quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Quatro histórias da Cristandade

llNo caminho de cada um
O pastor Olivier era considerado o mais inspirado pregador das redondezas. Falava como se tivesse contato com Deus. 
“Nada pior do que tentar repetir o comportamento dos grandes, se você não tiver a mesma disposição para agir  que eles tiveram”, dizia Olivier. 
Quando morreu, seu filho Andrew ocupou o lugar. Os paroquianos ficaram preocupados; seria difícil suceder um  homem tão conectado com Deus. E, querendo dar um pouco de apoio moral ao jovem, uma mulher tentou consolá-lo.
“Lembre-se que você deve seguir seu próprio  caminho”, disse ela. “Jamais tente ser igual ao seu pai”.
“Ao contrário; eu sou exatamente como meu pai”,  respondeu Andrew. “Ele nunca tentou me imitar; por causa disso, eu jamais tentarei imitá-lo”.
E os paroquianos tiveram certeza de que estavam diante de um grande pregador.

llTambém estou lá fora
Na parábola do Filho Pródigo, o irmão que sempre  obedeceu ao pai fica indignado ao ver que o filho rebelde é  recebido com festa e alegria. Da mesma maneira, muitas pessoas obedientes à palavra do Senhor, terminam se transformando em carrascos impiedosos daqueles que algum dia se afastaram da Lei.  
Na pequena cidade do interior, um conhecido pecador foi impedido de entrar na igreja.
 Indignado, começou a rezar: 
“Jesus, me escuta. Não querem me deixar entrar em sua casa, porque acham que não sou digno”.
“Não se preocupe, meu filho”, respondeu Jesus. “Eu também estou do lado de fora, junto com aqueles com quem sempre estive – os pecadores como você”. 

llSeguindo o impulso
O padre Zeca, da Igreja da Ressurreição em Copacabana, conta que certa vez estava em um ônibus, quando  de repente escutou uma voz dizendo que ele devia levantar-se  e pregar a palavra de Cristo ali mesmo. 
Padre Zeca começou a conversar com a voz: “vão me achar ridículo, isto não é lugar para sermão”, disse.
 Mas algo dentro dele insistia, era preciso falar. “Sou tímido, por favor, não me peça isto”, implorou.  
O  impulso interior persistia. 
Então ele lembrou-se de sua promessa - abandonar-se a todos os desígnios de Cristo. Levantou-se, morrendo de vergonha, e começou a falar do Evangelho. Todos escutaram em silêncio. Ele olhava cada passageiro, e eram raros os que desviavam os olhos.  
Disse tudo que sentia, terminou seu sermão, e sentou-se de novo. Até hoje não sabe que tarefa cumpriu naquele momento; mas tem absoluta certeza de que cumpriu uma tarefa. 

llDo apostolado
Do monge Thomas Merton, no livro “Obra Aberta”:
“O verdadeiro apóstolo não se preocupa em pregar uma doutrina, liderar um movimento, recrutar homens para uma organização; ele apenas fala de Deus, e o resto vem por acréscimo”.
“O apóstolo não tem ambições de converter ninguém,  não quer usar fórmulas já gastas, não tenta vender o que não  tem preço, não se glorifica, não se desculpa. Ele está pregando apenas por amor. Esta é sua forma de expandir o êxtase que sente na presença de Cristo”.  
“Um apóstolo possui uma fé tão profunda, que mesmo que ninguém acreditasse, ele continuaria pregando”.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A história de Buda - I

llSidarta – cujo nome significa “aquele cujo objetivo é atingido” - nasceu em uma família nobre, por volta do ano 560 A . C. ,na cidade de Kapilavastu, no Nepal. 
Conta a lenda que, no momento em que sua mãe fazia amor com seu pai, ela teve uma visão: seis elefantes, cada um com uma flor de lótus nas costas, caminhavam em sua direção. No instante seguinte, Sidarta era concebido.
Durante sua gestação, a rainha Maya, sua mãe, resolveu chamar os sábios de seu reino para interpretar a visão que tivera, e eles foram unânimes em afirmar: a criança que estava para vir ao mundo seria um grande rei ou um grande sacerdote. 
Sidarta teve uma infância e uma adolescência muito semelhante à nossa: seus pais não queriam, de jeito nenhum, que ele tomasse conhecimento da miséria do mundo. Assim, vivia confinado entre os muros do gigantesco palácio onde seus pais habitavam, e onde tudo parecia perfeito e harmonioso. Casou, teve um filho, e conhecia apenas os prazeres e as delícias da vida. 
Entretanto, quando completou 29 anos, pediu certa noite a um dos guardas que o levasse até a cidade. O guarda reclamou, já que o rei podia ficar furioso, mas Sidarta foi tão insistente que o homem terminou por ceder, e os dois saíram. 
A primeira coisa que viram foi um velho mendigo, de olhar triste, pedindo esmolas. Mais adiante, encontrou um grupo de leprosos, e logo em seguida, um cortejo fúnebre passou. “Nunca tinha visto isso!”, deve ter comentado com o guarda, que possivelmente replicou: “Pois trata-se de velhice, doença, e morte.” Voltando para o palácio, cruzaram com um homem santo, de cabeça raspada e vestido apenas com um manto amarelo, que dizia: “ a vida me aterroriza, então renunciei a tudo, de modo que não precise encarnar-me novamente e sofrer mais uma vez a velhice, a doença e a morte”. 
Na noite seguinte, Sidarta esperou que a mulher e o filho dormissem. Entrou silenciosamente no quarto, beijou-os, e pediu de novo ao guarda que o conduzisse fora do palácio; ali, entregou-lhe sua espada com o punho cheio de pedras preciosas, sua roupa feita do tecido mais fino que a mão humana podia tecer, pedindo para que devolvesse tudo a seu pai; em seguida, raspou a cabeça, cobriu o corpo com um manto amarelo, e partiu em busca de uma resposta para as dores do mundo. 
Por muitos anos vagou pelo norte da Índia, encontrando-se com monges e homens santos que caminhavam por ali, e aprendendo as tradições orais que falavam de reencarnação, ilusão, e pagamento dos pecados de vidas passadas (carma). Quando julgou que já tinha aprendido o bastante, construiu para si mesmo um abrigo na margem do Rio Nairanjana, onde vivia fazendo penitência e meditando. 
Seu estilo de vida e sua força de vontade terminaram atraindo a atenção de outros homens em busca da verdade, que vieram ao seu encontro em busca de conselhos espirituais. Mas, depois de seis longos anos, tudo que Sidarta podia perceber era que seu corpo estava cada vez mais fraco, e as constantes infecções não lhe permitiam meditar como devia. 
Conta a lenda que, certa manhã, ao entrar no rio para fazer sua higiene pessoal, já não teve forças para levantar-se; quando ia morrendo afogado, uma árvore curvou seus ramos, permitindo que ele se agarrasse, e não fosse levado pela correnteza. Exausto, conseguiu chegar até a margem, onde desmaiou. 
Horas depois, passou pelo local um camponês que vendia leite, e ofereceu-lhe um pouco de alimento; Sidarta aceitou, para horror dos outros homens que ali viviam com ele. Achando que aquele santo não tinha conseguido mais forças para resistir à tentação, resolveram deixá-lo de imediato. Mas ele bebeu de bom grado o leite que lhe era oferecido, achando que ali estava um sinal de Deus e uma benção dos céus. 

(termina na próxima semana)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Duas histórias reais

O velho que atrapalhava tudo
G.I. Gurdjeff foi uma das mais intrigantes personalidades deste século. Bastante conhecido nos círculos que estudam ocultismo, é ainda ignorado como um importante estudioso da psicologia humana. 
A história a seguir passa-se quando ele, já morando em Paris, criou seu famoso Instituto para o desenvolvimento do homem. 
As aulas eram sempre bem concorridas. Mas entre os alunos, havia um velho – sempre de mau humor – que não parava de criticar o que ali era ensinado. Dizia que Gurdjeff era um charlatão, seus métodos não tinham qualquer base científica, e o fato de considerar-se um “mago” nada tinha a ver com sua verdadeira condição. Os alunos sentiam-se importunados pela presença daquele velho, mas Gurdjeff parecia não se importar. 
Um belo dia, ele abandonou o grupo. Todos se sentiram aliviados, achando que dali por diante as aulas seriam mais tranquilas e produtivas. Para surpresa dos alunos, porém, Gurdjeff foi até a casa do homem, e pediu para que voltasse a frequentar o Instituto. 
O velho recusou-se no início, e só aceitou quando lhe foi oferecido um salário para assistir as aulas. 
A história logo se espalhou. Os estudantes, revoltados, queriam saber como um mestre podia recompensar alguém que não tinha aprendido coisa alguma. 
- Na verdade, eu o estou pagando para que continue a dar suas aulas – foi a resposta. 
- Como? – insistiram os alunos. – Tudo que ele faz vai totalmente contra aquilo que o senhor nos está ensinando!
- Exatamente – comentou Gurdjeff. – Sem ele por perto, vocês custariam muito a aprender o que é raiva, intolerância, impaciência, falta de compaixão. 
“Entretanto, com este velho servindo de exemplo vivo, mostrando que tais sentimentos tornam a vida de qualquer comunidade um inferno, o aprendizado é muito mais rápido”. 
“Vocês me pagam para aprender a viver em harmonia, e eu contratei este homem para ajudar a ensiná-los – pelo caminho oposto”.

Como atingir a imortalidade
Ainda  jovem,  Beethoven resolveu  escrever  alguns  improvisos sobre músicas de Pergolesi. Dedicou-se durante meses ao trabalho, e finalmente teve coragem de divulgá-lo.
Um crítico publicou uma página inteira num jornal alemão, atacando com ferocidade a música do compositor. 
Beethoven, porém, não se abalou com os comentários. Quando seus amigos insistiram para que respondesse ao crítico, ele apenas comentou:
- O que preciso fazer é continuar meu trabalho. Se a música que componho for tão boa como penso, ela irá sobreviver ao jornalista. Se tiver a profundidade que espero que tenha, ela irá sobreviver ao próprio jornal. Então, se este ataque feroz ao que faço for lembrado no futuro, será apenas para ser usado como exemplo da imbecilidade dos críticos. 
Beethoven estava certíssimo. Mais de cem anos depois, a tal crítica foi lembrada num programa de rádio em São Paulo. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pequeno sítio e a vaca

Existem certas histórias que circulam pela Internet de uma maneira quase obsessiva. Eu mesmo já recebi várias vezes, coisas que escrevi neste espaço. Um interessante intercâmbio tem se estabelecido entre os leitores e a coluna, e isso só enriquece o meu trabalho. 
A seguinte história merece ser recontada:
Um filósofo passeava por uma floresta com um discípulo, conversando sobre a importância dos encontros inesperados. Segundo o mestre, tudo que está diante de nós nos dá uma chance de aprender ou ensinar. 
Neste momento, cruzavam a porteira de um sítio que, embora muito bem localizado, tinha uma aparência miserável. 
- Veja este lugar – comentou o discípulo. – O senhor tem razão: acabo de aprender que muita gente está no Paraíso mas não se dá conta, e continua a viver em condições miseráveis. 
- Eu disse aprender e ensinar – retrucou o mestre. – Constatar o que acontece não basta: é preciso verificar as causas, pois só entendemos o mundo quando entendemos as causas. 
Bateram à porta, e foram recebidos pelos moradores: um casal e três filhos, com as roupas rasgadas e sujas. 
- O senhor está no meio desta floresta, e não há qualquer comércio nas redondezas – disse o mestre para o pai de família. – Como sobrevivem aqui?
 E o senhor, calmamente,  respondeu: 
 -  Meu amigo, nós temos uma vaquinha que nos dá vários litros de leite todos os dias. Uma parte desse produto nós vendemos ou trocamos na cidade vizinha por outros gêneros de alimentos; com a outra parte nós produzimos queijo, coalhada, manteiga para o nosso consumo. E assim vamos sobrevivendo. 
 O filósofo agradeceu a informação, contemplou o lugar por uns momentos, e foi embora. No meio do caminho, disse ao discípulo: 
 - Pegue a vaquinha, leve-a ao precipício ali em frente, e jogue-a lá em baixo.
- Mas ela é a única forma de sustento daquela família!
O filósofo permaneceu mudo. Sem ter outra alternativa, o rapaz fez o que lhe era pedido, e a vaca morreu na queda.
A cena ficou marcada em sua memória. Depois de muitos anos, quando já era um empresário bem sucedido, resolveu voltar ao mesmo lugar, contar tudo à família, pedir perdão, e ajudá-los financeiramente. 
Qual foi sua surpresa ao ver o local transformado num belo sitio, com árvores floridas, carro na garagem,  e algumas crianças brincando no jardim. Ficou desesperado, imaginando que a família humilde tivera que vender o sítio para sobreviver. 
Apertou o passo, e foi recebido por um caseiro muito simpático.
- Para onde foi a família que vivia aqui há dez anos? – perguntou. 
- Continuam donos do sitio – foi a resposta. 
 Espantado, ele entrou correndo na casa, e o senhor o reconheceu. Perguntou como estava o filósofo, mas o rapaz estava ansioso demais para saber como conseguira melhorar o sítio, e ficar tão bem de vida:
- Bem, nós tínhamos uma vaca, mas ela caiu no precipício e morreu – disse o senhor. – Então, para sustentar minha família, tive que plantar ervas e legumes. As plantas demoravam a crescer, e comecei a cortar madeira para venda. Ao fazer isto, tive que replantar as árvores, e necessitei comprar mudas. Ao comprar mudas, lembrei-me da roupa ade meus filhos, e pensei que podia talvez cultivar algodão. Passei um ano difícil, mas quando a colheita chegou, eu já estava exportando legumes, algodão, ervas aromáticas. 
Nunca havia me dado conta de todo o meu potencial aqui: ainda bem que aquela vaquinha morreu!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Final: Manuel vai ao Paraíso

llNas duas colunas anteriores, analisei a vida de Manuel, sempre ocupado, achando que trabalhar – seja no que for – dá um sentido a vida, e jamais se perguntando qual é este sentido. 
Mais tarde, Manuel se aposenta. Desfruta um pouco a liberdade de não ter hora para acordar, e poder usar seu tempo para fazer o que quiser. Mas logo cai em depressão: sente-se inútil, afastado da sociedade que ajudou a construir, abandonado pelos filhos que cresceram, incapazes de entender o sentido da vida – já que jamais se preocupou em responder à famosa pergunta: “O que estou fazendo aqui?”
Bem, nosso querido, honesto, dedicado Manuel, termina morrendo um dia – o que irá acontecer com todos os Manuéis, Paulos, Marias, Monicas da vida. E neste caso, eu deixo a palavra a Henry Drummond, em seu brilhante livro “O Dom Supremo”, para descrever o que se passa daí por diante:

Todos nós, em algum momento, já fizemos a mesma pergunta que todas as gerações fizeram:
Qual é a coisa mais importante da nossa existência?
Queremos empregar nossos dias da melhor maneira, pois ninguém mais pode viver pela gente. Então, precisamos saber: para onde devemos dirigir nossos esforços, qual o supremo objetivo a ser alcançado?
Estamos acostumados a escutar que o tesouro mais importante do mundo espiritual é a Fé. Nesta simples palavra se apóiam muitos séculos de religião.
Consideramos a Fé a coisa mais importante do mundo? Pois bem, estamos completamente errados.
Em sua epistola aos Corintios, capitulo XIII, (São) Paulo nos conduz aos primeiros tempos do Cristianismo. E termina dizendo: “permanecem a Fé, a Esperança, e o Amor, estes três. Porém, o mais importante é o Amor”.
Não se trata de uma opinião superficial de (São) Paulo, autor destas frases. Afinal de contas, ele estava falando de Fé um momento antes, na mesma carta. Ele dizia:
“Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver Amor, nada serei”.
Paulo não fugiu do assunto; pelo contrário, comparou a Fé com o Amor. E concluiu:
“(...) o maior destes é o Amor”.
Mateus nos dá uma descrição clássica do Juízo Final: o Filho do Homem senta-se em um trono, e separa, como um pastor, os cabritos das ovelhas.
Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?”
Será, isto sim: “Como amei?”
O  teste final de toda busca da Salvação, será o Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.
Nada disso nos será cobrado. O que nos será cobrado: nossa maneira de amar o próximo.
Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Seremos julgados pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão, de que Seu Filho morreu inutilmente.

Neste caso, nosso Manuel é salvo no momento de sua morte, porque apesar de jamais ter dado um sentido à sua vida, foi capaz de amar, prover a sua família, e ter dignidade naquilo que fazia. Entretanto, mesmo que o final seja feliz, o resto de seus dias na terra foi muito complicado. 
Repetindo uma frase que escutei de Shimon Peres no Fórum Mundial de Davos: “tanto o otimista como o pessimista terminam  morrendo. Mas os dois aproveitaram a vida de maneira completamente distinta”. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Segundo capítulo: Manuel é um homem livre

llManuel trabalha 30 anos sem parar, educa seus filhos, dá bom exemplo, dedica-se o tempo inteiro ao trabalho, e jamais pergunta: “será que tem sentido o que estou fazendo?” Sua única preocupação é achar que, quanto mais ocupado estiver, mais importante será aos olhos da sociedade. 
Seus filhos crescem e saem de casa, é promovido no trabalho, um dia em que ganha um relógio ou uma caneta como recompensa por todos estes anos de dedicação, os amigos vertem algumas lágrimas, e chega o momento tão esperado: está aposentado, livre para fazer o que quiser! Nos primeiros meses, ele visita uma vez por outra o escritório onde trabalhou, conversa com os antigos amigos, e dá-se ao prazer de fazer algo que sempre sonhou: acordar mais tarde. Passeia na praia ou na cidade, tem sua casa de campo comprada com muito suor, descobriu a jardinagem, e vai aos poucos penetrando no mistério das plantas e das flores. Manuel tem tempo, todo o tempo do mundo. Viaja usando parte do dinheiro que conseguiu juntar. Visita museus, aprende em duas horas o que pintores e escultores de diferentes épocas levaram séculos para desenvolver, mas pelo menos fica com a sensação de que está aumentando sua cultura. Tira muitas centenas, milhares de fotos, e manda para os amigos – afinal, eles precisam saber o quanto é feliz! 
Outros meses se passam. Manuel aprende que o jardim não segue exatamente as mesmas regras que o homem – o que plantou vai demorar a crescer, e não adianta tentar ver se a roseira já tem botões. Em um momento de sincera reflexão, descobre que tudo que viu em suas viagens foi uma paisagem do lado de fora do ônibus de turismo, monumentos que agora estão guardados em fotos 6x9, mas na verdade não conseguiu sentir nenhuma emoção especial – estava mais  preocupado em contar para os amigos do que viver a experiência mágica de estar em um país estrangeiro. 
Continua assistindo a todos os noticiários de televisão, lê mais jornais (porque tem mais tempo), julga-se uma pessoa extremamente bem informada, capaz de discutir coisas que antes não tinha tempo para estudar. 
Procura alguém para dividir suas opiniões – mas todos estão imersos no rio da vida, trabalhando, fazendo alguma coisa, invejando Manuel por sua liberdade, e ao mesmo tempo contentes por serem úteis a sociedade, e estarem “ocupados” com alguma coisa importante. 
Manuel busca conforto nos filhos. Estes sempre o tratam com muito carinho – foi um excelente pai, um exemplo de honestidade e dedicação – mas também eles têm outras preocupações, embora considerem um dever participar do almoço de domingo. 
Manuel é um homem livre, com uma situação financeira razoável, bem informado, um passado impecável, mas e agora? O que fazer desta liberdade tão arduamente conquistada? Todos o cumprimentam, o elogiam, mas ninguém tem tempo para ele. Pouco a pouco, Manuel começa a sentir-se triste, inútil – apesar dos muitos anos servindo ao mundo e à sua família. 
Certa noite, um anjo aparece em seu sonho: “o que você fez da sua vida? Você procurou vivê-la de acordo com seus sonhos?”
Manuel acorda suando frio. Que sonhos? Seu sonho era esse: ter um diploma, casar, ter filhos, educá-los, aposentar-se, viajar. Por que o anjo fica perguntando coisas sem sentido? 
Um novo e longo dia começa: os jornais, o noticiário na TV, o jardim e o almoço. Dormir um pouco, fazer o que tem vontade e, neste momento, descobre que não tem vontade de fazer nada. Manuel é um homem livre e triste, a um passo da depressão, porque estava ocupado demais para pensar no sentido da sua vida, enquanto os anos corriam por debaixo da ponte. Lembra-se dos versos de um poeta: “passou pela vida/não viveu”. 
Mas  como é tarde demais para aceitar isso, melhor mudar de assunto. A liberdade, tão duramente conseguida, não passa de um exílio disfarçado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Manuel é um homem importante e necessário

llManuel precisa estar ocupado. Caso contrário, acha que sua vida não tem sentido, está perdendo seu tempo, a sociedade não precisa dele, ninguém o ama, ninguém o quer. 
Portanto, assim que acorda, tem uma série de tarefas: assistir o noticiário na televisão (pode ter acontecido alguma coisa durante a noite), ler o jornal (pode ter acontecido alguma coisa durante o dia de ontem), pedir à mulher que não deixe as crianças se atrasarem para a escola, pegar um carro, um táxi, um ônibus, um metrô, mas sempre concentrado, olhando o vazio, olhando o relógio, se possível dando alguns telefonemas em seu celular – e fazendo questão que todos vejam que é um homem importante, útil para o mundo. 
Manuel chega no trabalho, debruça-se sobre a papelada que o espera. Se for um funcionário, faz o possível para que  chefe veja que chegou na hora. Se for patrão, coloca todos para trabalhar imediatamente; caso não existam tarefas importantes, Manuel irá desenvolvê-las, cria-las, implementar um novo plano, estabelecer novas linhas de ação. 
Manuel vai almoçar – mas jamais sozinho. Se for patrão, senta-se com os amigos, discute novas estratégias, fala mal dos concorrentes, sempre tem uma carta escondida na manga, queixa-se (com um certo orgulho) da sobrecarga de trabalho. Se Manuel for funcionário, também senta-se com os amigos, queixa-se do chefe, diz que está fazendo muita hora extra, afirma com desespero (e com muito orgulho) que várias coisas na empresa dependem dele. 
Manuel – patrão ou empregado – trabalha a tarde inteira. De vez em quando olha o relógio, está chegando a hora de voltar para casa, mas falta resolver um detalhe aqui, assinar um documento ali. É um homem honesto, quer fazer jus ao seu salário, às expectativas dos outros, aos sonhos de seus pais, que tanto se esforçaram para lhe dar educação necessária. 
Finalmente volta para casa. Toma banho, coloca uma roupa mais confortável, vai jantar com a família. Pergunta pelos deveres dos filhos, as atividades da mulher. De vez em quando fala do seu trabalho, apenas para servir de exemplo – porque não costuma trazer preocupações para casa. O jantar termina, os filhos – que não estão nem aí para exemplos, deveres, ou coisas similares – saem logo da mesa e vão para frente do computador. Manuel, por sua vez, vai também sentar-se diante daquele velho aparelho de sua infância, chamado televisão. De  novo vê os noticiários (pode ter acontecido alguma coisa de tarde) 
Vai deitar-se sempre com um livro técnico na mesa de cabeceira – sendo patrão ou empregado, sabe que a concorrência é grande, e quem não se atualiza, corre o risco de perder o emprego e ter que enfrentar a pior das maldiçoes: ficar desocupado. 
Conversa alguma coisa com sua mulher – afinal, é um homem gentil, trabalhador, amoroso,  que cuida de sua família e está pronto para defendê-la em qualquer circunstância. O sono vem logo, Manuel dorme, sabendo que no dia seguinte estará muito ocupado, e é preciso recuperar as energias. 
Naquela noite, Manuel tem um sonho. Um anjo lhe pergunta: “por que você faz isso?” Ele responde que é um homem responsável. 
O anjo continua: “você seria capaz de, pelo menos durante quinze minutos do seu dia, parar um pouco, olhar o mundo, olhar você mesmo, e simplesmente não fazer nada?” Manuel diz que adoraria, mas não tem tempo para isso. “Você está me enganando”, diz o anjo. “Todo mundo tem tempo para isso, o que falta é coragem. Trabalhar é uma benção quando isso nos ajuda a pensar no que estamos fazendo. Mas torna-se uma maldição quando sua única utilidade é evitar que pensemos no sentido de nossa vida”.
Manuel acorda no meio da noite, suando frio. Coragem? Como é que um homem que se sacrifica pelos seus, não tem coragem de parar quinze minutos? 
É melhor dormir de novo, tudo não passa de um sonho, estas perguntas não levam a nada, e amanhã vai estar muito, muito ocupado.