdadeira paixão na vida. Assim, durante as aulas de meditação, mantinha o gato ao seu lado – para desfrutar o mais possível de sua companhia. 
Certa manhã, o mestre – que já estava bastante velho – apareceu morto. O discípulo mais graduado ocupou seu lugar. 
- O que vamos fazer com o gato? – perguntaram os outros monges.
Numa homenagem à lembrança de seu antigo instrutor, o novo mestre decidiu permitir que o gato continuasse frequentando as aulas de zen-budismo. 
Alguns discípulos de mosteiros vizinhos, que viajavam muito pela região, descobriram que, num dos mais afamados templos do local, um gato participava das meditações. A história começou a correr.
Muitos anos se passaram. O gato morreu, mas os alunos do mosteiro estavam tão acostumados com a sua presença, que arranjaram outro gato. Enquanto isso, os outros templos começaram a introduzir gatos em suas meditações: acreditavam que o gato era o verdadeiro responsável pela fama e a qualidade do ensino de Mayu Kagi, e esqueciam que o antigo mestre era um excelente instrutor.
Uma geração se passou, e começaram a surgir tratados técnicos sobre a importância do gato na meditação zen. Um professor universitário desenvolveu uma tese – aceita pela comunidade acadêmica – que o felino tinha capacidade de aumentar a concentração humana, e eliminar as energias negativas. 
E assim, durante um século, o gato foi considerado como parte essencial no estudo do zen-budismo naquela região.
Até que apareceu um mestre que tinha alergia à pelos de animais domésticos, e resolveu tirar o gato de suas práticas diárias com os alunos. 
Houve uma grande reação negativa – mas o mestre insistiu. Como era um excelente instrutor,  os alunos continuavam com o mesmo rendimento escolar, apesar da ausência do gato. 
Pouco a pouco, os mosteiros – sempre em busca de idéias novas, e já cansados de ter que alimentar tantos gatos – foram eliminando os animais das aulas. Em vinte anos, começaram a surgir novas teses revolucionárias – com títulos convincentes como “A importância da meditação sem o gato”, ou “Equilibrando o universo zen apenas pelo poder da mente, sem a ajuda de animais”. 
Mais um século se passou, e o gato saiu por completo do ritual de meditação zen naquela região. Mas foram precisos duzentos anos para que tudo voltasse ao normal – já que ninguém se perguntou, durante todo este tempo, por que o gato estava ali.
E quantos de nós, em nossas vidas, ousa perguntar: por que tenho que agir desta maneira? Até que ponto, naquilo que fazemos, estamos usando “gatos” inúteis, que não temos coragem de eliminar, porque nos disseram que os “gatos” eram importantes para que tudo funcionasse bem?
Por que  não buscamos uma maneira diferente de agir?