quinta-feira, 8 de março de 2012

Histórias sobre a verdadeira humildade

Uma coisa deve estar bem clara para todos nós; não podemos confundir humildade com falsa modéstia ou com servilismo. Como diz Castaneda, um guerreiro não abaixa a cabeça para ninguém, mas tampouco deixa que alguém se humilhe diante dele. A seguir, algumas histórias sobre o lado positivo da humildade:

A pedra que falta
Um dos grandes monumentos da cidade de Kyoto é um jardim zen, uma superfície de areia com quinze rochas. 
O jardim original tinha dezesseis rochas. Conta a lenda que, assim que o jardineiro terminou sua obra, chamou o imperador para contemplá-la.
Magnífico - disse o imperador. -  É o mais lindo do Japão. E esta é a mais bela rocha do jardim.
Imediatamente o jardineiro tirou do jardim a pedra que o imperador tanto apreciara, e jogou-a fora. 
- Agora o jardim está perfeito – disse para o imperador. – Não existe nada que se sobressaia, e ele pode ser visto em toda a sua harmonia. 
"Um jardim, como a vida, precisa ser visto na sua totalidade. Se nos detivermos na beleza de um detalhe, todo o resto parecerá feio."
O céu e o inferno
Um samurai violento, com fama de provocar briga sem motivo, chegou as portas do mosteiro zen e pediu para falar com o mestre. 
Sem titubear, Ryokan foi ao seu encontro.
 - Dizem que a inteligência é mais poderosa que a força -  comentou o samurai.  -  Será que o senhor consegue me explicar o que é céu e inferno?
Riokan ficou calado. 
- Viu? – bradou o samurai. – Eu conseguiria explicar isso com muita facilidade: para mostrar o que é inferno, basta dar uma surra em alguém. Para mostrar o que é céu, basta deixar uma pessoa fugir, depois de ameaçá-la muito. 
- Não discuto com gente estúpida como você – comentou o mestre zen. 
O sangue do samurai subiu a cabeça. Sua mente ficou turva de ódio.
- Isto é inferno -  disse Ryokan, sorrindo. – Deixar-se provocar por bobagens. 
O guerreiro ficou desconcertado com a coragem do monge, e relaxou.
- Isso é o céu – terminou Ryokan, convidando-o para entrar. – Não aceitar provocações bobas.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A tempestade se aproxima

Sei que vem uma tempestade porque posso olhar à distância, ver o que está acontecendo no horizonte. Claro, a luz ajuda um pouco – é o final do entardecer, o que reforça o contorno das nuvens. Vejo também o clarão  dos raios. 
Nenhum ruído. O vento não  está soprando nem mais forte, nem mais fraco do que antes. Mas sei que vem uma tempestade, porque costumo olhar o horizonte. 
Paro de caminhar – nada mais excitante ou aterrorizante do que olhar uma tempestade que se aproxima. O primeiro pensamento que me ocorre é procurar abrigo – mas isso pode ser perigoso. O abrigo pode ser uma espécie de armadilha – daqui a pouco o vento começará a soprar, e deve ser forte o suficiente para arrancar telhados, quebrar galhos, destruir fios de alta tensão.
Lembro-me de um velho amigo, que quando criança vivia na Normandia, e pôde presenciar o desembarque das tropas aliadas na França ocupada pelos nazistas. Não  me esqueço de suas palavras: 
“Acordei, e o horizonte estava repleto de navios de guerra. Na praia ao lado de minha casa, os soldados alemães  contemplavam a mesma cena que eu. Mas a coisa que mais me aterrorizava era o silêncio. Um silêncio total, que precede um combate de vida ou morte”.
É esse mesmo silêncio que me cerca. E que pouco a pouco é substituído pelo barulho – muito suave – da brisa nos campos de milho a minha volta. A pressão atmosférica está mudando. A tempestade está cada vez mais próxima, e o silêncio começa a ser substituído pelo farfalhar suave das folhas.
Já presenciei muitas tempestades em minha vida. A maior parte das tormentas me pegou de surpresa, de modo que precisei aprender – e muito rápido – a olhar mais longe, entender que não sou capaz de controlar o tempo, a exercitar a arte da paciência, e a respeitar a fúria da natureza. Nem sempre as coisas acontecem do jeito que eu desejava, e é melhor me acostumar com isso. 
Muitos anos atrás compus uma música que dizia “eu perdi o meu medo da chuva/ pois a chuva, voltando para a terra, traz coisas do ar “. Melhor dominar o medo. Ser digno daquilo que escrevi, e entender que, por pior que seja o vendaval, em algum momento ele passará. 
O vento aumentou de velocidade. Estou em um campo aberto, existem árvores no horizonte que, pelo menos teoricamente, irão atrair os raios. Minha pele é impermeável, mesmo que as minhas roupas fiquem encharcadas. Portanto, melhor desfrutar desta visão, ao invés de sair correndo em busca de segurança. 
Outra meia hora se passa. Meu avô, engenheiro, gostava de me ensinar as leis da física enquanto nos divertíamos: “depois de ver o raio, conte os segundos e multiplique por 340 metros, que é a velocidade do som. Assim, você sempre saberá a distância dos trovões”. Um pouco complicado, mas me acostumei a fazer isso desde criança: neste momento a tempestade está a dois quilômetros de distância. 
Ainda há claridade suficiente para que eu possa ver o contorno das nuvens que os pilotos de avião chamam de CB – cumulus nimbus. O formato de bigorna, como se um ferreiro estivesse martelando os céus, forjando espadas para deuses enfurecidos, que neste momento devem estar sobre a cidade de Tarbes. 
Vejo a tempestade que se aproxima. Como toda e qualquer tempestade, ela traz destruição – mas ao mesmo tempo molha os campos, e a sabedoria do céu desce junto com a sua chuva. Como toda e qualquer tempestade, ela deve passar. Quanto mais violenta, mais rápida. 
Graças a Deus, aprendi a enfrentar tempestades. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Palavras que merecem reflexão

llMudança
Geralmente confundido com a famosa frase de Lampedusa: “melhor mudar um pouco, de modo que tudo possa continuar a mesma coisa”. E quando pressentimos que chegou a hora de mudar, começamos inconscientemente a repassar um vídeo mostrando todas as nossas derrotas até aquele momento. É claro que, à medida que ficamos mais velhos, nossa cota de  momentos difíceis é maior. 
Mas, ao mesmo tempo, a experiência nos deu meios de superar essas derrotas, dar a volta por cima, e encontrar um caminho que permitisse seguir adiante. Também precisamos assistir esta fita em nosso videocassete mental. Atenção: se assistirmos apenas o vídeo da derrota, vamos ficar paralisados. Se nos detivermos no vídeo da experiência, vamos terminar nos julgando mais sábios do que realmente somos. 
Melhor sempre ter as duas fitas ao alcance da mão. E, quando chegar o momento de um novo passo, encerrar um ciclo e começar algo diferente. 

llVontade
Esta é uma palavra que a gente deveria colocar sob suspeita durante algum tempo. Quais são as coisas que a gente não faz porque realmente não tem vontade, e quais aquelas que não fazemos porque são arriscadas? 
Eis um exemplo de risco que confundimos com "falta de vontade": falar com desconhecidos. Seja um flerte, um simples contacto, um desabafo, raramente  conversamos com estranhos. E sempre achamos que "foi melhor assim". 
Terminamos sem ajudar e sem sermos ajudados pela Vida. Nossa distância nos faz parecer muito importantes, muito seguros de nós mesmos, mas - na prática - estamos  passando longe dos milagres que os anjos colocaram em nosso caminho. 

llVoz Interior
Na maior parte das vezes, confundida com “inspiração”, o que é um equívoco. Estamos sempre escutando certas vozes interiores, ruídos destinados a nos distrair, a nos fazer perder o contacto com a vida. Não se calam, não sossegam nunca. Certas Tradições mágicas dizem que nosso controle sobre estas vozes é quase nenhum. 
Quem já experimentou meditação sabe o quanto isto é verdade; e mesmo quem nunca meditou sabe que elas existem  (músicas que cantamos mentalmente, pensamentos que não conseguimos evitar, etc.) Só uma coisa faz calar estas vozes: o Entusiasmo. Quando estamos verdadeiramente envolvidos na arte de viver, estas pequenas e mesquinhas vozes interiores deixam de falar suas bobagens - e então podemos ouvir a voz de nosso anjo da guarda, a voz de nosso coração,  a voz de Deus. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Os novos empreendedores

llPamela Hartigan, diretora da Fundação Schwab, desenvolveu uma lista de dez pontos comuns entre as pessoas que, insatisfeitas com o mundo a sua volta, resolveram criar seu próprio trabalho. Penso que a lista de Pamela vai mais além do empreendimento social (como é chamado esse novo mecanismo), e pode ser aplicada a muitas coisas que fazemos na nossa vida diária:
Impaciência: quem busca seu sonho não fica esperando as coisas acontecerem: vê os problemas de ontem como as oportunidades de hoje. Por causa da sua impaciência, é frequentemente obrigado a mudar de rumo, mas é essa  adaptação que o amadurece. 
Consciência: quem busca seu sonho sabe que não está sozinho neste mundo, e cada gesto seu tem uma consequência. O trabalho que está fazendo poderá transformar o ambiente ao seu redor. Entendendo este poder, ele passa a ser um elemento ativo da sociedade, e isso o deixa em paz com a vida. 
Inovação: quem busca seu sonho acredita que tudo pode ser diferente do que é, mas é preciso buscar um caminho que ainda não foi percorrido. Embora esteja sempre cercado da velha burocracia, dos comentários alheios, e das dificuldades de penetrar em uma floresta ainda não desbravada, ele descobre maneiras alternativas de se fazer ouvir.
Pragmatismo: quem busca seu sonho não fica esperando os recursos ideais para começar seu trabalho – arregaça as mangas e coloca mãos à obra. Cada progresso, por menor que seja, aumenta sua confiança e a confiança daqueles que está ao seu redor, e os recursos terminam por aparecer.
Aprendizado: quem busca seu sonho é geralmente alguém que tem um grande interesse em determinada área, e cuja observação detalhada faz com que encontre novas soluções para problemas antigos. Mas este aprendizado só poderá ser atingido através da prática, e da constante renovação. 
Sedução: ninguém consegue sobreviver isolado em um mundo competitivo: consciente disso, quem busca seu sonho consegue fazer com que outras pessoas se interessem por suas idéias. E essas pessoas se interessam porque sabem que estão diante de algo criativo, comprometido com a sociedade, e que – além do mais – pode ser lucrativo economicamente.
Flexibilidade: quem busca seu sonho tem uma idéia na cabeça, e um plano para transformá-la em realidade. Entretanto, à medida que caminha, vai se dando conta de que precisa adaptar-se as realidades do mundo a sua volta, e é a partir daí que sua responsabilidade social passa a ser um fator importante na transformação do meio-ambiente. Um exemplo: para diminuir a mortandade infantil de uma determinada cidade, não basta cuidar da saúde das crianças – é preciso modificar a estrutura sanitária, o sistema de alimentação, etc.     
Teimosia: quem busca seu sonho pode ser flexível no seu caminho, mas está ao mesmo tempo concentrado em seu objetivo. Por causa de suas idéias inovadoras, e por estar  sempre movendo-se em terreno não conhecido, jamais diz: “tentei, mas não deu resultado.” Ao contrário, sempre busca todas as alternativas possíveis, e por causa disso os resultados terminam aparecendo. 
Alegria: quem busca seu sonho tem momentos difíceis, mas está contente com o que faz. Suas eventuais confusões e erros nada têm a ver com sua incapacidade, e ele é capaz de sorrir quando dá um passo em falso – porque sabe que poderá corrigir seu movimento mais adiante.
Contágio: quem busca seu sonho tem a capacidade única de fazer com que as pessoas a sua volta percebam que vale a pena seguir seu exemplo e fazer a mesma coisa. Por causa disso jamais irá sentir-se sozinho, mesmo que vez por outra sinta-se incompreendido.  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

William Blake, o visionário

“Ver o Universo no grão de areia
e o Paraíso em uma flor;
segurar o Infinito na palma de sua mão
e notar a Eternidade em uma hora.”

Estas quatro linhas podem sintetizar o que, hoje em dia, se chama “a nova consciência” – a capacidade de entender que tudo está interligado, os instantes mágicos fazem parte do cotidiano, e basta um pouco de abertura interior para perceber que somos capazes de mudar por completo a nossa realidade, eliminando a maior parte das coisas que nos deixa insatisfeitos. Na época em que tais versos foram escritos, porém, eles passaram quase despercebidos.
Seu autor, o inglês William Blake (1757-1827), nasceu de uma família pobre, e morreu totalmente rejeitado pelos círculos intelectuais da época. Alegavam os críticos que misturava muito misticismo ao seu trabalho, tinha comportamentos estranhos (como, por exemplo, ficar nu com sua mulher no jardim de uma casa de campo que lhe tinha sido emprestada), ser demasiadamente inocente em seus textos. 
Os críticos morreram, e Blake é hoje considerado – não apenas por sua literatura, mas também por suas gravuras, que tive oportunidade de ver na Tate Gallery, em Londres – um dos artistas mais completos do milênio passado. 
Blake conta que, ainda criança, estava em um parque perto de Londres quando viu anjos nas árvores, e o profeta Ezequiel surgiu entre as criaturas aladas. Mais tarde, já com 30 anos, o seu irmão menor morreu – e Blake garante que seu espírito lhe apareceu alguns dias depois, coberto de luz, para ensiná-lo a fazer “livros não impressos”, ou seja, gravar texto e ilustrações de modo artesanal, em tiragens limitadíssimas.
 Seguindo o conselho, Blake começa a desenvolver uma tese que chama “os estados contrários da alma humana.”
Um destes estados é a inocência, quando a imaginação nos leva ao crescimento. 
O outro estado é a experiência, quando a nossa imaginação se vê diante de regras, moralidade, e repressão. 
Blake viveu intensamente sua vida, morreu pobre, mas garantindo que tinha feito tudo o que desejava.  Em um de seus trabalhos mais polêmicos, “O casamento do céu e do inferno” – ele diz ter visitado o reino das trevas, e anotado os provérbios que os demônios costumavam dizer entre si. A seguir, uma seleção destes provérbios.
“Na época de semear, aprende. Na época da colheita, ensina. No inverno, aproveita.”
“A estrada dos excessos leva ao palácio da sabedoria”
“A cisterna contém; mas a fonte transborda.”
“A Prudência é uma solteirona velha e rica, cortejada pela Incapacidade.” 
 “Um tolo não vê a mesma árvore que vê um sábio.”
“O que deseja, mas não age, semeia a peste.”
“Nenhum pássaro voa demasiado alto apenas com a ajuda de suas próprias asas”. 
“As prisões foram construídas com as pedras da lei, e os bordéis, com as pedras da religião.”
“O que hoje está provado, ontem era apenas um sonho.”
“Tudo que pode ser imaginado, é um reflexo da verdade”. 
“Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos do conhecimento.”
“De água parada, sempre espere o veneno.” 
“A raposa cuida de si mesma; mas Deus cuida do leão.”
“O homem que melhor te conhece é aquele que permitiu ser abusado por ti.”
“As orações não aram; os elogios não amadurecem.”
“Nunca saberás o que é suficiente, se não te permites saber o que é mais que suficiente”. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Duas histórias sobre hipocrisia

llA lei e as frutas
No deserto, as frutas eram raras. Deus chamou um dos seus profetas, e disse:
- “Cada pessoa só pode comer uma fruta por dia."  
O costume foi obedecido por gerações, e a ecologia do local foi preservada. Como as frutas restantes davam sementes, outras árvores surgiram. Em breve, toda aquela região transformou-se num solo fértil, invejado pelas outras cidades. 
O povo, porém, continuava comendo uma fruta por dia – fiel à recomendação que um antigo profeta tinha passado aos seus ancestrais. Além do mais, não deixava que os habitantes das outras aldeias se aproveitassem da farta colheita que acontecia todos os anos. 
O resultado era um só: as frutas apodreciam no chão. 
Deus chamou um novo profeta e disse:
- Deixe que comam as frutas que queiram. E peça que dividam a fartura com seus vizinhos. 
O profeta chegou na cidade com a nova mensagem. Mas terminou sendo apedrejado – já que o costume estava arraigado no coração e na mente de cada um dos habitantes. 
Com o tempo, os jovens da aldeia começaram a questionar aquele costume bárbaro. Mas, como a tradição dos mais velhos era intocável, eles resolveram afastar-se da religião. Assim, podiam comer quantas frutas queriam, e dar o restante para os que necessitavam de alimento. 
Na igreja local, só ficaram os que se achavam santos. Mas que, na verdade, eram pessoas incapazes de enxergar que o mundo se transforma, e que nós devemos nos transformar com ele. 

llO profeta e os tigres
O falso profeta chegou à aldeia e assustou a todos com  ameaças de males que viriam da floresta. As pessoas, assustadas, reuniram uma enorme quantia de dinheiro e lhe entregaram, de modo que conseguisse afastar o perigo. 
O homem comprou alguns pães velhos, e começou a espalhá-los em torno da floresta, recitando palavras incompreensíveis. Um rapaz se aproximou:
- O que está fazendo?
- Salvando os seus pais, seus avós, e seus amigos da ameaça dos tigres. 
- Tigres? Mas não existem tigres neste país!
- Por força da minha magia – disse o falso profeta. – Ela funciona sempre, como está vendo. 
O rapaz ainda tentou argumentar. Mas os habitantes  resolveram expulsá-lo da cidade, pois ele estava atrapalhando o trabalho daquele homem santo.

llA reflexão 
Diz o monge beneditino Steindl-Rast:
“De manhã, devemos nos comportar como se fossemos atravessar uma rua: parar, olhar para os lados, e  ir em frente.” 
“Antes de nos atirarmos a atividade frenética do dia, nós paramos. Isto nos permite refletir sobre nossas prioridades, as atitudes possíveis diante de um problema, as decisões que precisam ser tomadas”.
“Em seguida, nós olhamos para os lados. Não adianta parar, se não enxergamos o que acontece a nossa volta. É necessário entender que, ao tomar uma decisão, estamos influenciando e sendo influenciados por tudo que está acontecendo a nossa volta.”
“Finalmente, nós seguimos adiante. Não adianta parar, olhar para os lados, se não temos um objetivo definido. O fato de agir é que justifica tudo - e que nos permite mostrar, através do trabalho, a imensa glória de Deus. E para que tudo isso dê certo, basta se comportar da mesma maneira que nos comportamos quando atravessamos uma rua”. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Do autor e seu compromisso

llNo dia 29 de maio de 2002, horas antes de eu colocar um ponto final no meu novo livro, fui até a Gruta de Lourdes, na França, encher alguns galões de água milagrosa na fonte que ali se encontra. Já dentro do terreno da catedral, um senhor de aproximadamente 70 anos me disse: “Sabe que você parece com o Paulo Coelho? ” Eu respondi que era o próprio. 
O homem me abraçou, me apresentou a sua esposa e sua neta. Falou da importância de meus livros em sua vida, concluindo: “Eles me fazem sonhar.”
Já escutei esta frase várias vezes, e ela sempre me deixa contente. Naquele momento, entretanto, fiquei muito assustado – porque sabia que “Onze minutos”  falava de um assunto delicado, contundente, chocante; o percurso de uma prostituta brasileira em busca do encontro com sua alma. Caminhei até a fonte, enchi os galões, voltei,  perguntei onde morava (no norte da França, perto da Bélgica) e anotei o seu nome.
Na mesma hora, tomei a decisão de dedicar o livro a este senhor, Maurice Gravelines. Tenho uma obrigação para com ele, sua mulher, sua neta, e comigo: falar daquilo que me preocupa, e não do que todos gostariam de escutar. 
Alguns livros nos fazem sonhar, outros nos trazem a realidade, mas nenhum pode fugir daquilo que é mais importante para um autor: a honestidade com o que escreve. Escrever sobre sexo, para mim, era um desafio que me acompanhava desde minha juventude, quando a revolução hippie criou uma série de novos comportamentos a este respeito, às vezes indo até o limite do bom-senso. Depois destes anos loucos,  passamos por um período conservador, pelo advento das doenças mortais, por aquela pergunta que sempre voltava: “mas sexo é mesmo tão importante assim?” 
Vivemos em um mundo de comportamento padrão: padrão de beleza, de qualidade, de inteligência, de eficiência. Achamos que existe um modelo para tudo, e achamos também que, seguindo este modelo, estaremos seguros. 
E por causa disso, estabelecemos um “padrão sexo”, que na verdade é composto de uma série de mentiras: orgasmo vaginal, virilidade acima de tudo, melhor fingir que deixar o outro decepcionado, etc. Como consequência direta, este tipo de atitude tem deixado milhões de pessoas frustradas, infelizes, culpadas. E tem provocado todo tipo de aberração, como a pedofilia, o incesto, ou o estupro.  Por que nos comportamos assim com algo tão importante? 
Da mesma maneira que um autor não sabe jamais o percurso que irá percorrer com seus livros – e por isso permite que seus textos caminhem em direções inesperadas - nós também precisamos viver nossas contradições, principalmente em áreas tão sensíveis como o sexo e o amor. O homem que quer seguir um padrão o tempo todo, será obrigado a pensar hoje o que pensava ontem, e usar sempre a gravata combinando com a meia; existe algo de mais aborrecido? 
A sociedade que hoje aborda o comportamento sexual com o “padrão”, sem respeitar as diferenças individuais, deve procurar lembrar-se de um dos mais belos poemas sobre a condição humana, o hino a Isis descoberto  Nag Hammadi, que os peritos datam entre os séculos III e IV de nossa era:

Porque eu sou a primeira e a última
Eu sou a  venerada e a desprezada
Eu sou a prostituta e a santa
Eu sou a esposa e a virgem
Eu sou a mãe e a filha
Eu sou os braços de minha mãe
Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos
Eu sou a bem-casada e a solteira
Eu sou a que dá a luz e a que jamais procriou
Eu sou a esposa e o esposo
E foi meu homem quem me gerou em seu ventre
Eu sou a mãe do meu pai
Sou a irmã de meu marido
E ele é o meu filho rejeitado
Respeitem-me sempre
Porque eu sou a escandalosa e a discreta.